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Dez filmes sobre fatos históricos dirigidos por mulheres

Dez filmes sobre fatos históricos dirigidos por mulheres

Ana Flavia Gerhardt - 31 de julho de 2018

Nas Ciências Humanas do século 21, um dos questionamentos mais importantes é o que considera a História da Humanidade como tendo sido contada por homens europeus, que deixaram na subalternidade e invisibilidade pessoas com outras características físicas, de nacionalidade e de gênero. Portanto, o que acabamos conhecendo sobre nós mesmos é sempre definido pelo viés daqueles que compõem a metade de todo o conjunto dos seres humanos, que não raro não fazem a menor ideia de como pensa e como vive a outra metade.

Homens e mulheres, em função dos diferentes lugares sociais que ocupam (entre outras razões), constroem compreensões muito diferentes sobre tudo. Mas a perspectiva de mundo feminina em todos os campos de conhecimento, inclusive no Cinema, começou a ser valorizada apenas recentemente. Uma prova disso, entre inúmeros outros fatos, é a gigantesca diferença quantitativa entre filmes sobre acontecimentos históricos dirigidos por homens e por mulheres.

É importante conhecer diretoras de Cinema que estão revendo a História da Humanidade porque, mais do que propor novos e diferentes olhares sobre o passado, seus filmes trazem uma História recontada, e um passado transformado, já que narrado por pessoas cujas vozes narrativas são consideradas marginais. Os fatos abordados serão originais? Os relatos serão os mesmos? Os personagens históricos agirão da mesma forma? Para responder a essas perguntas, os filmes desta lista, todos dirigidos por mulheres, são uma ótima motivação.

a culpa é do fidel

“A Culpa é do Fidel”, de Julie Gavras

Desta lista, “A Culpa é do Fidel” talvez seja o filme que mais representa a importância narrativa e temática que as mudanças de perspectiva para contar uma história acarretam. Julie Gavras captura o olhar de uma criança para os acontecimentos que convulsionaram o mundo nas décadas de 60 e 70 do século passado. Filha de ativistas, a menina Anna é arrastada para um turbilhão de fatos e movimentos em função das ações políticas dos pais. Ela detesta todas as mudanças em sua vida, mas nenhum adulto parece se importar com isso. Ao jogar luz sobre uma criança, que, à época do filme, não era vista como já trazendo os entendimentos de mundo que hoje reconhecemos, “A culpa é do Fidel” ajuda a problematizar as consequências da ideia de servir a uma causa maior sem se preocupar com quem mais precisa de nosso afeto e atenção.

as sufragistas

“As Sufragistas”, de Sarah Gavron

As mudanças sociais acontecem de baixo para cima: os direitos nunca são concedidos pelos grupos que estão no poder aos desempoderados e despossuídos; ao contrário, as pessoas discriminadas e exploradas é que agenciam as transformações que a cada dia tornam o mundo um lugar um pouco menos ruim. “As sufragistas” trata de uma dessas árduas conquistas, que foi o direito ao voto feminino na Inglaterra do início do século 20. Mas o filme também mostra que não há mudanças sociais e coletivas sem mudanças nas mentes das pessoas. Carey Mulligan encarna a personagem que, ao ingressar inadvertidamente no movimento das Suffragettes britânicas, experimenta uma transformação pessoal que lhe permitirá compreender plenamente o que significa o momento em que vive para a História da Humanidade. “As sufragistas” é um filme imperdível para quem deseja afetar-se com a história de pessoas extraordinárias pela coragem e pelo senso de participação social.

Augustine

“Augustine”, de Alice Winocour

Esse filme menciona alguns dos acontecimentos que precederam a criação da teoria psicanalítica por Sigmund Freud. Vincent Lindon é Jean-Martin Charcot, interlocutor de Freud e conceituado médico especialista em detectar e tratar casos de histeria em mulheres cujas crises exibe em suas conferências para os colegas. Soko é Augustine, uma paciente que recusa o silenciamento imposto a mulheres que, em vez de sujeitos de suas vidas, não têm sua dignidade respeitada e são transformadas em meros objetos de vaidade científica. Augustine desafia a arrogância de Charcot e deixa claro que não cabe a ele nem a qualquer outro homem, não importa de quanto prestígio social usufrua, definir o que sente e o que pensa uma mulher. Para quem deseja compreender com profundidade a noção de lugar de fala, algo imprescindível para viver com respeito às pessoas na sociedade contemporânea, “Augustine” é um filme provocador de incômodos e discussões enriquecedoras sobre o tema.

carlota joaquina

“Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camurati

Após muitos filmes brasileiros que tratam do período colonial e da independência brasileira a partir das figuras masculinas importantes, Carla Camurati nos apresenta, através da atuação de Marieta Severo, Carlota Joaquina, uma nobre espanhola que nunca foi dona de seu próprio destino. Após seu casamento com D. João VI, a rainha de Portugal acaba aportando no Novo Mundo e encontrando um universo absolutamente estranho, ao qual tentou se adaptar e ainda se divertir um pouco. Camurati expõe, num Brasil ainda nascente, as práticas corruptas e a e gigantesca dificuldade de construir um projeto de nação, problemas que trouxemos para os tempos atuais. “Dessa terra não levo nem o pó”, diz Carlota Joaquina ao sacudir os sapatos na embarcação em que deixa o país: essa frase pode ser pronunciada pelos membros da elite racista brasileira, quando manifesta seu sonho de ir para Miami e não retornar nunca mais. E bem que podia não retornar mesmo.

detroit

“Detroit – Em Rebelião”, de Kathryn Bigelow

Esse é um dos grandes filmes sobre racismo realizados na segunda década do século 21. Bigelow se notabiliza por seus filmes impactantes e sem medo de colocar o dedo nas feridas sociais e históricas da civilização ocidental. Nesse filme perturbador, a diretora estadunidense aborda a violência policial sobre os grupos sociais mais vulnerabilizados – no caso, os grupos afrodescendentes de Detroit, Michigan. Em meio a uma onda de protestos ocorrida em 1967, Bigelow narra as horas de pavor vividas por um grupo de jovens negros mais duas moças brancas sob o domínio de policiais extremamente racistas e violentos. É preciso estômago para aguentar a tensão que Bigelow imprime à narrativa, e sangue frio para aguentar a revolta que as ações dos policiais provoca. E, mais ainda, é preciso serenidade quando se compreende que na vida “real” pode acontecer, e de fato acontece, coisa bem pior, e não apenas nos Estados Unidos.

hannah arendt

“Hannah Arendt”, de Margarette Von Trotta

Convidada em 1961 pela revista The New Yorker para comentar in loco o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, a filósofa judia Hannah Arendt propôs, com base em suas observações, a Tese da Banalidade do Mal, problematizando a ideia de maldade como algo não-humano, e afirmou que todos nós somos capazes de realizar ações tão horrendas quanto as dos nazistas. O filme mostra belissimamente o trabalho intelectual da grande filósofa para construir e sustentar sua proposta revolucionária mesmo com a massiva oposição no meio acadêmico e político, que chegou a acusar Arendt de antissemitismo. O filme mostra que conhecimento transformador da realidade se faz através da desnaturalização e questionamento de verdades há muito consolidadas, o que com frequência é operado por pessoas intelectualmente corajosas e autônomas o suficiente para sustentarem com precisão seus argumentos mesmo diante de uma plateia conservadora e hostil.

maria antonieta

“Maria Antonieta”, de Sofia Coppola

Há muita coragem em enfocar uma personagem execrada pela História: conhecida como uma mulher frívola, sem compaixão pelo sofrimento do povo, a última rainha da França recebe de Coppola um tratamento humanizado. Sua vida luxuosa, mas sem qualquer privacidade e regida por regras protocolares, é descrita pela diretora para nos sensibilizar em relação a uma pessoa que não teve chances de escolher que tipo de existência levaria. Por ser uma rainha, a ela não é franqueado o direito de estabelecer projetos pessoais e escolher com quem se relacionar ou onde viver. A atuação de Kirsten Dunst ajuda a inspirar no espectador alguma simpatia pela figura da rainha: seu olhar que mistura tédio, infelicidade e infantilidade nos leva a imaginar que a vida deve ser bastante complicada a mulheres como Maria Antonieta, que existem apenas para gerar os filhos que perpetuarão um regime. Quem trocaria de lugar com ela?

persepolis

“Persépolis”, de Marjane Satrapi

Satrapi constrói, junto com Vincent Paronnaud, uma animação autobiográfica sobre a vida em seu país natal, o Irã, no período de deposição do Xá Reza Pahlevi e ascensão dos líderes religiosos islâmicos que tornaram o país uma teocracia. A renúncia a uma vida com liberdade de expressão e o retrocesso moral imposto à vida social e íntima dos iranianos causaram impactos emocionais gigantescos a todos. O filme mostra que as frequentes práticas públicas machistas e repressoras e o medo de existir em um país em que as leis religiosas se tornam leis de Estado é um peso muito maior sobre as mulheres. Para muitas, como Satrapi, há a alternativa do exílio, mas, para as que ficam, só resta a adaptação forçada, mas ambos os processos são sofridos demais para todas. Descrevendo tais situações, o filme salienta a subjetividade feminina em regimes de orientação religiosa tradicional, inadvertidamente prevendo que as coisas ainda iriam piorar para as mulheres.

que bom te ver viva

“Que Bom Te Ver Viva”, de Lúcia Murat

O filme é uma mesclagem entre documentário e monólogo. Alterna depoimentos de mulheres militantes sobreviventes da tortura durante a ditadura civil-militar e falas de Irene Ravache que sintetizam sentimentos e pensamentos relacionados a essa sobrevivência. O espectador conhecerá um pouco do que algumas mulheres passaram nos porões da tortura ignorados pela população: o que foi feito com elas durante a prisão, suas  escolhas de vida para lidar com isso, o sofrimento que nunca passará e as vitórias pessoais sobre os torturadores. A todo momento emerge a condição de mulher, um ser que produz vida, como algo que se impõe sobre a morte que os torturadores anunciavam: não apenas a morte de seu corpo, mas daquilo que constrói sua subjetividade e as torna singulares. Neste momento, em que o Brasil parece estar efetivamente escolhendo uma volta aos tempos de exceção como solução para um caos poucas vezes vivido, vale muito assistir a “Que bom te ver viva”, que traz provas concretas das consequências trágicas dessa escolha.

selma

“Selma”, de Ava DuVernay

A cidade de Selma, no Alabama, serviu de palco em 1965 para uma manifestação pacífica de grupos ligados ao movimento negro estadunidense, que atuaram em conjunto superando suas diferenças ideológicas para atingir um objetivo social maior. Eles reivindicavam a implementação efetiva do direito a voto, algo que já era possível mas era sistematicamente negado pelas autoridades brancas da época, que criavam muitos impedimentos burocráticos para os estadunidenses negros votarem. Nesse importante filme, são apresentados os diálogos e embates de ideias entre os grupos durante a preparação do evento. O efetivo agenciamento intelectual das pessoas nos debates é algo bem longe da subalternização e passividade impostas às pessoas negras na grande maioria dos filmes dirigidos por homens brancos. Ava DuVernay nos oferece uma lição sobre como tratar de racismo no Cinema, evidenciando a potência e a compreensão das pessoas discriminadas sobre sua condição social, e sobre o que pensam e desejam de uma sociedade verdadeiramente livre.

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