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Custódia

Custódia

Matheus Fiore - 6 de agosto de 2018

Em um tempo em que o feminicídio é tema de tantas discussões, não surpreende que a arte seja, muitas vezes, a manifestação desse debate. Em Custódia, o diretor e roteirista Xavier Legrand trabalha o assunto de forma curiosa. Lagrand cria um cenário cinzento e, aos poucos, molda a personalidade dos personagens, dando a eles características dignas de bons vilões, mas também encontrando brechas para sugerir uma fragilidade a esses mesmos indivíduos. A intenção não é, nem de longe, dizer que não há inocentes e culpados, mas sim mostrar como a violência não parte unicamente de pessoas exclusivamente agressivas; os culpados podem ser tão frágeis e humanos quanto às vítimas.

Custódia nos conta a história da família Besson. Julien, o caçula, tem sua guarda disputada na justiça pelos pais, Antoine e Miriam. Já no começo, a narrativa acerta ao criar um cenário dúbio. Desde o plano inicial, que traz a juíza diante de duas janelas (que representam os pais) momentos antes da audiência de custódia, até a construção do cenário onde ocorre a disputa judicial: uma sala fria e cinzenta, que estabelece duas coisas: a absoluta ausência de amor entre os pais de Julien e a complexidade daquele caso.

Após deixar bem estabelecidas as acusações de Miriam – para a juíza, a mãe afirma que seu ex-marido é violento e perigoso –, o filme acertadamente foca na relação de Antoine com seu filho, Julien. Lagrand busca construir um cenário de pai e filho que, de forma semelhante ao de marido e mulher estabelecido na cena inicial, não há amor. Para isso, a manutenção de uma iluminação fria é importante, mas há de se destacar também as escolhas de enquadramentos, que isolam os personagens. Quando Julien fala, seu pai ou não está no plano, ou aparece apenas no canto, e o mesmo vale para a situação inversa.

Com isso, a narrativa cria uma estranheza no encontro entre os personagens que aos poucos se torna o cenário para uma relação abusiva. Quando trata essas relações, Custódia faz escolhas bastante corajosas. Se a primeira metade da trama é bem sutil no que tange as personalidades e relacionamentos dos personagens – um momento mais agressivo de Antoine, por exemplo, é sucedido por um desabafo emocional que escancara a vulnerabilidade emocional do pai –, do meio da projeção em diante, a obra se torna uma profusão de cenas reveladoras e tão perturbadoras quanto reais.

Mesmo que em sua segunda metade, Custódia torne-se uma obra muito mais expositiva, para a construção da ideia de Xavier Lagrand, a escolha se mostra necessária. Lagrand parece buscar subverter o drama familiar em um verdadeiro filme de terror, algo que é evidenciado tanto pelo silêncio que permeia o clímax – que só é interrompido por vozes desesperadas ou sons ameaçadores –, que cria uma potente tensão pela imprevisibilidade do desfecho daquela história, quanto pelo trabalho de fotografia, que torna o filme mais sombrio e claustrofóbico pelo uso de baixa iluminação e planos mais fechados.

Ainda impressiona, porém, o fato de mesmo quando o filme se torna mais expositivo em sua trama principal, Lagrand conseguir criar tantos pontos subjacentes na narrativa. Joséphine, a filha mais velha da família, tem seus problemas assolados pelo conflito entre seus pais. Não é por acaso, portanto, que sua festa de dezoito anos não seja um momento divertido ou descontraído, mas um dos mais melancólicos de Custódia, já que, ali, o filme alterna entre o ponto de vista dos pais, que brigam do lado de fora, com o da própria adolescente, que não consegue por os problemas de lado e parece desnorteada enquanto tenta festejar.

Atual em seu tema e capaz de fazer os gêneros se curvarem perante os diferentes tons da narrativa, Custódia é incomodamente real. Mostrando diferentes estágios de um relacionamento abusivo, Lagrand consegue nos fazer compreender todas as nuances daquela família, além de tornar crível não só os eventos mais amedrontadores, mas também os que nos fazem sentir pena dos personagens. Pena, aliás, é o sentimento absoluto em relação à família Besson. Principalmente por termos a noção de que, assim como a porta furada que é fechada no plano final do longa, aqueles personagens nunca mais terão essas feridas cicatrizadas.

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