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‘Playing The Angel’, de Depeche Mode

‘Playing The Angel’, de Depeche Mode

Mario Martins - 19 de Março de 2018

 

A Pain That I’m Used To” alerta os ouvintes sobre uma evacuação. A canção inicial do álbum se mostra como uma sirene, como uma tentativa –até aqui, bem sucedida- de imersão sonora, que visa a quebrar o seu clímax anterior. Seja ele qual era, é hora de evacuar e degustar o que está por vir.

Certo dia, eu estava lendo, numa conversa feita através de comentários de postagem, o quanto duas amigas se expressavam de forma intensa sobre a banda que mudou suas concepções em determinada faixa de idade. Elas elogiavam de forma expressiva e cativante o Depeche Mode, banda que eu aproximadamente só sabia que era dos anos 80 e que toca aquela música da qual o Manson fez cover. Vejam portanto este texto-crítica como um pedido de desculpas por ter ficado tanto tempo no escuro.

O ponto é que, ao me dar conta de que o Depeche era tão especial assim, pedi ali mesmo uma recomendação de CD. Sim, ali, em meio ao diálogo da postagem. Me foi quase exclamado “Playing The Angel”, que surpreende por ser de 2005, enquanto a banda foi formada em 1980. Tal diferença explicita que o álbum que eu ouvi passou longe de ser da “boa fase” da banda, ou época-raiz, enfim.

“John the Revelator
Put him in a elevator
Take him up to the highest high
Take him up to the top where the mountains stop
Let him tell his book of lies”

O álbum se mostra como uma oportunidade de nos depararmos com uma tecnologia impressionante demais para sua época, sobre uma plataforma tribal, de galhos e cipós. A voz de David Gahan se manteve ao longo dos anos e possui uma reverberação mais do que sombria; é possível inclusive ser envolvente de forma incômoda. As notas todas soam rústicas, como quando se tenta secar as mãos na parede. Por falar em parede, “John The Revelator”, segunda faixa de “Playing The Angel”, denuncia todos os bloqueios que barram sua experiência.

 

O instrumental neo punk abre marcha enquanto a já mencionada voz passa, recrutando atenção para o que tem a dizer. Se o refrão de “Macro” é acompanhado por sintetizadores que buscam fincar um tema, os versos tratam de dar companhia também à melodia vocal, desta vez com uma guitarra. Até que o segundo refrão evolui de modo que exibe todos seus cúmplices sonoros. É uma fórmula mais do que clichê, você é quase obrigado a usá-la se quiser que sua banda toque nas rádios. Mas isso não atribui culpa a músico nenhum, não é covardia atender a indústria carnívora em algum episódio, todos temos imprevistos, reputação inadimplente e boletos. Aonde quero chegar é que, por mais usada que sejam a fórmula da evolução instrumental e até o tema principal, o Depeche Mode os aborda de uma forma mais minimalista. Os beats orgânicos, quando somados aos eletrônicos, acomodam espaço para uma duplicação óbvia, mas que nos permite sempre ter algo a mais para notar, apesar de já sabermos do que se trata.

Nota-se, durante a execução do álbum, que o que se segue é um padrão de necessidade. Observa-se que as canções mais interessantes são aquelas que apresentam rápidos e variados temas ao longo da música, havendo a necessidade de se apegar a um trecho específico de algumas músicas, na tentativa de tornar o álbum marcante. Faixas como “I Want It All”, “Damaged People” e “Lilian” são certamente mais memoráveis que as demais, por apresentarem temas pontuados e com algum tipo de frequência de repetição.

O álbum é ótimo por se permitir mostrar um caminho –genuinamente construído pelos membros do Depeche Mode- de inspiração, mas que escorrega por nos endereçar para um local monótono demais. Tamanha imersão deve ser acompanhada de variações, sejam elas instrumentais, de tempo ou altura. “Playing The Angel” acaba se tornando um álbum que exige estímulo externo, como, por exemplo, “ele é ótimo para uma festa”, “muito bom para ouvir chapado”, ou “você precisa ouvir enquanto transa”, o que também não deixa de ser extremamente relevante para um CD. Porém, meus álbuns favoritos sempre me mostraram sua essência, não usaram nenhum ato ou estado para tentar se mostrar. Simplesmente me contaram uma história.

O lado teatral harmônico do Depeche Mode, aqui, se mostrou dependente do envolvimento imagético. Tais músicas seriam mais bem utilizadas se constituídas de uma expressão mais audiovisual, em vez de se proporem a ser um fenômeno sonoro. Como assim? Contextualizadas com alguma sequência de videoclipes, ou utilizadas em cenas de filme etc. Não há problema algum em estimular a experiência pessoal da música, desde que ela dialogue com a do ouvinte, de modo que a mão dada seja de ambos os lados.

 

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