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“Custódia” e a psicopatia institucional

“Custódia” e a psicopatia institucional

Ana Flavia Gerhardt - 12 de agosto de 2018

Este artigo contém spoilers sobre o enredo do filme “Custódia”.

Uma vez, um amigo querido me disse que o filme “Entre os muros da escola“, de Laurent Cantet (2008), que escancara de forma trágica a falência do sistema educacional básico na França do século 21, era um filme de terror. Foram necessários alguns anos e ter assistido a “Custódia”, de Xavier Legrand (2017), resenhado por Matheus Fiore aqui no Plano Aberto, para entender completamente o que meu amigo quis dizer, já que “Custódia” é igualmente um filme de terror, como o próprio Fiore também salientou em sua crítica.

Em “Custódia”, o terror se apresenta de forma mais evidente do que em “Entre os muros da Escola”. Assisti a parte do filme protegendo com os braços meu próprio corpo em reação ao que via na tela, e num determinado momento cheguei a gritar de puro pânico – mais terror que isso, impossível. Mas, se observarmos bem de onde vem o terror que o filme entrega aos espectadores, perceberemos que outros filmes que aparentemente não causam medo e angústia aos espectadores vão produzir uma outra forma de terror mais profunda, que remonta a causas históricas milenares. É o caso de “Entre os muros da escola” e, por exemplo, “Eu, Daniel Blake“, de Ken Loach (2016), entre outros filmes, aos quais se junta “Custódia” numa categoria que posso chamar de terror institucional.

Esses filmes abordam o terror produzido no seio de instituições sociais que apresentam alguns traços daquilo que a Psiquatria denomina psicopatia: uma patologia mental caracterizada, basicamente falando, pela falta de empatia com os sentimentos e o sofrimento das outras pessoas, pela incapacidade de nutrir qualquer afeto, seja ele de amor, ódio, rancor, inveja etc., pela incapacidade de vivenciar contradições pessoais, pela total ausência de autoavaliação ou remorso, e pelo egocentrismo exacerbado. Entre outros comportamentos, a pessoa que sofre de psicopatia, por não ser capaz de se envolver verdadeiramente com os semelhantes, permanece inabalável diante de um mundo que se esfacela em torno dela, muitas vezes por causa das próprias ações dela.

Este artigo é uma tentativa de entender “Custódia” como um filme de terror e revelador de problemas históricos e sociais importantes no mundo contemporâneo, cuja discussão, aliás e obviamente, se faz necessária, e para ontem. Para isso, me parece relevante notar e reconhecer, de partida, que a psicopatia causadora de todo o terror do filme não tem origem na pessoa que aparentemente a pratica- inclusive porque essa seria uma saída ingênua demais -, mas sim na instituição que está por trás e não raro licencia suas ações: uma psicopatia num âmbito institucional.

“Entre os muros da escola” ajuda a compreender isso melhor. O que vemos nesse filme é um microcosmo da França multicultural da atualidade, demagogicamente celebrada durante a Copa do Mundo de 2018, mas não efetivamente incluída pela sociedade conservadora europeia apavorada com os refugiados do entorno do Mediterrâneo. Mas a Escola francesa, comportando-se de forma psicopática, permanece estruturada como se a França não tivesse se diversificado culturalmente, e continua, inabalável e incapaz de se transformar, insistindo nas mesmas pedagogias e didáticas que funcionavam (na falta de palavra melhor) no interior de uma elite europeia branca, de corpos docilizados pela família tradicional.

A propósito, assim como a Escola francesa, a Escola brasileira também é psicopata e permanece estagnada diante das transformações sociais no Brasil. Não é por outro motivo que candidatos de extrema direita a cargos públicos prometem implementar escolas militares por todo o país. Fazem isso demonizando educadores brasileiros mundialmente consagrados, que denunciam de forma precisa e avassaladora a psicopatia educacional, cujo projeto sempre foi a construção de depósitos de gente, a produção de corpos dóceis e disciplinados, e a eliminação de qualquer iniciativa diferente disso. Infelizmente, a ausência de prática de questionamento institucional faz com que milhões de brasileiros acreditem que a transformação da sociedade precisa ser barrada a qualquer custo, porque ela representa a decadência dos valores da família tradicional.

O que vou chamar neste artigo de Masculino também é uma instituição psicopata, e é sobre essa psicopatia que “Custódia” trata, entre outros temas igualmente relevantes. O Masculino é essa instituição que está aí há milhares de anos conferindo aos homens o poder de decisão, gestão e propriedade de tudo o que existe no mundo. Por ser psicopata, o Masculino também possui estruturas engessadas e recusa avaliações e críticas diante das transformações reivindicadas e operadas por quem não é homem e tem se recusado cada vez mais a existir como propriedade. Alguns homens, elementos pertencentes a essa instituição, já são capazes de questionar o Masculino, mas isso só acontece à força de muita desnaturalização e muita problematização, que são as únicas ações capazes de trazer saúde às instituições.

Entender o Masculino como uma instituição psicopata é uma das formas de reconhecer que homens que praticam a violência contra pessoas vulneráveis não são doentes mentais, como por muito tempo se acreditou, e muita gente ainda acredita. Pensar isso é apenas mais uma das formas de ignorar a psicopatia institucional, que tem como um dos sintomas justamente depositar não na instituição, mas em membros individuais ou naqueles que estão fora dela, a responsabilidade pela desgraça que produz. Assim, as mulheres são estupradas porque provocariam os homens; homens homofóbicos seriam gays enrustidos; homens de mau caráter são filhos da puta ou cornos – xingamentos que desqualificam socialmente não os homens, mas suas mães e mulheres, invariavelmente julgadas pelo comportamento sexual.

Nesse sentido, é um erro gravíssimo tratar como doentes mentais homens que batem, estupram e matam mulheres. Eles sabem perfeitamente o que estão fazendo. Eles agem assim porque acreditam que podem fazer o que fazem, já que as mulheres que violentam são historicamente definidas como suas propriedades, e por isso eles podem dispor delas como quiserem. A doença está na instituição que engendrou e ainda mantém como ideia cara, malgrado todas as denúncias que o pensamento e as ações feministas estão construindo, a legitimidade falaciosa conferida aos que portam um pênis entre as pernas. Eu estou convicta de que Antoine, o personagem de “Custódia” que trata a ex-mulher Miriam e os filhos como sua propriedade, de fato pensa que ela exagera nas acusações e joga as crianças contra ele, porque apenas por ser homem ele está no pleno direito de fazer o que quiser, quando e onde quiser.

O ganho que o feminismo trouxe ao mundo foi o de mostrar que não se pode mais permitir que homens como Antoine continuem a agir impunemente, embora ainda haja quem defenda essa impunidade. Em quatro situações, o filme mostra com precisão que essa defesa existe mesmo sem as pessoas perceberem, porque todos nós estamos completamente institucionalizados e por isso imersos na psicopatia institucional. Primeiro, numa fala sutil, quando o pai de Antoine se retira da mesa de almoço e diz à esposa: “vou tomar meu café na sala”, revelando numa simples frase a estrutura rígida patriarcal e machista, de lugares tradicionais e fixos de gênero, em que Antoine foi criado.

Segundo, quando Julien, o filho mais novo de Antoine, “proíbe” a irmã mais velha de namorar, assim como o pai procurou fazer de maneira violenta. Mesmo detestando o pai e sendo vítima da violência dele, Julian, ainda bastante jovem, não é capaz de diferenciar completamente o certo e o errado no comportamento do pai. É de se esperar que, já adulto, ele repita esse tipo de discurso de proprietário mesmo mantendo a revolta contra o que o pai fez com sua mãe e irmã.

Terceiro, quando o pai de Antoine o rejeita e o expulsa de sua casa, dizendo que ali ele não daria ordens. Ora, faz parte do Masculino a ideia de que cada homem tem suas propriedades específicas, e para isso são criados determinados procedimentos e regras que mantêm inalienável esse patrimônio. Não é por outro motivo que, diante da fala de seu pai, Antoine, diferente da forma como reage às ações da ex-mulher e dos filhos, baixa a cabeça, pega suas coisas e vai embora: dois machos não dividem o mesmo nicho.

E quarto, durante um encontro tenso e perigoso entre Antoine e Miriam, quando um amigo se aproxima para ajudá-la. Ao vê-lo, Antoine lhe diz: “estou falando com minha mulher”, o que faz com que o outro homem se afaste. A absurda e irreal frase de Antoine reforça a ideia de que, para ele, Miriam sempre será sua propriedade, e por isso não tem direito a nenhuma iniciativa própria. Ao se afastar, o homem, mesmo sendo um amigo de Miriam, demonstra reconhecer a precedência de Antoine como proprietário, o que institucionalmente se explica, mas eticamente denuncia o tamanho da sua covardia.

Da mesma forma que a psicopatia escolar é uma doença institucional que afeta a todos – alunos, professores, gestores escolares -, a psicopatia do Masculino também embota o raciocínio de quem não é homem, o que leva à sua perpetuação. Somos todos vítimas dele: crianças, mulheres e homens também, porque a cultura da violência que o Masculino engendra acaba por traumatizar e ceifar vidas todos os dias, como mostra este artigo que contabiliza os dados oficiais de violência de gênero no Brasil. Um problema que vejo hoje é que muitas pessoas conseguem enxergar que os traumas e as mortes precisam parar, mas não conseguem ver que as mudanças pessoais de pensamento precisam ser acompanhadas de mudanças institucionais e históricas, de ampliação das visões de mundo e de reconhecimento das injustiças sociais profundas, derivadas da ideia de que algumas pessoas valem menos que outras, e por isso podem ser propriedade de outras.

Por mais que muitos de nós desejemos essas mudanças urgentemente, precisamos aceitar que elas não vão acontecer na velocidade que queremos, porque a psicopatia institucional faz parte do DNA das sociedades. Elas acontecerão na velocidade em que podem ser feitas. Cabe a cada um que deseja essas mudanças trabalhar como puder para plantar suas sementes. Por isso, filmes como “Custódia” precisam ser divulgados por quem se afetou com sua denúncia. Tais filmes alimentam com conteúdo relevante e saúde mental a discussão crítica sobre as instituições sociais e a violência que elas naturalizam. Essa é, a meu ver, a única maneira de acabar, no mundo “real”, com o terror psicopático que presenciamos em “Custódia”.

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