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“Blackstar”, de David Bowie

“Blackstar”, de David Bowie

Mario Martins - 10 de janeiro de 2018

Tendo falecido no dia 10 de janeiro de 2016, David Bowie, que despensa apresentações, deixou um legado grandioso ao longo de sua carreira recheada de sentimentos, cores, visuais, mensagens, viagens e inspirações. Dois dias antes da data de sua morte, no dia 8, Bowie lançou aquele que tornou-se não só seu último álbum, mas também, seu epitáfio.

“Something happened on the day he died

Spirit rose a metre the stepped aside

Somebody else took his place, and bravely cried

(I’m a blackstar, I’m a star’s star, I’m a blackstar)”

Deve-se encarar a primeira faixa de um CD como o episódio piloto de uma série, uma primeira fração que dá o tom geral do que está por vir. A também intitulada “Blackstar” traz beats eletrônicos, canais duplicados de voz –isto é, quando se sobrepõe uma gravação vocal sobre a outra- , cordas que visam dar um toque transcedental, quase erudito e uma guitarra que semitona a melodia principal, dando uma nuance extremamente sombria, ritualística e envolvente. Há uma mudança sonora quando as palavras “I am a Blackstar” tomam forma. O sintetizador com acordes, em sua grande parte do tempo, maiores, nos faz remeter a algo transcedental, divino. Daí em diante, abre-se uma possibilidade não só de visitar variados instrumentos, como também experimentar, algo que sempre foi feito por Bowie. E na música experimental sempre há duas opções: seguir viagem explorando musicalidade ou retornar ao tema principal. “Blackstar” nos leva a diversos lugares e opta sim em nos trazer “de volta”, mas assim como o tema traz bagagem nova na sonoridade, você também provavelmente não volta o mesmo.

 

“’Tis a Pity She Was a Whore”  é um flashback a Hunky Dory, seu álbum de 1971,que trouxe alguns sucessos como “Changes” e “Life On Mars?”. Por que? Por trazer de volta um pop psicodélico e dançante, o que contrasta direto com quem associa música psicodélica com instrumentais reverberados e pra baixo. “Lazarus”, 3º faixa, traz um saxofone ao fundo, tocado por Donny McCaslin e que dá um toque de jazz novaiorquino, naquela que provavelmente é a música com conteúdo mais pessoal do disco. As notas dó, si, sol tocadas por McCaslin dão o toque melancólico de Lazarus, enquanto a letra clama por libertação pessoal e nostalgia.

“Sue (Or in a Season of Crime)” já havia sido usada em sua coletânea “Nothing Has Changed”, de 2014. Contudo, ela reaparece aqui com outro arranjo e uma pegada mais rock n roll sujo. O motivo pelo qual reciclar uma canção já lançada é desconhecido, mas se fosse para arriscar, diria para você dar uma olhada na letra. Tendo uma sonoridade semelhante a recém mencionada, “Girl Loves Me” parece dialogar com a música anterior, expondo uma bateria semelhante no compasso quaternário simples, trabalhando uma estrutura irregular, como se fosse alguém fora de sua sanidade. Observa-se no conteúdo cantado uma nuance de poder utópico, alguém que usa de seu orgulho para se esconder, mas está confuso demais para isso.

Conforme vai chegando ao final, Blackstar desacelera o tempo com “Dollar Days” e vai nos lembrando que tudo se trata de uma despedida. Um violão pode ser ouvido ditando o compasso, enquanto um piano deixa um ar esperançoso nos versos. A pegada jazz segue firme, reafirmando a presença de Donny McCaslin na produção do álbum. David Bowie vai aos poucos se despedindo, se nas faixas anteriores a despedida era de amadas e revisita de lugares, aqui o adeus é pessoal, com um instrumental final extremamente intrapessoal, que evolui até alcançar as primeiras batidas da faixa seguinte, “I can’t Give Everything Away”.

Apesar de “Dollar Days” ter mais cara de finalização, a última faixa parece passar a mensagem desejada por Bowie, a de serenidade no adeus. O homem do espaço fez questão de esconder seu câncer dos fãs e da grande mídia até o momento que lhe foi permitido, tendo inclusive feito os músicos colaboradores de Blackstar assinarem um contrato de confidencialidade sobre sua saúde. As notas se esticam por segundos em “I can’t give Everything Away” e são uma mensagem de “está tudo bem”. É a pacificidade de um adeus, a harmonia de uma missão cumprida, a quietude do homem que sempre fez questão de transformar e agora se permite ser transformado em algo muito maior.

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