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Estômago

Estômago

Marina Pais - 20 de agosto de 2018

É curioso que Estômago tenha sido lançado no mesmo ano que Ratatouille. Esse, dirigido por Brad Bird, acompanha um ratinho que, inspirado pelo slogan “qualquer um pode cozinhar”, deseja ser chefe de cozinha. Em Estômago, de Marcos Jorge, não há qualquer bordão sequer remotamente similar ao da animação produzida pela Disney/Pixar. No entanto, a jornada de Raimundo Nonato (João Miguel), estruturada em paralelos entre a sua vida como imigrante nordestino e presidiário, nos prova que, de fato, qualquer um pode cozinhar.

Inspirado em um conto de Lusa Silvestre (que também contribuiu para a construção do roteiro), o filme se inicia, apropriadamente, com a boca de Nonato, que defende apaixonadamente a presença do queijo gorgonzola (e do seu cheiro) na cela que ocupa, para o desagrado dos seus colegas. Assim, já sabemos que Nonato será preso, sem, no entanto, sabermos como ou porquê. Esse estilo de tragédia anunciada não só é eficiente por proporcionar uma cronologia mais dinâmica, que se movimenta livremente pelo passado e presente, como também se adequa ao contexto do filme, funcionando como um exemplar do sistema prisional brasileiro e seu jogo de cartas marcadas.

 

Com isso, Estômago constrói dois ciclos narrativos que não só funcionam muito bem de forma separada, contando narrativas que são individualmente interessantes, como conseguem, ao mesmo tempo, encontrar uma coesão que comprova o valor de tê-los juntos. No primeiro, Nonato é um recém-chegado na cidade grande que se vê obrigado a trabalhar fazendo coxinhas em troca de moradia. No segundo, Nonato, que agora é chamado de Alecrim, tenta ascender na hierarquia existente entre os seus companheiros de cela, representada pela altura das camas em que eles dormem.

Além disso, a obra de Marcos Jorge utiliza muito bem alguns artifícios técnicos que, embora comuns, não deixam de ser eficientes. Temos como exemplo o diferente corte de cabelo usado por Nonato na sua vida dentro e fora da cadeia, o que, além de representar a mudança de identidade trazida pelo cárcere, nos permite distinguir com facilidade esses períodos, e contribui para que o enredo jamais se torne confuso. Há, ainda, a filmagem de um banquete através de um travelling que demonstra a voracidade com que a comida é devorada e proporciona um atalho interessante na passagem do tempo.

Essa conquista da coerência em Estômago é algo que merece um reconhecimento especial. O seu título já é um indicativo das contradições que serão abordadas: uma palavra com um tom tão visceral não é o que se espera como nome de um filme com tanta comida. Em outro momento, quando Nonato aprende a fazer coxinhas, prepara os ingredientes com as mãos sujas e lambe a colher que usa para mexer o molho antes de colocá-la de volta na panela. Por mais estranha que essa descrição pareça, nenhuma dessas circunstâncias faz com que seus pratos deixem de parecer apetitosos.

A ligação entre apetite e (falta de) higiene é sustentada, em grande parte, pela força da trilha sonora. Em uma cena específica em que Íria (Fabiula Nascimento) retorna à geladeira para comer mais uma coxinha, um coral quase angelical é ouvido a partir do momento em que ela toca no prato, transformando a comida em divindade. A música-tema, por sua vez, se adequa à situação em que Nonato se encontra – transformando-se em uma melodia triste, esperançosa e até mesmo aterrorizante. A trilha complementa de tal forma o filme que os dois parecem ser elementos indissociáveis (o que, infelizmente, nem sempre é a regra). Curiosamente, em uma contradição externa ao enredo, essa trilha foi composta por Giovanni Venosta à distância, em Milão, com base nas cenas que lhe eram enviadas.

Por mais que se trate de uma tragédia agridoce, há em Estômago ingredientes muito otimistas. A trajetória de Raimundo Nonato é representativa de como a culinária – ou a arte, de forma geral – pode funcionar como um processo de humanização e subversão. A sua ascensão hierárquica acompanha a evolução do seu paladar, e é através da cozinha que ele consegue interferir no mundo ao seu redor, estabelecendo relacionamentos e até mesmo conseguindo um emprego. Afinal a arte é, também, uma ferramenta de mudança.

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