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(Des)encanto – 1ª temporada

(Des)encanto – 1ª temporada

Gustavo Pereira - 20 de agosto de 2018

“(Des)encanto” tem um sem-número de pequenos e médios problemas na sua primeira temporada, sobre os quais esta crítica abordará. Mas o maior, possivelmente, vem do formato: esta é a primeira das duas partes da história, o que torna seu final, de fato, no meio. A série de Matt Groening e Josh Weinstein não deixa apenas um imenso gancho, mas a maioria de suas perguntas sem resposta. Isso, obviamente, enfraquece o resultado final/parcial.

(Des)encanto Netflix Matt Groening

O reino da Terra dos Sonhos

A carreira de Groening foi construída por séries em que os personagens têm arcos horizontais (tradução livre para flat character arc. O assunto foi brevemente tratado na crítica de “O Protetor 2” e você pode se aprofundar aqui). Essa estrutura é ideal para uma sequência de histórias fechadas. “Os Simpsons”, por exemplo, têm personagens com características bem definidas que passam por uma determinada situação e, a cada novo episódio, voltam ao ponto de partida. Dessa forma, é possível ver episódios fora de ordem sem problemas, pois os eventos não geram consequências de longo prazo. O caso da família mais famosa dos Estados Unidos (alguns dirão que estou errado e as Kardashians já fazem por merecer este título) chega ao extremo de, ao longo de 29 temporadas, seus personagens não terem envelhecido.

“(Des)encanto”, por sua vez, sofre com a necessidade de contar uma história de longo prazo por meio de episódios contidos em si. Ações que deveriam gerar consequências, como a negativa da princesa Bean (Abbi Jacobson) em se casar com o príncipe Guysbert de Bentwood, não afetam a vida no reino da Terra dos Sonhos. Durante dois terços da temporada, a história não avança quase nada, apenas colocando o trio principal em situações inusitadas – ao lado de Bean, estão o “demônio pessoal” Luci (Eric Andre) e o elfo Elfo (Nat Faxon).

(Des)encanto Netflix Matt Groening

Poucos momentos de amigos, muitos de “parceiros de copo”

Controlar os rumos da própria vida em uma sociedade onde cada um tem funções preestabelecidas, desejo que une os personagens, também é inexplorado. Bean rompe com com a ordem vigente, mas isso não a leva a novos desafios, ao passo que Elfo abre mão da vida de conformismo do Reino dos Elfos para viver uma vida de conformismo na corte do Rei Zog (o excelente John DiMaggio). Premissa estabelecida e abandonada, a série se assemelha a uma sitcom medieval, em que cada personagem é “engraçado” pelo comportamento previsível.

Ao ter sua história contada em um reino que emula a Europa Medieval, “(Des)encanto” tem uma infinitude de situações potencialmente cômicas para piadas imediatas, seja por mostrar situações absurdas como triviais ou estabelecendo paralelos com a atualidade. É algo que “Futurama”, a outra série de Groening, faz com maestria. Não é o caso: há uma tendência de, sempre que possível, apresentar comportamentos do nosso tempo com um ar medieval, como a carruagem da corte de Bentwood, longa como uma limusine e com calotas que giram nas rodas. Algumas dessas piadas funcionam, como o Antílope Racista e o bando de salteadores liderado por uma feminista. Mas o saldo final é longe de positivo.

(Des)encanto Netflix Matt Groening

Elfo está conhecendo o mundo exterior ao Reino dos Elfos, mas o potencial cômico disso se limita à sua descoberta da guerra (hilária, diga-se de passagem)

Por fim, e talvez o que torne “(Des)encanto” ainda mais esquecível, é o desequilíbrio entre o nonsense característico de comédias animadas e momentos de ternura. Quando Homer acha que comeu baiacu envenenado e prepara uma lista com todas as coisas que precisa fazer antes de morrer, como “ter uma conversa de homem com Bart”, e “ouvir Lisa tocando sax”, conseguimos nos envolver emocionalmente com um pai se despedindo de sua família. Ou quando Fry desiste de clonar seu cachorro do ano 2000 por achar que ele tinha superado seu congelamento, para em seguida vermos uma verdade que Fry nunca verá. Isso inexiste na nova série de Matt Groening. Só ficam as piadas medíocres e uma história praticamente copiada de “Game of Thrones”.

OK, tem também o John DiMaggio. A forma como esse cara entrega o texto é impagável.

Assista a todos os episódios de “(Des)encanto” clicando aqui.

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