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Final Space – 1ª temporada

Final Space – 1ª temporada

Mario Martins - 16 de agosto de 2018

Após o sucesso de Bojack Horseman, sua principal animação original, a Netflix resolveu investir em um novo projeto, denominado Final Space, desta vez visando conquistar um novo público. Final Space muito foi comparada a Rick and Morty, talvez pelo fato de a série se passar em galáxias e realidades alternativas, fazer uso de viagem no tempo e moldar seu roteiro levando em conta elementos da Física. Ambos os desenhos, de fato, se aproximam de alguma forma.

Final Space possui um charme chamativo já no piloto, quando assistimos a um prelúdio de um cenário catastrófico no qual o protagonista Gary possui apenas dez minutos de oxigênio em sua roupa espacial. Cada minuto é contado de forma curta ao longo dos dez episódios da série, e a resolução dessa trama caminha de forma contrária ao seu clima descontraído e quase bobo.

Em Rick e Morty o personagem Jerry, pai de Morty, é usado como uma ferramenta de quebra de expectativa a fim de gerar humor com sua ignorância e inocência. Já em Final Space temos o herói Gary, um prisioneiro que cumpre pena dentro de uma nave e faz questão de martelar todas as piadas, explicando até as mais óbvias. Por sorte, os demais tripulantes da nave Space One (principal núcleo da animação) são bem mais carismáticos. São eles o sistema operacional chamado HUE, o robô KVN e os operários de inteligência artificial que possuem nomes variados, sempre escritos em suas “testas”. Recursos como pausa, entonação pontual – isto é, que respeita o tempo da anedota -, utilizados com sutileza, contrastam com a característica forçada de Gary, salvando algumas piadas.

Se Rick e Morty possui um público mais adulto, o perfil do protagonista de Final Space demonstra um interesse por um público mais jovem, que não se importe com piadas mastigadas. Mas o desenho em si passa longe de ser infantil, construindo boa parte de suas soluções de roteiro por meio da violência e de eventos de natureza destrutiva. O vilão Lord Comander possui momentos altos e baixos: ora sendo diminuído pelos próprios personagens por conta de sua estatura, ora fazendo exibições exacerbadas de poder, o antagonista se encaixa na trama da maneira que o enredo precisa, conseguindo ser humorado e temido em dosagens iguais.

Tão relevante quanto a trilha sonora, que pontua todos os momentos de aventura, melancolia, adrenalina e impasse pelos quais os personagens passam constantemente, precisamos mencionar aqui a importância das cores, da luz e do cenário de Final Space. Seus personagens são animados com estilo similar aos de Os Simpsons e Futurama. Contudo, o diferencial aqui está no fundo das cenas, que nos presenteia com um espaço sideral totalmente digitalizado, com um bom trabalho de luz e sombra que chega a dar um efeito tridimensional e até psicodélico quando necessário. É uma ferramenta que consegue trabalhar de forma visual e palpável a instabilidade do espaço-tempo, não hesitando em alterar a forma ou as cores de seus personagens, que visitam pontos distintos da galáxia.

Final Space possui uma nítida qualidade de produção, mas não organiza tão bem seus elementos. A direção parece atentar-se demais às cenas relevantes, fazendo uso de slow motion para que possamos apreciá-las, enquanto se esquece de enriquecer com o mesmo carinho as cenas de diálogos de cunho emocional. Desse modo, sem haver a menor necessidade, o enredo frequentemente se apressa. O fato de os episódios possuírem somente 20 minutos gera uma expectativa de que toda sua duração seja preenchida com pontos relevantes para a trama. Nos episódios finais, em que já se inicia a construção do epílogo, há espaço para construir um humor bobo e rápido, jogando-se fora toda a imersão que vinha sendo construída até ali. Quem conseguir superar os pacatos episódios iniciais, vai se deparar com um grande desfecho, que surpreende em função do desenvolvimento da obra.

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