Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Em Chamas

Em Chamas

Ana Flavia Gerhardt - 11 de novembro de 2018

Quem gosta da Sétima Arte e acompanha os lançamentos cinematográficos mais relevantes sabe que a notícia de um novo filme coreano é motivo para festejar. E não é para menos: a Coreia tem nos presenteado frequentemente com filmes maravilhosos, dirigidos por cineastas cujos nomes, mesmo incomuns ao ouvido ocidental, temos aprendido a repetir e louvar. Eles realmente entendem do assunto, não têm medo de ousadias artísticas e temáticas, e nutrem um carinhoso respeito pela inteligência dos espectadores. O resultado é quase sempre obras sofisticadíssimas, sobretudo em roteiro e atuações. Em Chamas se encaixa em todas essas qualidades.

Em Chamas Beoning 2018

Dirigido por Chang-Dong Lee, cineasta que mantém intervalos relativamente longos entre as obras que realiza (diferente, por exemplo, do profuso mas igualmente brilhante Hong Sang-Soo), Em Chamas certamente já está em muitas listas de melhores filmes do ano, será citado bastante pelas semanas que nos separam do fim deste sofrido 2018, e igualmente permanecerá nas mentes de muitos que a ele assistirem.

Um dos motivos dessa relevância é a densidade dos temas que aborda e a intensidade com que eles são tratados no roteiro escrito a quatro mãos pelo próprio Chang-Dong Lee e por Jungmi Oh, com base nos dois contos homôminos Barn Burning, um escrito por William Faulkner, e outro, por Haruki Murakami. O outro motivo é as atuações do trio principal de atores, com destaque para o protagonista vivido pelo excelente Ah-In Yoo.

A densidade temática de Em Chamas provém, entre outros aspectos, da escolha por mostrar como, em grande medida, as informações e valores da Coreia contemporânea e capitalista estruturam as vidas de três jovens sul-coreanos, dois rapazes e uma moça. Modelo de vida hegemônico em boa parte do planeta, o capitalismo tem produzido desde sempre subjetividades voltadas para a necessidade de acúmulo de bens de consumo (“As mulheres têm que gastar dinheiro em tanta coisa. É duro ser mulher”, alega uma jovem coreana, justificando as dívidas que provocaram a bancarrota de sua colega).

Em Chamas Beoning 2018

Pensar nessas subjetividades não raro desperta a antiga, mas não pouco importante, discussão filosófica acerca do ter e do ser, que esconde, sob uma aparência simplista ao olhar desavisado, uma capilaridade de conceitos fundamentais ao que definimos como sendo o sentido para as nossas vidas. Essa discussão é antiga porque o apego às coisas, que pode facilmente levar ao entendimento de que as pessoas também são coisas, existe desde que o mundo é mundo. E essa forma de viver está sendo cada vez mais estruturadora da realidade neoliberal, como aponta por exemplo este texto de Rubens Casara.

A questão é que, antes da emergência do capitalismo, quase ninguém podia ter coisas em que se apegar. A crescente facilidade de obtenção de bens de consumo por mais e mais pessoas disseminou o apego às coisas e seu gêmeo siamês, que é o culto à própria imagem, a ponto de eles se tornarem uma doença da contemporaneidade. Mesmo tão próxima do regime mais fechado do planeta, algo que Chang-Dong Lee não deixa de lembrar, a Coreia do Sul, tigre asiático há décadas exibido como exemplo de investimentos sociais e econômicos (que justificam parcialmente a quantidade de cineastas coreanos geniais), não foge ao problema, e é essa a questão que permeia todo o filme.

O grande paradoxo do desenvolvimento econômico – vidas materialmente preenchidas mas esvaziadas de riqueza humana – não deixou de afetar os coreanos do Sul, e se personifica nas figuras antagônicas do rapaz pobre e administrador rural Jong-Su (Ah-In Yoo), e do jovem rico e desocupado Ben (Steven Yeun). Em meio à explicitação desse antagonismo ao espectador, Chang-Dong Lee se dedica, no terço inicial do filme, a oferecer um perfil completo de Jong-Su. Por isso, acabamos sabendo que o tímido rapaz, cuja mãe o deixou décadas atrás, toca sozinho a criação de animais do sítio da família porque seu pai cumpre pena por agressão a um agente público.

Em Chamas Beoning 2018

Mesmo pertencendo à classe trabalhadora, Jong-Su alimenta sonhos literários e planeja um dia escrever ficção. Aliás, a escrita como criação artística e como uma forma poderosa de a pessoa socialmente invisibilizada situar-se no mundo é um tema que interessa a Chang-Dong, e em Poesia (2010) ele já o havia explorado de forma ainda mais central. Em Em chamas, a timidez e a falta de autoconfiança de Jong-Su são obstáculos para sua inspiração.

Mas a delicadeza da composição realizada por Ah-In Yoo, que entrega ao personagem um rosto temeroso, mas faminto e sensibilizado com o mundo exterior, nos faz acreditar que, por baixo da impressão de estar desconfortável em todos os lugares, há de fato uma alma de escritor capturando cada detalhe para transformar tudo em texto. O desejo de Jong-Su é o de ser alguém em plenitude, e isso faz com que ele também busque essa plenitude em suas experiências de vida.

Por esse motivo é que a chegada de Hae-mi (Jong-Seo Jeon) lhe causa tanto impacto. Hae-mi, moça sensível e dedicada a experimentar um intenso presente, traz a Jong-Su uma vivência diferente: tendo sido eles vizinhos durante a infância, ela revela ter se interessado por ele quando mais jovem. Essa revelação lhe massageia o ego e lhe traz a esperança de alcançar as realizações que planeja para si.

Por isso, após sua primeira visita à casa de Hae-mi, Jong-Su retorna ao lugar frequentemente, não apenas para alimentar o gato da moça que viajou, mas também para saborear de novo o desejo que sentiu junto com ela. As ações e sentimentos de Jong-Su na casa de Hae-mi são fundamentais para que possamos situar o rapaz no pólo do ser e da vontade de usufruir com intensidade os momentos da vida, absorvendo, aprendendo e inspirando-se para a criação artística com que pretende conduzir seu futuro.

A personalidade rica de Jong-Su fica ainda mais evidente e iluminada quando entra em cena Ben, trazido por Hae-mi. Inicialmente, Chang Dong-Lee parece nos levar para um triângulo amoroso, mas logo reconhecemos que o grande embate do filme se dará entre os dois homens, estando Ben situado no pólo do ter: seu porsche e seu apartamento luxuoso situado num bairro chique de Seul ratificam sua condição financeira abastada, cuja origem o rapaz não faz questão de revelar.

Obviamente, é palpável o desconforto de Jong-Su, que de início teme perder Hae-mi para os confortos que Ben pode oferecer, mas aos poucos acaba compreendendo que o aparente rival, além de acumular coisas, também acumula pessoas – de preferência as de classes sociais menos favorecidas, porque estas podem ser facilmente atraídas para os privilégios que sua companhia proporciona.

Ben usa as pessoas para satisfazer seus fetiches pessoais. A passagem de bastão de uma a outra não lhe causa o menor incômodo, já que para ele elas nada representam: são apenas objetos pelos quais rapidamente se interessa, e dos quais mais rapidamente ainda se entedia.  Mas o caso de Jong-Su é diferente: “quero lhe contar minha história”, lhe diz Ben, numa fala que norteia o que acontecerá no resto do filme. Entre Jong-Su e Ben não há pontos de conexão além do tempo em que ambos permaneceram interessados, por diferentes razões, em Hae-mi. Mas o incômodo que um causa no outro, também por diferentes razões, faz com que eles voltem a se encontrar algumas outras vezes, em diferentes circunstâncias e com diferentes propósitos.

Em Chamas Beoning 2018

Chang-Dong Lee parece considerar importante que a distinção entre esses dois homens seja apresentada da perspectiva de Jong-Su, principalmente pelo fato de que Ben é uma pessoa vazia, sem perspectivas e sem futuro, por isso é que cultiva uma vida de aquisição e descarte de coisas e pessoas. Porém, sua presença é fundamental para o contraponto com Jong-Su, porque isso acaba orientando as escolhas que este último faz para a sua vida, o que inclui construir a certeza de que é capaz de seguir uma carreira literária. Contribuindo para essas escolhas, surge a presença de outro homem, o pai de Jong-Su, descrito por mais de uma pessoa como um homem violento e incapaz de conter seus impulsos agressivos, o que é algo que Jong-Su demonstra não desejar para si, embora talvez isso possa aparecer eventualmente.

No contraponto entre, de um lado, Jong-Su, e, de outro, seu pai e Ben, emerge a ideia, paralela à da necessária escolha que temos de fazer entre ser e ter, de que também é fundamental decidirmos o que não ser. Jong-Su não será como Ben, porque já fez a escolha de penetrar no fluxo da vida e se relacionar de forma verdadeira, plena e enriquecedora com as pessoas, em vez de empreender o fútil e egoísta usufruto que caracteriza as ações de Ben. Também não será como seu pai, já que estabeleceu para si um projeto de pessoa e parece determinado a segui-lo, reconhecendo a inspiração onde ela se encontra.

Em Chamas nos dá o recado de que, para nos engajarmos na grande empreitada do ser, e também na do não ser, talvez seja necessário não apenas descobrirmos o fogo que alimenta nosso desejo de vida, mas também realizarmos ações e transformações importantes para superarmos o que representa um obstáculo à nossa felicidade e simboliza o contrário daquilo em que acreditamos e estamos empenhados em construir.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2018. Para conferir toda a nossa cobertura, clique aqui.

Topo ▲