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Better Call Saul – 4ª temporada

Better Call Saul – 4ª temporada

Matheus Fiore - 11 de outubro de 2018

A quarta temporada de “Better Call Saul” tinha um desafio imenso: superar a antológica conclusão do ano anterior. Com a morte de Chuck McGill, Jimmy finalmente teve o caminho livre para seguir seu rumo sem empecilhos. O que vemos no quarto ano, portanto, são os últimos retoques do ethos do personagem que foi consagrado em “Breaking Bad”. Em outras palavras, podemos definir a quarta temporada como sendo a que deságua o tão esperado renascimento de Jimmy McGill como Saul Goodman.

Vale destacar que o ano quatro de “Better Call Saul” não se limitou ao renascimento de seu protagonista. Foi, no geral, uma temporada dedicada a pesadas transformações de todos os personagens principais. Enquanto Jimmy testou diferentes formas de enriquecer até vir a se tornar, de fato, Saul Goodman, Kim Wexler aos poucos desconstruiu seu próprio caráter para auxiliar o homem que ama. Paralelamente, percebemos como Mike Ehrmantraut abraçou o lado sombrio de sua personalidade ao cometer crimes contra a própria vontade.

Em oposição a esses personagens, temos um belo plantel de vilões que serve de referência para a moralidade dos protagonistas. É interessante notar que essas transformações de caráter e moralidade são trabalhadas não só pelo roteiro, mas também pela construção da mise-en-scène. Quando Mike chega em seu momento mais sombrio, por exemplo, a cena seguinte traz o personagem em uma escadaria de um ambiente escurecido, onde, no fim dos degraus, está Gustavo Fring. Como se mesmo o momento mais obscuro de Ehrmantraut não fosse suficiente para colocá-lo no mesmo patamar de Fring.

Com Jimmy, porém, não há uma transformação, mas uma descoberta. Se, na relação entre Gus e Mike, Gus é o extremo que corrompe Mike, na jornada de Jimmy, ele é o extremo que corrompe Kim. É magistral o trabalho feito pelo roteiro da série, já que os três anos anteriores se dedicaram a construir uma Kim Wexler extremamente íntegra, profissional e psicologicamente equilibrada. No quarto ano, porém, tudo isso vai abaixo graças a seu relacionamento com Jimmy. Kim perde o controle emocional em discussões, se ausenta em compromissos profissionais e até age nos limites da legalidade.

Assim como a desconstrução de Mike é representada pela “caverna” na qual o personagem se encontra ao fim da temporada, a mutação de Kim também é trazida de forma física e metafórica. Vale lembrar que, na temporada anterior, Kim sofreu um acidente de carro e, desde então, possui cicatrizes e anda com uma tipoia em seu braço, um claro simbolismo para o rompimento moral pelo qual a advogada passou nos últimos tempos.

O curioso é constatar que a transformação de Jimmy em Saul não é obra do acaso. Conseguimos, após quatro temporadas, compreender todos os caminhos que levaram o advogado a ser o que é. Notamos, por exemplo, que Jimmy tentou trabalhar nos limites da legalidade por muito tempo, mas só encontrou seu rumo quando abdicou de normas éticas e decidiu mentir deliberadamente.

Essa transformação se deve, principalmente, ao que Jimmy passou com seu falecido irmão, Chuck, que sempre o tratou como alguém submisso e subserviente. A promessa de uma oportunidade no escritório Hamlin, Hamlin & McGill foi muitoalimentada até que Jimmy finalmente percebesse que nunca teria espaço ao lado de seu irmão e de Howard. A cisão de Jimmy com o sistema, portanto, é quase uma forma de vingança por ter sido excluído. É claro que isso não justifica o caminho de mentiras e crimes que Saul Goodman percorre após Jimmy reconquistar sua permissão para trabalhar, mas a graça de “Better Call Saul” está justamente aí: nós compreendemos e somos capazes de sentir empatia pelo protagonista, mesmo que ele esteja errado. Ou seja: mesmo que trabalhe com conceitos tão extremos de maldade e bondade, o roteiro de Gilligan e Gould sempre parte deles para construir um terreno mais cinzento e menos polarizado.

“Better Call Saul” termina sua quarta temporada com todas as cartas na mesa. Desde o início da série, é a primeira vez que todos os personagens estão sem suas máscaras e possuem seus conflitos especificados de forma clara e direta. O mais incrível, porém, é ver como a série tem a coragem de fazer de seu protagonista a âncora de decadência ética e moral de sua própria companheira. Aliando um roteiro extremamente preciso com um trabalho de direção e fotografia repletos de simbolismo, a série derivada de “Breaking Bad” segue superando as expectativas e surpreendendo seu público. É merecedora de aplausos a capacidade dos roteiristas e diretores de fazer com que os personagens tenham ascensões e declínios tão palpáveis e controlados. Se, no começo da série, temos uma plena noção de quem está do lado bom e do lado mau, o grande êxito do quarto ano é embaralhar completamente essa noção e nos desafiar a abraçar a invalidade de uma visão binária.

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