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“De corpo e alma” e a realidade possível

“De corpo e alma” e a realidade possível

Ana Flavia Gerhardt - 4 de março de 2018

Este texto traz spoilers sobre a narrativa de  “De corpo e alma”.

Para a psicanálise freudeana, os sonhos são manifestações simbólicas de nossos desejos, medos e conflitos mais verdadeiros. Já que não podem ser manifestados livremente durante o estado de vigília por conta das repressões sociais e cognitivas a que somos necessariamente submetidos, eles emergem durante o sono de forma imageticamente alterada, que é uma maneira de nos protegermos psiquicamente do imenso poder do nosso próprio inconsciente. Como apoio a essa imagem, os sonhos contam com lembranças de nossas experiências diárias, daí eles serem chamados, como no belíssimo título do também belíssimo filme de James Ivory, vestígios do dia.

Essa é, evidentemente, uma descrição extremamente rasa para um processo humano complexo e fundamental. Precisamos sonhar para elaborar significados e aprendizados importantes sobre os fatos, ideias e emoções com que vamos tendo contato ao longo da vida. E, como cada pessoa é singular, ninguém sonha igual, porque a mesclagem entre nossos sentimentos – sobretudo aqueles que não confessamos nem a nós mesmos – e o que registramos durante a vigília torna cada experiência onírica única.

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Cervos são animais que projetam uma rica simbologia que vai se transformando ao longo do tempo.

A premissa de “De corpo e alma” é interessante porque justamente quebra com essa verdade praticamente absoluta: e se duas pessoas começassem a sonhar igual? O que poderia levar a isso? Como duas vidas construídas de forma completamente distinta podem se igualar no momento em que não há freios sociais para a expressão dos seu desejos e medos? O filme da Húngara Ildikó Enyedi explora e desenvolve essa possibilidade, propondo que, talvez, sob a aparente capa das diferenças e particularidades que distinguem as pessoas, talvez sejamos todos iguais, na vigília (domínio do corpo) e nos sonhos (domínio da alma), porque todos desejamos, cada um do seu jeito, o amor e a felicidade.

O que nos ajuda a realizar essa leitura sobre “De corpo e alma” é o jogo de diferenças e equivalências que a diretora húngara Ildikó Enyedi realiza com seus dois personagens principais: Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Borbély), ambos funcionários de um matadouro. A partir do momento em que descobrem a existência um do outro, eles passam a partilhar o mesmo sonho, e ao mesmo tempo: ambos são dois cervos, respectivamente macho e fêmea, que se cortejam amorosamente num cenário nevado. Numa interpretação psicanalítica, a imagem do cervo no sonho deles pode servir para reverenciar e sofisticar, na mente de duas pessoas delicadas, a imagem dos bois mortos que precisam testemunhar durante o dia (“se você  não tem compaixão por eles, não trabalhe aqui”, diz Endre). Nada mais apropriado, já que a figura do cervo denota força, vitalidade e beleza; e, nas cantigas de amor medievais, o cervo simbolizava o intercurso sexual.

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Endre e Mária: histórias e personalidades diferentes, que a diretora Ildikó Enyedi explora com linguagem, imagens, perspectivas e luz.

Ao descobrirem, por acaso, essa particularidade que os une, Endre e Mária passam a investigar juntos a capacidade de cultivá-la. Nesse processo, salientam-se as diferenças entre eles, que Enyedi trabalha com jogos de luz e sombra: frequentemente, num mesmo plano, Mária usa roupas claras e está banhada em luz, enquanto Endre se esconde onde a claridade não mais alcança. A escolha da diretora é coerente com as vidas dessas duas pessoas, já que Mária é uma moça ainda pura, a quem faltam experiências que a definam como mulher adulta – não é à toa que se consulta com o mesmo psicólogo desde criança. Endre, por sua vez, parece já cansado de uma vida de frustrações, e sua figura manifesta isso: suas roupas amarrotadas, sua barba sem desenho e seu braço esquerdo imóvel e pendente ao lado do corpo simbolizam (já que estamos falando de sonhos…) uma desistência das tentativas de buscar para si um tônus de vida. Assim, Mária se encontra no limiar de uma vida ainda por viver; e Endre, nos estertores das emoções envelhecidas.

Diferentes durante o tempo em que estão acordados, Endre e Mária encontram-se em comunhão total durante o sono, que é justamente o tempo em que eles não precisam se vestir das carapaças que construíram para se defenderem do sofrimento do passado e do presente. Por isso, será corajosa a tentativa dos dois em querer experimentar, enquanto acordados, a plenitude que os sonhos lhes proporcionam. O filme descreve essas tentativas mostrando que não é fácil vencer as barreiras que nos impedem de estarmos com as pessoas da forma como imaginamos em nossas mentes quando sonhamos, dormindo ou acordados.

Enyedi trabalha essa dificuldade inerente aos movimentos dos dois personagens não apenas na forma como seus corpos se apresentam a nós – Endre e seu braço inútil; Mária e seu temor de ser tocada – mas também em imagens que os mostram parcialmente, ou indiretamente, através de obstáculos físicos como vidros ou portais. Enyedi respeita as pessoas fictícias cujas histórias nos conta, preservando-as de uma exposição direta e, portanto, de uma invasão de sua privacidade, porque sabe que, se existissem de fato, isso era a coisa que elas menos gostariam que acontecesse.

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Pessoas sem acesso direto, como tudo na vida: como afirmou Sigmund Freud, não somos donos nem de nós mesmos.

O tratamento luxuoso que Enyedi reserva aos seus dois personagens principais não é conferido aos que os cercam – em especial, a psicóloga que os entrevista (Zsuzsa Járó) e o colega inconveniente (Zoltán Schneider) de Endre. Essa particularidade, embora não quebre a premissa do filme, enfraquece um pouco uma das suas leituras mais interessantes, sobre a necessidade de cultivarmos a empatia em relação aos desejos e dores das outras pessoas, porque elas em nada diferem de nós, e essa empatia é que nos permite experimentar uma das coisas que mais desejamos, que é o encontro pleno com elas, superando os medos que nos separam delas. Os arcos de aprendizado e mudança de comportamento são apresentados unicamente em Mária e Endre, e podemos ver que, com isso, ambos também melhoram suas relações com as pessoas à medida que os movimentos de viver concretamente seus sonhos vão se desenvolvendo.

Por mais canhestras que sejam as ações dos personagens em função do projeto de se transformarem, de corpo e alma, num casal de cervos que vive amorosamente (e nesse sentido é bonita demais a opção por correr o risco de não mais sonhar esse sonho, na esperança de que novos sonhos sejam sonhados), e por mais que a realidade não concretize completamente as fantasias que passaram a alimentar desde que se conheceram, a escolha pela vida em vigília será certamente a mais acertada, a mais mentalmente sã: é sempre mais sensato e adulto viver a realidade que se consegue num dado momento, a realidade que é possível. A lindíssima e inesquecível imagem semifinal do filme, em que as últimas barreiras de corpos e almas são vencidas, consolida a possibilidade de que os personagens estejam num campo aberto e propício para encontros concretos e permanentes.

“De corpo e alma” é um filme de amor absolutamente necessário. Num tempo em que nossas retinas registram o pesadelo da corrupção, da ganância, da vaidade e do pânico, o filme é um bálsamo medicamentoso para nossos espíritos maltratados. Recomendo uma dose imediata, a ser repetida quantas vezes o paciente julgar necessário. Em vigília ou nos sonhos, tanto faz.

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