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Dez filmes politizados disponíveis na Netflix

Dez filmes politizados disponíveis na Netflix

Ana Flavia Gerhardt - 4 de abril de 2018

Com o lançamento de O Mecanismo, de José Padilha, a Netflix instalou uma polêmica entre os espectadores brasileiros. Muitos estão insatisfeitos com a leitura dos acontecimentos relacionados à Operação Lava Jato feita pela série e está ameaçando cancelar a assinatura.

Mas nem só de Marco Ruffo vive a gigante do streaming: elaboramos uma lista de filmes altamente politizados que também consta no catálogo da Netflix. Mesmo para os que optarem pelo cancelamento da assinatura, ficam as sugestões para aproveitar os últimos 30 dias antes do adeus.

71 – Esquecido em Belfast (2014), de Yann Demange

O filme narra a noite angustiante de um soldado inglês que é abandonado por seu batalhão numa das áreas mais perigosas de Belfast, em plena guerra (nunca assumida como tal) entre irlandeses católicos e britânicos protestantes. A narrativa desperta a reflexão do espectador sobre um conflito iniciado em função da discriminação religiosa imposta aos irlandeses católicos pelos protestantes, mas que acabou produzindo três décadas de crueldades de ambos os lados. Artisticamente, a obra é um espetáculo de direção: aos vinte minutos de projeção, o espectador já está completamente capturado pela qualidade das imagens e pela forma como a movimentação bélica e sua reação popular são filmadas nas ruas de Belfast.

A Arte de Amar (2017), de Maria Sadowska

“A Arte de Amar”, que já tem crítica do Plano Aberto, conta a história de Michalina Wislocka, médica e sexóloga polonesa que escreveu o livro sobre sexualidade que dá nome ao filme, escandalizando e fascinando a Polônia comunista e extremamente conservadora dos anos de 1970. A ousadia e independência intelectual, a capacidade de aprender e mudar convicções, a gigantesca resiliência e a alegria de viver de Wislocka a transformam numa pensadora poderosa e inspiradora para mulheres e homens que desejam viver uma vida sexual prazerosa e sem culpas. Tudo isso, junto com a atuação iluminada de Magdalena Boczarska, transformam “A Arte de Amar” num filme para assistir com um sorriso nos lábios.

Agnus Dei (2016), de Anne Fontaine

Num convento polonês, freiras vivem um terror prolongado após o sofrimento e a violência que experimentaram durante a Segunda Guerra Mundial. A ajuda prometida pelos aliados, na prática, não foi destinada aos poloneses. Por isso, elas têm de contar com o auxílio de uma corajosa enfermeira francesa para conseguirem superar a tragédia que insiste em permanecer sobre elas. O espectador assiste estarrecido aos efeitos da crueldade humana, em particular da violência que vitimiza as mulheres em massa durante períodos de guerra. No caso das freiras polonesas, culparem-se pelo que lhes aconteceu é o sofrimento a mais que experimentam. Mas, sobre toda a dor, emerge o sentimento de sororidade e as ações de empoderamento feminino, capitaneadas pela enfermeira interpretada por Lou de Lâage e pela freira vivida pela extraordinária atriz Agata Buzek.

Ao Cair da Noite (2017), de Trey Edward Shuts

“Ao Cair da Noite” foi eleito pelos editores do Plano Aberto o melhor filme de 2017, além de receber crítica e artigo. A importância desse filme está na sua capacidade de reunir as questões sociais mais sérias do mundo contemporâneo numa narrativa enxuta e clara o suficiente para que compreendamos com facilidade o teor de cada imagem, ação e diálogo. A tese do filme diz respeito às bases do discurso de ódio que povoa as redes sociais e que tem feito emergir ideias e ações ultraconservadoras, que ameaçam direitos sociais conquistados com muita luta. Um filme para ser visto e compor os debates que reconhecem a importância do Cinema no diálogo por uma sociedade mais justa e menos alienada.

As Sufragistas (2015), de Sarah Gavron

Duas histórias paralelas esperam pelo espectador de “As Sufragistas”: a História, com “H” maiúsculo, narra a luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto. Por quase um século, as ativistas foram ridicularizadas, humilhadas, agredidas, presas e até mortas na luta para que homens (e muitas mulheres) entendessem que um direito dado a apenas alguns na verdade é privilégio. Esse cenário é o pano de fundo para a segunda história: a narrativa particular de Maud Watts (Carey Mulligan), que inicia o filme sem se dar conta da dimensão histórica da luta já em curso, para a plena compreensão do seu papel como mulher na construção de um mundo com menos desigualdade. “As Sufragistas” é mais uma evidência de que as grandes transformações sociais só acontecem de baixo para cima, com os oprimidos exigindo a efetivação de sua igualdade.

Beasts of No Nation (2015), de Cary Fukunaga

O filme com que a Netflix inaugurou seu setor de produções originais é uma das obras cinematográficas mais impactantes da década. Nele, acompanhamos o processo de transformação de Agu, um garoto africano que, paulatinamente, perde a inocência e a alegria infantis para se transformar numa máquina de guerra. Sua história mostra a crueldade de crianças sendo usadas como soldados nas guerras civis que, junto com a exploração criminosa dos recursos naturais pelas multinacionais do primeiro mundo, impedem o desenvolvimento econômico e social de boa parte do Continente Africano. Além da narrativa poderosa que denuncia com detalhes a violência absurda e inaceitável a que o personagem é submetido, a grandeza desse filme obrigatório é reforçada pelas atuações viscerais de Abraham Attah como Agu e de Idris Elba como seu Comandante.

Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins

Essa maravilhosa obra, cuja crítica se pode ler aqui, recebeu merecidamente o Oscar de Melhor Filme da Academia de Hollywood, mas não entra nesta lista de filmes politizados da Netflix por isso. A narrativa sobre a descoberta de um homem acerca de sua própria sexualidade é contada por meio da inserção de uma série de detalhes artísticos, como a seleção do elenco e o enfrentamento de tabus sociais, elementos que tornam “Moonlight” único. Em especial, deve-se salientar o soberbo tratamento da questão da violência como uma forma de lidar com afetividades poderosas que não são bem compreendidas, nem por quem as sente, nem por quem as testemunha.

Nise: O Coração da Loucura (2015), de Roberto Berliner

Tendo à frente Glória Pires, uma das grandes atrizes brasileiras da atualidade, esse filme traz ao espectador brasileiro o conhecimento sobre uma psiquiatra que, nos anos de 1940, superou com coragem, ousadia e inteligência o machismo institucional que imperava na classe médica. A doutora Nise da Silveira construiu um centro para tratamento de doentes mentais, que recebiam, como terapia ocupacional, materiais para pintura e escultura. Com isso, essas pessoas, que ela chamava “clientes”, e não “pacientes”, deixaram de ser tratadas de forma desumana nos hospitais e começaram a revelar talentos artísticos significativos. Alguns deles se tornaram artistas geniais, como Fernando Diniz e Adelina Gomes, mostrados no filme, e também o espetacular Arthur Bispo do Rosário, que não foi mencionado no filme, mas é um dos maiores artistas plásticos brasileiros de todos os tempos, e por isso bem merecia um filme só para ele.

O Expresso do Amanhã (2015), de Bong Jon-Hoo

Nesse filme encontram-se algumas das qualidades que aprendemos a apreciar no Cinema coreano, junto com a adoção de um tema importante para fazer o espectador pensar por muito tempo. O contexto de imposição de uma vida de escravidão a muitas pessoas para que outras poucas vivam no ócio e no luxo é o elemento que impulsiona a trama e as cenas de ação que decorrem da revolta dos grupos subjugados. Além das maravilhosas cenas de ação, que exploram ao máximo a claustrofobia provocada pela presença de muitas pessoas amontoadas num trem em alta velocidade, o tratamento nada superficial conferido pelo roteiro às questões que motivam a revolta no trem tornam “O expresso do amanhã” uma obra de arte importante, capaz de movimentar muitos debates politizados.

Selma – Uma Luta Pela Igualdade (2014), de Ava DuVernay

Essa obra de arte magnífica é um manual sobre como todos os filmes que discutem racismo deveriam ser: obras de Arte sobre a potência de pessoas que sabem muito bem que, unidas e organizadas, são capazes de grandes mudanças no mundo. O espectador acompanhará emocionado os debates acalorados de grupos reunidos para organizar, no Alabama de 1965, a grande marcha entre as cidades de Selma e Montgomery, em protesto contra o racismo generalizado que impedia a implementação da já aprovada lei do voto dos afro-americanos. Ao fim do filme, quem assistiu a ele ainda recebe, como um prazer artístico final, uma das melhores cenas do Cinema nos últimos anos: a declamação de um dos discursos de Martin Luther King por David Oyelowo, ator que encarna o grande líder estadunidense com sangue nos olhos e amor no coração.

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