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Awaken, My Love!, de Childish Gambino

Awaken, My Love!, de Childish Gambino

Mario Martins - 27 de Janeiro de 2018

Donald Glover, astro da série “Atlanta” e futuro Simba no live action de Rei Leão, é Childish Gambino. Se sua carreira no audiovisual vem sendo cada vez mais valorizada, o prestígio na música vem seguindo o mesmo caminho. Em uma época onde tudo no pop soa igual e somos obrigados a notar as semelhanças instrumentais e estruturais, surge “Awaken, My Love!”. O título parece clamar pela volta de um alguém querido, teoria essa que ganha um argumento extra ao notarmos a belíssima capa do álbum.

Me and your mama” é a primeira faixa do disco e traz toda a complexidade musical que estávamos desacostumados a ouvir. Tendo uma imersão de 2 minutos ao som de um teclado que parece simular uma caixa de música e um coral com os dizeres “Im in Love when we’re smoking that la-la-la-la”, isto é, “estou apaixonado quando estamos fumando aquele la-la-la”, a música estoura com um riff de guitarra que parece obra de Tony Iommi (guitarrista do Black Sabbath). A linha de voz de Gambino é impecável e se a música se divide em 4 atos, torna-se quase impossível não degustarmos os gritos rasgados e relaxarmos sob a fina e resistente camada instrumental.

Na sequência, temos “Have Some Love”, que segue fazendo uso de backin’ vocals femininos, desta vez mais grave que na faixa anterior. A repetição inicial da letra junto com a percussão constante parecem criar um hino, característica essa fortalecida pelo fato de todas as vozes cantarem unidas. Ao mesmo tempo que nos ambientam em um clima ritualístico, onde aos poucos vão se sobrepondo uma série de trechos, seja de ruídos, instrumentos ou voz, gerando um caos organizado, extremamente prazeroso de se ouvir.

Se o rock n’ roll se mostra fortemente presente  ao longo de “Awaken, My Love!”, não podemos deixar de creditar a presença do guitarrista Gary Clark Jr., que junto com o produtor musical Ludwig Göransson –que também produziu seus álbuns anteriores- conseguem unir o psicodélico com o soul. Observemos por exemplo as músicas “Zombies” e “Boogieman”, ambas apresentando diversas camadas e sempre com a guitarra, lindamente funkeada, presente.

 

Riot” é a canção mais breve do CD, tendo somente 2 minutos e 5 segundos de duração, investe-se muito no efeito de reverberação, isto é, prolongamento do som. Não chega a ser um eco, mas apenas a sensação de se estar ouvindo a música em uma caverna. “Redbone” quebra o clímax de profundidade e nos traz de volta a um caráter mais comercial. Até mesmo quando notamos que a música foi feita com uma certa simplicidade para divulgação, esta ainda é complexa e desabrocha quando menos esperado. Temos perfeita noção de que um filme fica melhor quando imprevisível, mas continuamos consumindo músicas que tendem a se repetir. “Redbone” mesmo sendo constante, consegue terminar em um patamar diferente do de início.

Os chocalhos e guitarra limpa abrem alas para que toda a característica de “California”seja apresentada de forma suave, sendo possível até ouvirmos sons metálicos ao fundo, parecendo com o de talheres batendo. Instrumentos de sopro reforçam uma harmonia que se reveza com o teclado. O ambiente “praiano” é inevitável, por conta da pegada das cordas e o tom tribal das percussões.

Traduzindo ao pé da letra o título da 8ª faixa de “Awaken, My Love!”, “Terrified” significa aterrorizado. Se na indústria musical os gritos ou prolongamentos vocais e agudos crescentes são associados com demonstração de alcance, aqui eles estão diretamente ligados com o nome da canção. Se a voz de Gambino no refrão não é suficiente para mostrar tal terror, no final, a fragilidade de tal sensação é abordada com uma criança cantando de forma intensa e assustada. Havia a opção de usar o falsete de Donald Glover –que é ótimo-, mas ele optou em levar a fragilidade ainda mais a sério.

 

Por falar em falsete, ele volta dar as caras em “Baby Boy”. Desta vez sim, usado como recurso introspectivo para aprofundar a sensação que ali se mostra presente. A bateria segue um andamento sem pressa, um órgão pode ser escutado querendo atenção lá atrás e que vai cada vez mais ganhando espaço, remetendo inclusive ao som do The Doors quando isso acontece.

É possível notar uma presença meio gospel no coral de “The night me and your mama met”, que serve de base para a guitarra de Clark Jr. Recheada de wah (efeito de som). Glover não canta aqui, dando à música uma característica de prelúdio ou simplesmente uma peça instrumental voltada para outro foco. E acaba que ela de fato serviu para criar terreno para a faixa final do disco, “Stand Tall”. Os acordes “wahwahdos” vão aos poucos trazendo a melodia vocal suave e que vão caminhando juntos até passarem por um caminho de efeitos eletrônicos e flauta. Enterra-se então tudo o que foi mostrado e nasce uma nova música aproximadamente aos 4 minutos. O caminho então segue livre para experimentar mudanças sonoras e misturar palmas com violão e beats eletrônicos. A viagem se conclui de maneira inesperada e ao mesmo tempo pacífica.

Carregando um mix da essência máxima do rock psicodélico, a fluidez do pop americano e o R&B, que junto ao soul, formam a aliança da cultura afro, “Awaken, My Love!” consagra de vez Childish Gambino, que com seu drive vocal carrega a força que todos esses gêneros pedem, proporcionando ao ouvinte a sensação de agonia, morte e orgasmo, tudo junto. Se no início eu digo que a capa e tradução do título remeter a um ritual de ressuscitar um ser, fica bem claro que este é a qualidade na indústria musical.

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