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“Golpe Baixo” e o mito da “Great America”

“Golpe Baixo” e o mito da “Great America”

Ana Flavia Gerhardt - 1 de Fevereiro de 2018

Muitos filmes nos trazem, mesmo através da ficção, ideias e reflexões importantes sobre as realidades sociais e culturais que construímos para viver em comunidade. Ao nos conectarem com o passado e, muitas vezes, com o futuro, eles nos fornecem dados para compreendermos um pouco mais o presente – e os tempos atuais têm tornado essa compreensão mais e mais necessária. “Golpe Baixo”, do cineasta estadunidense Robert Aldrich (1974), é uma obra cuja leitura nos permite construir visões do presente com razoável margem de acerto. Isso é possível porque, tendo sido realizado na década de setenta, “Golpe Baixo” hoje existe como documento histórico de um país que, ao longo das décadas que se seguiram, foi se transformando em muitos sentidos, mas em alguns outros permaneceu sem alteração.

Os Estados Unidos, por conta de sua gigantesca produção cinematográfica, são um país que se descortina de forma tão explícita para nós, que até eu, que sou brasileira e não me dedico a estudá-los, consigo reunir elementos para especular sobre seus mitos, e é no universo da especulação que eu embarco neste artigo e convido os leitores a fazerem o mesmo.

O mito sobre o qual me interessa especular é o da Great America, que nomeio com base no discurso do candidato Donald Trump à eleição estadunidense de 2016, e que agora é o seu grande compromisso de governo (a meu ver, impossível): Make America great again. Neste texto, imagino que “Golpe Baixo”, um filme sobre o mito da Great America, pode nos fazer entender uma das causas pelas quais Trump foi eleito, contra todos os prognósticos. Isso mostra mais uma vez que a Arte e a vida estão em conexão tão estreita, que muitas vezes não sabemos quem influencia quem.

O próprio termo Great America já nos ajuda a especular sobre a inusitada, até bizarra, eleição de Trump. Muitos estadunidenses têm o hábito de, numa sinédoque ao contrário, denominarem seu país America (está sem acento para vocês lerem com o “r” retroflexo). Isso nos dá a impressão de que eles ignoram, quase perceptualmente, a óbvia existência das imensas porções de terra ao sul e ao norte do grande Continente Americano, onde, além dos EUA, se situam dois dos cinco maiores países do planeta. Parece que nós, os outros americanos, não existimos para eles.

Mas essa não é a única de suas ignorâncias. O esporte é parte fundamental da vida social dos estadunidenses. Muitos se dedicam à prática esportiva e se aprimoram a um nível de excelência tal, que passam também a ignorar que fora dos EUA esses mesmos esportes também são praticados. Entre eles, está o futebol americano, o esporte mais popular entre os estadunidenses – para eles, football, em contraste com o soccer, que aliás desperta cada vez mais interesse, sobretudo o feminino, tricampeão da Copa da FIFA. Como estão longinquamente superiores aos outros países, os times de football, tanto os universitários quanto os profissionais, valorizam mais os campeonatos internos do que os internacionais. Daí o Superbowl ter tanta relevância.

A importância do esporte é mundial, por isso a prática esportiva acaba sendo aderida aos valores de cada nação e de seus cidadãos. Assim, nos EUA, a representatividade do futebol americano, e de outros esportes também, acaba sendo permeada por esses valores, e reforçada pelo patriotismo nacionalista dos estadunidenses. O Cinema produzido lá nos oferece fartos exemplos disso, ao articular a excelência das pessoas em determinados esportes ao seu resgate pessoal, ao seu amor à nação, ao desenvolvimento de espírito de grupo, à crença na grandeza do país.

Esse é o caminho para que a prática de um determinado esporte se relacione a mitos que fundam os valores éticos nacionais, e faz com que consideremos seus atletas como pessoas que personificam esses mitos. Em “Golpe Baixo”, é o que ocorre com Paul Crewe (Burt Reynolds), ex-atleta de futebol americano que no passado foi banido da National Football League (NFL) por ter recebido dinheiro para provocar a derrota do seu time. O início do filme o retrata vivendo uma vida de playboy, mas fica claro, dada a sua preferência por assistir a jogos do esporte na TV, que a vida dos estádios não saiu dele. Isso é um sinal, para o espectador, da viabilidade e plausibilidade da redenção que o restante do filme narra.

Preso por agredir um policial, Crewe é levado a um presídio cujo diretor mantém um time de futebol americano composto por presidiários, sendo que os guardas também montaram seu grupo. Coagido a selecionar e treinar o time dos presidiários, Crewe consegue romper a segregação que havia no presídio, agregando pessoas de diferentes etnias em torno do propósito comum de vencer os guardas opressores. Durante o jogo, Crewe resgata sua honra recusando a chantagem do diretor para vender a derrota dos companheiros para o grupo dos guardas e levando seus companheiros a uma vitória emocionante. É interessante o fato de que a figura que incorpora os movimentos de resgate aos valores da Great America é o típico white male estadunidense – o ator Burt Reynolds, cujo personagem os companheiros de time acabam admirando com a maior facilidade, por seus feitos heróicos e por sua capacidade de agregar pessoas e neutralizar as diferenças entre elas.

Ocupando pelo menos quarenta minutos do filme, o jogo em si proporciona não apenas a redenção de Crewe, que vai sendo construída jogada a jogada. Também significa a recuperação de crenças dos demais presidiários do time, que, mesmo retirados da vida civil e dos privilégios que a America proporciona, ainda assim podem, após serem unidos por Crewe numa mesma comunidade, sentir-se verdadeiramente cidadãos, porque mesmo dentro dos muros da prisão podem praticar os valores morais que o futebol americano, esporte estadunidense por excelência, requer para ser jogado com honra e mérito.

Nesse jogo, reforçam-se também os valores morais da Great America, já que, em 1974, em plena Guerra Fria entre EUA e URSS, esses valores de forma alguma poderiam ser problematizados, mas sim reafirmados. Não é à toa que foi nesse período que o esporte mais serviu de álibi para propaganda patriótica e demonstrações de superioridade econômica e social de ambos os países – analogamente ao que houve no Brasil da ditadura civil-militar, que usava o futebol como símbolo da pujança da nação.

A trajetória de Paul Crewe e seus companheiros se encaixa perfeitamente no mito da Great America enunciado por Trump e presente no imaginário dos estadunidenses. Segundo esse mito, há uma relação de mão dupla entre a America e os americans: tanto a America é capaz de tornar grandes os seus cidadãos, trazendo-os para a prática dos valores fundamentais do país (muitas vezes por meio do esporte), quanto alguns dos seus cidadãos também são capazes de produzir/resgatar essa grandeza e produzir/resgatá-la em seus compatriotas, agregando todos numa só comunidade nacional.

Mas é importante notar que não é qualquer cidadão estadunidense que pode fazer isso. Essa tarefa está a cargo de um white straight male (macho branco heterossexual), como Burt Reynolds. Ele é quem traz os atributos fundamentais geradores da grandeza estadunidense, já que muitos estadunidenses brancos não reconheceriam que os escravos e os habitantes originais da terra norte-americana também são responsáveis pela prosperidade do país. É preciso salientar que esse mito não é criado do nada: é uma variação do mito do herói, no qual se inclui o mito de Jesus, que também é o homem branco (na verdade semita, mas branqueado pelo cristianismo) heterossexual salvador da humanidade perdida na iniquidade do pecado.

Nos filmes estadunidenses que remetem a esse mito, a relação de mão dupla acontece normalmente no resgate de seus protagonistas, os quais, assim como Paul Crewe, estão, por ações que eles mesmos praticaram (esse dado é importante, já que a America nunca é responsável pelo fracasso de seus filhos), perdidos, muitas vezes em pecado, e fora dos círculos em que a Great America se materializa – família, escola, trabalho. Algum elemento nacional  – esporte, família, Arte, profissionalização – intervém para trazer de volta o protagonista aos trilhos da prosperidade e do amor ao país. Resgatado, o protagonista pode então proporcionar aos outros cidadãos o mesmo resgate que a America lhe favoreceu. É o que acontece por exemplo emAvatar”, de James Cameron (2009), cujo protagonista Jake Sully é o macho branco que, resgatado pela cultura superior dos Na’vi, consegue unir os seus semelhantes para a luta contra os terráqueos opressores.

Mitos nacionais poupam as pessoas de pensar, já que eles são narrativas prontas. É só mudar o ator, porque o personagem e o enredo são sempre os mesmos. Todo candidato a cargo político quer se encaixar em um, e os eleitos muitas vezes são justamente os que são reconhecidos por seus eleitores como capazes de operar as realizações que os mitos preveem. Mas sabemos que a realidade é muito mais complexa do que isso. Os estadunidenses que votaram em Trump podem muito bem tê-lo feito por ter reconhecido no candidato republicano a figura central do mito da Great America. Trump é o exemplo mais acabado do macho branco que a America, a terra das oportunidades, torna Great, ou seja, bilionário. E esse macho, em retribuição, torna/reafirma a America great again, algo que Hillary Clinton não podia fazer porque é mulher, e Barack Obama não poderia ter feito porque é negro.

O problema é que a Great America do passado, que eles tanto esperam de volta, não vai mais acontecer, pelo menos por três motivos. O primeiro é que o que alimentava os prósperos Estados Unidos de décadas passadas era um capitalismo industrial que já se exauriu, dando lugar a um capitalismo do século vinte e um impulsionado pelo acúmulo de fortunas, pela especulação financeira e pela internet, e que agora não necessita de mais tantos braços operários quanto precisava antes. Ou seja, os empregos estão diminuindo no país não porque os imigrantes os tomaram dos estadunidenses, mas sim porque os postos de trabalho desapareceram.

O segundo é que a America era Great apenas para os estadunidenses homens brancos e heterossexuais. Os não-brancos, as mulheres e os gays viviam e ainda vivem um cotidiano de segregação sistemática, muitas vezes longe da dignidade que ser estadunidense em princípio ofereceria. Isso fez com que pouco a pouco mais e mais grupos sociais fossem se formando para trazer à luz o que a prosperidade material escondia, ao mesmo tempo em que a realidade negava e ainda nega cada vez mais fortemente todos os mitos que compõem o imaginário estadunidense.

O terceiro é que a Great America é insustentável, porque se concretiza com consumo desenfreado, produção irresponsável de lixo e queima de combustíveis fósseis, ações nas quais os Estados Unidos estão entre os campeões. Não é à toa que Trump, para ser eleito, deplorou as previsões dos cientistas dos campos ligados à ecologia de que em algum momento o processo de degradação da Terra se tornará irreversível. O mito de Great America não divide espaço com as sustentabilidade. Mas não vai haver como fugir disso muito tempo, e alguns administradores americanos já transformaram a necessidade de uma sociedade ecologicamente sustentável do discurso para a prática.

A concomitância entre a luta por mais direitos sociais, o aumento da imigração e o empobrecimento de muitas famílias brancas é a receita ideal para alimentar o mito da Great America e o desejo por um salvador da pátria. Esse desejo não é exclusividade dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, ainda não conseguimos sair da fase de atrelar a representação política a mitos messiânicos, mesmo sabendo no que isso pode dar. Aqui, canais de televisão insistem em enfiar a cabeça na terra e ignorar a gigantesca corrupção nas federações de futebol, alardeando a excelência de uma seleção nacional que só existe na mente de alguns locutores. Jogadores famosos, tidos como heróis por muitos jovens, posam ao lado de candidatos a candidatos a presidente. Tendo feito isso há somente três décadas, corremos de novo o risco de eleger incompetentes fascistas que se esforçam por se encaixar no mito de um Brasil Grande, baseado em crenças que nos retrocedem ao período colonial – qualquer semelhança não é mera coincidência.

Não é possível evitar o surgimento de mitos ilusórios – eles são parte dos modelos de pensamento que o ser humano usa para entender o mundo à sua volta. O que se deve fazer é, sempre que possível, e em tempo de buscar evitar desastres históricos, pelo menos especular sobre aqueles que podem causá-los. Afinal, o mínimo que devemos fazer, diante de decisões a tomar, é aprender com os nossos erros e os erros dos outros, a fim de que não os cometamos novamente.

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