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De Olhos Bem Fechados

De Olhos Bem Fechados

Matheus Fiore - 8 de abril de 2018

Após irem a uma festa na qual ambos foram cortejados por outras pessoas, o casal composto por Bill (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman) volta para casa. Lá, uma discussão expõe não só os problemas do casal, como também evoca questionamentos sobre a natureza “infiel” da humanidade, sobre o fracasso do modelo monogâmico de sociedade e o incontrolável desejo que reside no inconsciente humano. Dali em diante, Bill nunca mais vê o sexo da mesma maneira, e passa a enxergar sua relação com Alice não como uma união, mas uma competição. Bill sente inveja da intensidade do desejo que sua esposa sente, e passa a buscar igualar essa experiência.

“De Olhos Bem Fechados”, último clássico feito pelo mestre Stanley Kubrick, é um dos seus filmes menos falados, mas é também uma das obras que melhor sintetizam algumas das principais ideias que nortearam toda sua carreira, como o fracasso da sociedade falocêntrica, a incapacidade do consciente de conceber o inconsciente e as diferentes percepções do desejo de homens e mulheres. Para falar sobre como esses temas são trabalhados na obra, dividirei o texto em três partes.

I. O fracasso da sociedade monogâmica

Um detalhe curioso é inserido na cena da primeira festa. Enquanto Alice dança e flerta com o húngaro Sandor Szavost, seu marido Bill é paquerado por duas moças cujo sotaque indica também serem européias. A associação mais simples (e também a mais lógica) é que Alice e Bill representam o modelo monogâmico de sociedade dominante na América, enquanto Sandor e as moças européias representem o progressismo cultural existente na Europa.

Há duas frases proferidas por Sandor que muito dizem sobre o simbolismo presente na cena.

“O charme do casamento é tornar o fingimento uma necessidade para ambas as partes.”

A primeira delas remete diretamente a um jogo de máscaras, no qual o casamento funciona apenas como uma convenção social, uma fachada que permite que, por trás das cortinas morais impostas pela sociedade, o indivíduo possa ser ele mesmo.

“Como uma mulher linda, que poderia ter qualquer homem neste salão, pode querer estar casada?”

A segunda subverte ainda mais o modelo monogâmico de sociedade. Sandor faz Alice questionar não a utilidade de seu casamento, mas a necessidade de manter-se apenas com um companheiro. Em uma visão pré-socrática de sociedade, a poligamia é a saída para a repressão sexual imposta pelos dogmas cristãos que norteiam a civilização moderna.

O fim do filme ainda sugere o fechamento de uma passagem de aprendizado para os personagens. Afinal, quando perguntada por Bill o que fazer diante dos desvios sexuais cometidos ao longo dos anos, Alice sugere que eles apenas aprendam com isso e transem. É quase como um registro de que, com as experiências vividas, Alice aprendeu a não pautar suas decisões de vida sob o olhar domesticado da sociedade monogâmica.

II. Consciente Vs Inconsciente

Bill e Alice funcionam quase como opostos na obra. Enquanto o médico precisa vivenciar suas fantasias, sua esposa as mantém apenas em sua mente. É comum, portanto, que Bill saia de casa em busca de luxúria apenas para sentir-se tão sexualmente estimulado quanto sua esposa, quando ouve dela relatos eróticos.

O apogeu da libertação sexual encontrado por Bill é a festa na mansão, justamente o lugar onde todos devem entrar usando máscaras e manter suas identidades em sigilo. É, portanto, um lugar onde as pessoas desligam-se das convenções sociais e permitem seus desejos inconscientes emergirem. Não é à toa, portanto, que, ao chegar em casa, Bill ouve de Alice que ela teve um pesadelo muito similar à sua experiência na mansão. Alice vive em seu inconsciente, sem as amarras da sociedade monogâmica, toda a liberdade sexual que seu marido precisou ir até os limites da sociedade para encontrar.

O conflito de consciente x inconsciente é perceptível até na forma como os cenários do filme são trabalhados. É visualmente chamativo o fato de haver muitas luzes espalhadas pelos cenários, tanto na casa de Bill quanto nas ruas e bares – e, para justificar tal escolha, Kubrick faz seu filme se passar no período do Natal. Essas luzes, quando filmadas sob efeito bokeh, que as distorce até que se tornem apenas manchas redondas no fundo do plano, imprimem um onirismo absolutamente coerente com a situação. O desfoque proporcionado pela técnica torna a ambientação lúdica, abstrata, como se os personagens habitassem um cenário de sonhos. Cria-se ainda um grande contraste com a cena da orgia, que traz uma iluminação mais escura durante sua cerimônia, como se ali, pela primeira vez, Bill estivesse desperto.

III. O desejo feminino

É interessante, porém, que, mesmo quando chega ao castelo, Bill não consegue igualar o que sua esposa fantasia. A cena do médico na mansão, mesmo trazendo corpos nus e muitas pessoas transando, não evoca sensualidade, mas tensão, tanto pela brilhante trilha quanto pelos planos estáticos e longos. Já quando acompanhamos a descrição do pesadelo sexual de Alicia, a voz de Nicole Kidman imprime um tom sedutor que é colossalmente mais sedutor do que tudo que pudemos contemplar visualmente na obra.

Também merece destaque como Kubrick retrata as percepções de desejo dos personagens. Na já citada cena inicial da festa, quando Alice e Bill são cortejados por europeus, há uma enorme diferença entre as paqueras do médico e de sua esposa. Quando acompanhamos a relação de Bill com as duas moças, cena que é contada sob o ponto de vista masculino, há uma ironia latente nos diálogos, que imprime infantilidade. Já quando vemos Alicia sendo paquerada por Sandor, a sensualidade da cena é incomparável. Há uma forte tensão sexual, retratada inclusive pela forma como os personagens se movimentam no plano (Alice parece se inclinar para beijar o húngaro a qualquer momento).

Com isso, Kubrick estabelece a potência do tesão sentido pelo sexo feminino como algo incomparável, inconcebível pelo homem. É interessante que essa visão exista inclusive em outros momentos do filme. Quando Bill vai a uma loja de fantasias, por exemplo, a filha do vendedor está, secretamente, se relacionando com dois homens, o que não só fortalece a ideia do desejo feminino exacerbado como é outra peça da narrativa importante para sugerir uma quebra da monogamia na sociedade.

O fracasso de Bill

“De Olhos Bem Fechados” retrata uma disputa entre um marido e uma esposa. A esposa reporta seus desejos e fantasias sexuais, e, consequentemente, o marido parte pelas ruas da cidade em busca de igualar tais impulsos. Nessas cenas, todos os três pilares narrativos descritos no texto se encontram a fim de transformar a obra em uma apoteose de sexualidade, psicologia e sociedade.

A fotografia, por exemplo, utiliza o azul para manifestar o domínio do inconsciente. Há vários momentos nos quais a cor surge como uma denúncia, portanto. Quando, por exemplo, Alicia acorda amedrontada com seus pesadelos sexuais e compartilha os relatos com Bill, todo o quarto do casal está banhado em azul. A mesma lógica se faz presente quando o protagonista tem sua mente invadida pelas imagens de sua esposa o traindo: os fragmentos de delírios do médico sempre são azulados.

O azul também se faz presente de maneiras mais sutis. Em boa parte dos cenários, as janelas no fundo do plano trarão o azul como luz, simbolizando o inconsciente dos personagens, que está sempre à espreita. Em outro momento, quando há um grande choque emocional em Bill, o azul tinge seu rosto como um sinal de disrupção, como se, ali, o protagonista passasse a ter ciência de sua natureza.

Mas Bill demonstra não ser um personagem pronto para romper com o modelo de sociedade em que está inserido. E até para estabelecer tal ideia, Kubrick faz uso do azul. Quando o protagonista tenta retornar à mansão onde ocorreu a seita sexual do segundo ato, por exemplo, o limite encontrado é justamente o portão da casa, pintado de… Azul. Como se, diferente de sua esposa, Bill não estivesse pronto para abraçar seus desejos.

Para aquele pobre homem, incapaz de conceber o alcance da libido feminina e fracassado ao tentar romper com o formato de sociedade no qual está preso, resta apenas viver uma farsa. Farsa essa que é retratada de maneira genial, como poderia se esperar de um dos maiores mestres da história do cinema. O plano definitivo de “De Olhos Bem Fechados” é a síntese de tudo que a obra nos mostra. Deitada em sua cama, Alice viaja no mundo do seu inconsciente, enquanto seu marido, Bill, deixa sua máscara, sua farsa em seu lugar, e tenta se libertar pelas ruas de Nova Iorque.

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