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Eles Vivem

Eles Vivem

Matheus Fiore - 3 de agosto de 2018

Há, ainda na introdução de Eles Vivem, uma cena na qual o protagonista, John Nada, passa por uma loja cuja vitrine expõe uma televisão. Na tela, vemos um comercial que precede o jornal local. Do lado de fora da loja, um rapaz assiste à televisão, com uma feição que denota uma certa hipnose. Já na tevê, uma sequência interessante de imagens é exibida: o monte Rushmore, monumento em Keystone que homenageia George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln, alguns dos homens que definiram a América como conhecemos hoje; uma águia voando pelos céus, outro símbolo que exala patriotismo, mas que também representa a vigilância – a ave voa e observa a sociedade assim como os helicópteros do filme; um caubói em cima de um cavalo, que reverencia a cultura faroeste do típico herói americano; e um grupo de rapazes jogando basquete, que é a manutenção do lazer como ferramenta de controle e monitoramento comportamental e social.

Carpenter, portanto, escolheu símbolos que, ao mesmo tempo, martelam o patriotismo e o controle estatal exercido pela América daquele período – para contextualização: o filme foi lançado na era Reagan, quando o autoritarismo de seu governo e de sua guerra às drogas resultaram em inúmeros eventos de violência policial –, como também evoca elementos da construção mitológica da nação  e de ícones da cultura do país que servem como ferramenta de alienação.

Com uma introdução que define as ideias que sustentam a obra, Carpenter então parte para o desenvolvimento dramático de seu filme. Acompanhamos John Nada, um trabalhador que troca o interior do Colorado pela cidade grande em busca de emprego. Como o quadro de vagas vazio deixa óbvio, não há opções. Resta ao personagem, então, ir morar e trabalhar numa área marginalizada da cidade, onde minorias como negros e latinos tentam sobreviver.

O fato de Nada acabar trabalhando num campo de obras já imprime enorme carga política à obra. Note, na imagem abaixo, como vemos apenas alicerces de prédios no ambiente. É um plano que muito diz sobre a visão do filme: mesmo que sejam relegados aos guetos, aqueles personagens são a base da sociedade, enquanto as classes mais poderosas usufruem da vida que os trabalhadores a eles proporcionam.

Na trama, tudo ia bem até que Nada encontra uma caixa de óculos escuros um tanto quanto peculiar. Ao usar os óculos, Nada passa a enxergar o mundo sem “maquiagem”. Propagandas com corpos femininos esculturais se tornam mensagens de “case e reproduza”, outdoors que anunciam computadores de última geração cedem lugar a mensagens que exigem “obediência”, e por aí vai. O mais estranho, porém, é notar que algumas pessoas, quando vistas através das lentes dos mágicos óculos, aparentam ser alienígenas. E o pior: eles querem dominar o mundo.

Carpenter faz diversas escolhas estéticas que são extremamente precisas para o desenvolvimento de sua crítica sociopolítica. Quando Nada tenta convencer um colega, Frank, de que o mundo é uma farsa e pede para este colocar os óculos, há uma estranha e enfadonha luta entre os dois, que apesar de visualmente desinteressante – e enorme! –, serve para explicitar o quão resistente é a ideia de que a sociedade deve manter seus padrões, mesmo que estes mascarem um sistema desigual. Frank resiste até não poder mais à ideia de que deve usar os óculos – que nada mais são se não uma metáfora para “abrir os olhos”.

Ainda sobre a ação, outro acerto é a forma como Carpenter conduz e monta as cenas de tiro. Lançado em 1988, Eles Vivem veio no auge do cinema de ação, e compartilha a década com obras como RamboO Exterminador do Futuro, PredadorDuro de MatarMáquina MortíferaComando Para Matar e muitos outros longas adorados. O filme, inclusive, tem um protagonista que muito se encaixa no estereótipo do gênero: é um típico americano loiro, alto e forte. No filme de Carpenter, porém, a violência e os tiros são sempre um meio para uma alegoria política. Não há nunca um foco nos combates ou violência, mas nos sentimentos dos personagens que protagonizam essas cenas. Isso reflete diretamente na montagem, que resolve tiroteios, muitas vezes, em planos curtíssimos e bem cortados, que mostram o inimigo vivo, a arma disparando, e o inimigo morto.

Interessante também é o fato de as cenas que trazem confrontos policiais serem sempre acompanhadas por fumaças e luzes vermelhas, o que implica em vários efeitos narrativos. O vermelho, por si só, é uma cor que evoca perigo e violência, permitindo que Eles Vivem atribua às forças estatais um caráter repressor não só por suas atitudes destrutivas, mas por sua própria apresentação visual.

Esse clima de coerção surge também por símbolos. A águia que aparece na introdução e foi mencionada no começo do texto, por exemplo, ressurge de forma metafórica algumas vezes. Quando os personagens estão com os óculos, é comum que vejam uma nave os monitorando dos céus; quando sem os óculos, mais comum ainda é a presença de helicópteros policiais, que sobrevoam o ambiente algumas vezes, criando um clima de controle e observação constante.

Em contraste à tensão que permeia boa parte da projeção, há também a melancolia pelo isolamento social do gueto onde o protagonista passa a viver. Planos como o abaixo, que aproveitam uma profundidade de campo grande para alocar, no mesmo quadro, um cenário de pobreza extrema com a imponência da cidade grande, são características marcantes de Eles Vivem. Carpenter consegue, com esse tipo de composição visual, mostrar como as minorias ali retratadas acabam engolidas e subjugadas por um sistema que, além de excludente e desumanizador, é extremamente poderoso.

Capaz de tecer inúmeros comentários sociais e políticos sem nunca esquecer da parte estética, Eles Vivem é uma prova não só da visão crítica de seu diretor, mas também de sua capacidade de esculpir a forma cinematográfica em prol dessa crítica. É uma trama que, a cada quadro, traz consigo uma ácida visão do mundo capitalista, mas também um sutil e admirável traço do esmero técnico empregado na narrativa.

O diálogo pleno entre forma e conteúdo, portanto, permite que Eles Vivem seja tão ácido quanto anárquico. Temos uma obra que não se contenta simplesmente em criticar um modelo de sociedade, mas que também apresenta a desobediência civil e a revolução como um ato heróico, como a única reação possível. Enquanto boa parte dos heróis dos anos 80 tinham como missão a proteção da sociedade ocidental e a manutenção do status quo, o heroísmo de John Nada reside justamente em sua rebeldia e enfrentamento do establishment.

E se enxergarmos os óculos escuros do filme como uma alegoria para a própria obra – afinal, se os óculos abrem os olhos dos personagens, Eles Vivem também também pode abrir os olhos de um espectador alienado –, não é loucura imaginar que Carpenter fez de seu filme, além de uma sátira, uma manifestação de seu desejo por uma necessária transformação.

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