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Buscando…

Buscando…

Gustavo Pereira - 20 de setembro de 2018

Falar que o formato é o principal atrativo de “Buscando…”, debute do indo-americano Aneesh Chaganty como diretor, é injusto. Mas também é injusto não destacá-lo. Ao escolher contar sua história pela tela de um computador (como se os eventos do filme fossem um registro de um programa gravador de tela), Chaganty está estilisticamente alinhado à sua trama, enfatizando seu principal elemento e aproveitando o potencial intrínseco para aprofundar as características dos personagens.

Em primeiro lugar, porque a trama não é inédita: um pai procura pela filha desaparecida. Em segundo, porque também não aborda temas incomuns, sendo os três principais a superproteção parental, a autoprojeção online e o luto.  O que engaja o espectador em “Buscando…” é a construção, “academicamente” perfeita, de um bom suspense, que planta todas as evidências para a resolução do caso de forma clara e casual. Ao mesmo tempo em que nos surpreendemos com a conclusão, imediatamente percebemos que já haviam indícios de que ele aconteceria. Quem assistir ao filme terá o prazer de brincar um pouco de detetive, tentando descobrir o que aconteceu com Margot Kim (Michelle La) junto com David (John Cho).

Compreender isso pode ser difícil para muitos dos que nascemos entre as décadas de 1980 e 1990, mas os jovens de hoje cresceram cercados por câmeras digitais e computadores. Os primeiros minutos de “Buscando…” caberiam perfeitamente como um curta-metragem sobre isso. David e sua esposa Pam (Sara Sohn) registram a vida em fotos e vídeos, cuidadosamente organizados em pastas no computador. A forma serve ao conteúdo porque esse cuidado mostra ao mesmo tempo que aquela é uma família feliz e que os pais são afetuosos (de outra forma, não teriam o capricho de criar uma pasta exclusiva para guardar os registros da filha em seus primeiros dias em cada escola).

Quando Pam descobre estar com câncer, a pesquisa por exercícios que pacientes em quimioterapia podem fazer com a família mostra sua união. Quando Margot começa a, sistematicamente, mudar no calendário de eventos a data do regresso da mãe para casa, sabemos que a doença está mais severa do que o esperado. E quando o evento é deletado, sabemos que o pior aconteceu. São gatilhos para agilizar a narrativa e estabelecer as regras sobre como a história principal será contada.

Buscando filme 2018 Aneesh Chaganty

Quando Margot desaparece, a detetive Vick (Debra Messing) pede que David reúna o máximo de informação possível sobre a filha, para ajudar a investigação a definir as próximas decisões a serem tomadas. Quando David começa a realmente conhecer sua filha, “Buscando…” faz uma crítica – quase nada – velada à sociedade contemporânea, que nos compele a ter mais honestidade na frente de uma máquina do que de outro ser humano. Um efeito colateral disso é nos tornarmos muito mais vulneráveis aos olhos de estranhos, algo que ao mesmo tempo cria o problema e fornece a solução. Num nível mais filosófico, “Buscando…” trata a tecnologia como uma ferramenta a serviço do caos, capaz de isolar e expor simultaneamente, onde projetamos nossa imagem ideal e a submetemos ao crivo de outras imagens ideais, ao passo que ocultamos nossa imagem real das relações físicas.

Só isso já tornaria o filme relevante, mas o suspense sobre os rumos do desaparecimento de Margot é perfeitamente construído num roteiro que controla a atenção do espectador o tempo inteiro, como um mágico desvia os olhos de sua plateia para algo irrelevante quando está mostrando algo que realmente importa. Existem três momentos em que o filme poderia terminar de forma satisfatória, mas a cada reviravolta (os últimos minutos estão repletos delas) os temas são ressignificados e cada personagem ganha relevância decisiva na mensagem maior que “Buscando…” quer passar. Enquanto aprendemos mais sobre Margot pela perspectiva de David, também aprendemos mais sobre ele, como em conversas online, quando mensagens são escritas e apagadas, ao invés de enviadas. Há desejo, necessidade, conflito, resolução e crescimento ao longo do filme.

Um dos melhores de 2018 até aqui.

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