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Deixe a Luz do Sol Entrar

Deixe a Luz do Sol Entrar

Matheus Fiore - 2 de abril de 2018

No cinema atual, não são muitos os exemplares de filmes que, enquanto trazem premissas clichês ou se sustentam em sub-gêneros comuns, também apresentam algo diferente na forma de contar a história. “Deixe a Luz do Sol Entrar”, felizmente, é um desses raros exemplos. O novo filme da francesa Claire Denis traz uma sinopse que muito se parece com dezenas de outras obras que surgem por aí: Isabelle (Juliette Binoche) é uma mulher divorciada que busca um novo amor e, por isso, passa por inúmeros encontros fracassados com os mais diversos tipos de homens.

“Deixe a Luz do Sol Entrar” é bem sucedido desde seu primeiro plano. O filme começa com uma cena de cabeça para baixo, que traz Isabelle deitada nua em sua cama. Dizem que os bons cineastas trazem no primeiro contato visual toda a síntese da ideia que guiará o restante da narrativa, e o longa de Denis é um exemplo perfeito dessa “fórmula”. A imagem escolhida imediatamente desperta duas ideias: a artista Isabelle é uma mulher que se expõe (a nudez) e é confusa (o plano de ponta-cabeça). O filme é, portanto, uma jornada de desenvolvimento de amor próprio – mesmo que, a priori, a protagonista não saiba disso.

Com esses dois conceitos estabelecidos, a narrativa segue o dia-a-dia de Isabelle enquanto ela se decepciona com os mais variados tipos de homens e desabafa sobre sua dificuldade em encontrar um amor verdadeiro. É interessante como a câmera muitas vezes entrega os sentimentos dos personagens filmados apenas pela forma como eles se movimentam. Por exemplo, em uma cena fantástica, em que Isabelle tem um encontro em um bar, não há cortes. A lente se aproxima e se distancia dos personagens conforme eles dialogam, fazendo com que cada fala seja filmada com o enquadramento fechado no rosto de cada um deles, o que cria a ideia de isolamento na conversa: os personagens falam para si mesmos, não há uma troca.

Já em outro encontro de Isabelle, a direção e a trilha são importantes para imprimir ironia aos encontros frustrados da protagonista. Quando, em um jantar entre a artista e um homem, os dois são filmados por trás de uma cortina de plástico e sem som – vemos os personagens falando, mas suas vozes são inaudíveis e há uma trilha sonora no lugar -, Denis está nos mostrando que a dificuldade de sua protagonista em se comunicar não é algo uniforme, mas que está se intensificando. Os encontros passam a ser cada vez mais plastificados, e os diálogos tornam-se apenas convenções sociais. Curiosamente, a própria Isabelle já parece saber disso, ao comentar posteriormente que já esperava pelo desfecho que o encontro teve.

Ao trabalhar os problemas internos da personagem principal, é notável a escolha de usar o figurino como uma fortaleza emocional da protagonista, que, em algumas cenas, quando se desveste, passa a ser mais expressiva e honesta quanto aos seus sentimentos. É como se Isabelle tentasse, sem sucesso, manter uma máscara para a sociedade. A incapacidade da artista de ser forte, porém, é um dos elementos mais humanizadores de sua personalidade. Isabelle é uma mulher sensível, carente e também, em certo momento, egoísta e falha, características que Juliette Binoche utiliza com inteligência para dar nuances à sua atuação e transformar sua personagem em uma mulher que, a todo momento, parece estar à beira de um colapso nervoso.

Outro elemento definidor para montar a personalidade de Isabelle é sua casa. Retratada sempre com muitos objetos espalhados pelo cenário e com algumas paredes pintadas de azul, cor que evoca melancolia, é possível associar a situação do lar à psique da protagonista. Isabelle, mesmo que esconda suas dores por boa parte do tempo, é uma pessoa confusa, solitária e triste. E é interessante constatar que, apesar de sua desolação, Isabelle não é uma pessoa de aspirações complexas. O único desejo da artista é sentir-se amada, algo que é o mais básico e humano desejo possível. Assim como sua protagonista, “Deixe a Luz do Sol Entrar” é um bom filme por trazer aspirações simples, mas as desenvolver com um leque de elementos narrativos admirável.

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