Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

“Egypt Station”, de Paul McCartney

“Egypt Station”, de Paul McCartney

Mario Martins - 11 de setembro de 2018

É necessário questionar que expectativa nos cerca na avaliação de um artista do porte de Paul McCartney. Inovação? Autenticidade? Forma? Técnica? Com 76 anos de idade, Paul sofre do mesmo mal que artistas na ativa e com décadas de carreira bem sucedida sofrem: a fórmula batida. Egypt Station, seu 17º álbum de estúdio, se inicia com uma breve introdução chamada “Opening Station”, que parece ter sido gravada de fato em alguma estação, devido ao eco, sons de passos e ambiência de um fluxo de pessoas indo e vindo.

 

Em seu site oficial, Paul afirma que Egypt Station foi estruturado de forma que cada faixa remetesse a um lugar diferente, como se estivéssemos passando por diversas estações. Deste modo, nossa segunda parada é em “I Don’t Know”, uma música que carrega melancolia no seu início, angústia em sua letra e esperança no seu instrumental, composto por um piano bem presente e que dá todo o charme da melodia vocal.

“Come On To Me” tem todos os elementos do rock n roll britânico, gênero de origem do aclamado Beatle. Guitarras com overdrive aguado, bateria com ritmo constante e um refrão marcante, acompanhado de uma letra sobre um rapaz parecendo flertar com uma moça em algum lugar cotidiano. Se há uma faixa que venha a agradar os antigos fãs, é essa. Todo o romance atirado aqui torna-se uma paixão grata na música seguinte, “Happy with You”, que abandona a guitarra elétrica e investe em uma pegada mais acústica, chegando a ter o tema tocado em flautas.

 

Passamos então a notar um padrão nas músicas de teor dançante e músicas que visam se tornar baladinhas, ou seja, algo mais suave, quase beirando o romântico. Em “Who Cares” temos um riff de guitarra à la ZZ Top, daqueles que você se imagina em uma viagem de moto na estrada. Na sequência, temos 4 faixas que se enquadram na característica mais tranquila mencionada: “Fuh You”, “Confidante”, “People Want Peace” e “Hand in Hand”. Todas acabam sendo também as músicas de menor duração do Egypt Station, se tornando um momento bem cansativo do álbum – afinal, todas utilizam os mesmo recursos instrumentais, dando a impressão de que foram feitas com menos cuidado ou atenção.

“Back In Brazil” tinha a chance de ser o grande charme do novo trabalho de McCartney, mas acaba sendo o típico samba de gringo, cheio de estereótipos musicais e que mais se aproxima do tecno brega, empolga pouco. Eu não sei dizer se no exterior a referência que eles tem de música brasileira é a versão do Sergio Mendes para “Mas Que Nada”, de Jorge Ben Jor, mas já não é a primeira vez que vemos uma estética tão assemelhada. Aqueles que quiserem buscar o charme real, procurem o videoclipe da canção (aqui), publicado pelo próprio Paul. Além de ter sido todo filmado em Salvador e trazer belíssimas imagens da cultura local, conta com a presença da fã que subiu no palco de seu show na Bahia no ano passado, unindo as imagens gravadas e formando uma narrativa única.

Após passarmos pela segunda estação sonora, representada pela faixa “Station II”, vem a incrível “Hunt You Down/Naked/C-link” com seus acordes sujos de guitarra, dignos de um punk rock, que rapidamente migram para o violoncelo e, logo em seguida, para trompetes e trombones. Isso tudo em alguns segundos de música. A versatilidade da canção se aproxima bastante do grande álbum Band On The Run (1973), que não se intimidava em experimentar variações instrumentais. Afinal, acabam sendo de fato três músicas em uma e a combinação é fantástica, agregando uma elegância ao álbum.

Tendo como base o questionamento levantado no primeiro parágrafo deste texto, expectativa é um laço muito pessoal e até vago quando se trata de música. Em Egypt Station, Paul McCartney não mostrou inovação, (afinal, pra que mudar a fórmula depois de tantas décadas?) esbanjou autenticidade, exibiu sua ótima forma e manteve a técnica, que não é das mais virtuosas, mas continua encantando, sendo um ótimo legado para o universo lúdico dos Beatles. Claramente superior ao trabalho anterior New (2013), o novo álbum não me parece ser dos que atraem uma nova gama de fãs, mas uma coletânea para fazer os já envolvidos ainda mais satisfeitos.

Topo ▲