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Black Dog: Os sonhos de Paul Nash

Black Dog: Os sonhos de Paul Nash

Gustavo Pereira - 4 de junho de 2018

“Black Dog: Os sonhos de Paul Nash” é mais que uma biografia em quadrinhos. Eventos marcantes da vida do artista estão na obra, obviamente. Mas Dave McKean (“Cages”“Sinal e Ruído”“Asilo Arkham”“Sandman”) não os usa como mais do que referências, pontos de partida para buscar algo lúdico sobre a formação do caráter de Nash, oficial artista da Primeira Guerra Mundial e marco do Modernismo Britânico. Borrando a linha entre realidade e sonho, McKean discursa sobre as consequências da guerra no ethos do Reino Unido e na psiquê de um jovem tentando se conectar ao pai, salvar a mãe, vencer os traumas do passado e encontrar sua “missão” no mundo.

Black Dog Dave McKean Paul Nash

Desde o primeiro capítulo, o vermelho é associado às violências sofridas por Nash, tanto físicas, de guerra, quanto emocionais, como a doença da mãe

Dividida em 15 capítulos, “Black Dog” não guarda um compromisso estrito com a linearidade temporal. A infância de Nash é recorrente na história, voltando sempre que algum evento do presente ecoa uma experiência passada. A insegurança e a sensação de não-pertencimento do protagonista são constantes, desde o seu primeiro sonho (que também marca a aparição do Cão Preto que dá nome à obra) até o último, passando pela reconstituição de eventos, como o casamento do artista com a sufragista Margaret Odeh e a relação com o também artista e companheiro de trincheira Claud Lovat Fraser. McKean reforça essa inadequação ilustrando Nash ora num estilo que “não encaixa” com o restante da composição ou em formas assimétricas, numa referência sutil ao Cubismo.

Black Dog Dave McKean Paul Nash

Composição de McKean que homenageia o surrealismo de Nash, como pode ser visto ao comparar com um de seus quadros da Primeira Guerra

McKean, a propósito, explora um amplo espectro de técnicas nesta HQ: famoso por criar seus quadros manualmente, fotografá-los e só depois usar programas de computador para ajustes e composição, dedica capítulos a pastel e lápis, pintura a óleo e também colagens. A percepção de texturas fica clara na edição impressa (30,6 x 23,6 cm), onde é possível ver, por exemplo, a tridimensionalidade das ranhuras dos pincéis. Além do Cubismo, há referências diretas ao Abstratismo de Francis Bacon e ao Expressionismo de Edvard Munch. O uso marcante do vermelho e do verde simboliza o conflito entre a alma de Nash e o mundo que o rodeia. “Black Dog” é, acima de tudo, uma história de origens. Para se tornar o artista que sempre quis, há uma questão para ser resolvida.

McKean combina a diagramação convencional de 12 quadros por página a outras menos usuais, além de muitas ilustrações de página dupla. Essa alternância cria uma leitura mais lenta, mas que aproveita ao máximo o potencial da mídia. Em determinado capítulo, Nash compara a relação com seu pai a um jogo de xadrez. Os quadros que se seguem narram toda essa dinâmica dentro de um tabuleiro de xadrez, onde o pai é o Rei e o filho, um Peão. Em um dos momentos mais marcantes de “Black Dog”, o “comandante” Littlejohns, professor de Nash, comete um ato tão violento contra seu aluno que desestrutura os quadros da página. A mídia reage à narrativa, tornando ambas em uma.

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Há um contraste evidente entre o retrato abstrato do campo de batalha coberto pela neblina e a riqueza de detalhes da trincheira, quando vista de perto

“Black Dog” fala de grandes acontecimentos, mas o interesse pela leitura reside nos pormenores: em meio a uma guerra, um jovem que busca entender como o mundo funciona. Que tenta descobrir se é capaz de transmitir ao público o assombro e o encanto que ele próprio sente quando vê o trabalho de artistas que admira. Se é capaz de transformar suas dores em algo que transcenda à própria existência. Essas questões, aparentemente menores do que a vida-ou-morte de um confronto armado de grandes proporções, são exatamente as que nos tornam humanos.

A justa homenagem ao artista responsável pelos registros mais icônicos da Primeira Guerra Mundial foi resultado de um pedido direto de três instituições: Lakes International Comic Arts Festival, On a Marché sur la Bulle14-18 NOW: WW1 Centenary Art Commissions, esta última encarregada por uma longa programação artística no Reino Unido para marcar o centenário do conflito. Tão dignos de admiração quanto mais esta obra de McKean são o zelo britânico pela própria história e o fomento à produção artística, características marcantes que muito bem poderiam ser copiadas pelo Brasil, país onde parte da população ainda ignora suas origens e subvaloriza seus artistas.

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