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Em ‘Anthem Of The Peaceful Army’, Greta Van Fleet faz rock genérico e comportado

Em ‘Anthem Of The Peaceful Army’, Greta Van Fleet faz rock genérico e comportado

Som que mistura referências ao Rush e ao Led Zeppelin soa anacrônico e ignora últimos 40 anos do Rock

Matheus Fiore - 23 de outubro de 2018

Há uma lenda que diz que quando o Rush tocou nas rádios pela primeira vez, em 1974, as pessoas ligavam para as estações perguntando quando aquele disco do Led Zeppelin chegaria às lojas. Apesar de provavelmente ser um boato, a ideia faz muito sentido, já que Geddy Lee apresentou, em ‘Rush’, um estilo vocal muito semelhante ao de Robert Plant em seu auge. Porém, há uma diferença enorme entre Zeppelin e Rush, que facilita muito para quem desconhece ambas as bandas identificar qual é qual: o Led Zeppelin teve, do primeiro ao último disco, o blues como elemento basilar da construção harmônica. O Rush, apesar de ter flertado com o blues, sempre teve um som menos apegado ao gênero e mais focado no hard rock puro e no rock progressivo. É fácil constatar, portanto, que apesar da proximidade de textura vocal entre Le e Plant e da força da guitarra de Alex Lifeson lembrar Page em seu auge, o Rush sempre foi uma banda que soube imprimir sua personalidade em cada faixa de seu trabalho – mesmo quando fez covers memoráveis, como o de ‘A Heart Full of Soul’.

É interessante ressaltar tudo isso para analisar ‘Anthem Of The Peaceful Army’ porque o Greta Van Fleet, grupo de Michigan formada pelos irmãos Josh (vocal), Jake (guitarra) e Sam Kiszka (baixo) e pelo baterista Danny Wagner é constantemente comparado ao Led Zeppelin, mas há pouco – quase nenhum – apego do Van Fleet ao Blues. E o disco de estréia da banda evidencia essa diferença essencial em toda e cada faixa. Greta Van Fleet se inspira – e muito – no Zeppelin e no próprio Rush, mas não consegue partir disso para construir um som próprio, limitando-se à simples emulação.

Há, claro, bandas que de fato lembram o Led Zeppelin. Na atualidade, os californianos do Rival Sons são os que chegam mais perto. Mas não por emularem os britânicos setentistas, e sim por partirem de inspirações semelhantes. Assim como John Bonham, Michael Miley teve como grande inspiração Keith Moon, do The Who. Já Scott Holiday, o guitarrista, tem uma origem blueseira inegável quando observamos seu apego ao uso do slide e ao dobro, duas assinaturas do Chicago blues – isso sem falar que o próprio Holiday já mencionou Jeff Beck, simplesmente o grande mestre de Jimmy Page, como seu maior referencial. E esse diferencial fica mais evidente quando observamos o conjunto da banda, já que Robin Everheart, baixista dos três primeiros álbuns, levava funk ao grupo de hard rock, e o vocalista, Jay Buchanan, é um cantor de soul.

Muita referência, pouca personalidade

Com o Greta Van Fleet, porém, a inspiração parece ser outra. É uma banda muito mais millennial-retrô do que de fato inspirada no blues rock. O que temos nas primeiras canções reveladas nos últimos anos, por exemplo, são riffs inspirados diretamente no Led Zeppelin, como ‘Highway Tune’, que é um ctrl v de ‘The Rover’, do Zeppelin. É como se, para os rapazes do Van Fleet, o rock tivesse começado apenas em 1969, com ‘Led Zeppelin I’.

Isso tudo, claro, não configura um defeito ou erro na proposta da banda, e pontuo apenas para evidenciar que Van Fleet, apesar de ter sim algumas similaridades com o Led Zeppelin, não tem a mesma lógica da banda. Em vez de beber das mesmas fontes do Zeppelin – como o Rival Sons fez –, os rapazes de Michigan bebem do Led Zeppelin e das bandas de hard rock do fim dos anos 70.

Um problema é que todo o som da banda parece ser feito por encomenda. Diante do momento nostálgico que toda a cultura americana vive – no cinema, “It – A Coisa” foi um dos grandes sucessos de 2017″, enquanto “Stranger Things”, da Netflix, revive a aura de filmes oitentistas como “E.T. – O Extraterrestre” e “Os Goonies” –, Greta Van Fleet aposta em reproduzir todo o ethos zeppeliano, já que o quarteto liderado por Jimmy Page foi um dos maiores sucessos da história da música.

Peguemos, por exemplo, as vestimentas do grupo. Os Kiszka e Wagner se vestem de forma muito semelhante a como se vestia o Zeppelin na primeira metade dos anos 70. Claro, não é justo analisar uma banda baseando-se somente em clássicos, mas é nítido que o próprio GvF busca essa comparação. Até a forma de se movimentar dos artistas é semelhante. Perceba nos vídeos, por exemplo, como Jake desce sua guitarra até as pernas como fazia Page e, além disso, toca seu instrumento enquanto dança projetando o corpo para frente e para trás, como fazia o britânico. Isso sem falar na gesticulação de Jake Kiszka, que é uma cópia descarada dos trejeitos de Robert Plant.

O aguardado disco de estréia mostra um quarteto perdido no tempo

Tudo isso reflete diretamente nas composições da banda. Se os gritos de “oh, mama” de Robert Plant eram a herança de sua raiz blues que surgia quase sempre como improvisos em cima das próprias canções – Plant mudava as letras de show para a show, a única constante era a linha melódica –, os “oh, mama” de Josh Kiszka parecem ser apenas uma forma de referenciar seus ídolos e, em muitas vezes, sequer combinam com as letras e com o atual contexto cultural. Infelizmente, o único elemento contemporâneo da música do Greta Van Fleet é a forma curta e genérica das canções, que parecem ser planejadas para playlists, e não para compor um álbum (isso será mais discutido adiante).

Portanto, parece um pouco fora de época que o Van Fleet se vista, cante e componha de forma tão deslocada de sua época. Se Nina Simone dizia que o artista deve sempre retratar seu tempo, os rapazes de Michigan parecem ir em caminho oposto e retratar o tempo de 50 anos atrás. O problema é que, bem distante de Woodstock e do movimento hippie, o quarteto mais parece um grupo de rapazes anacrônicos e apegados demais ao passado.

Todos os elementos de ‘Anthem Of The Peaceful Army’ parecem inseridos a forceps (a cítara surge de forma completamente aleatória em faixas como ‘Watching Over’) ou mal aproveitados (como as repetitivas viradas de bateria). O mesmo vale para os riffs de Jake Kiszka, que faz parecer que a banda era na verdade um quinteto e o guitarrista solo esqueceu de comparecer às gravações. Seus riffs são até interessantes por se construírem em cima de acordes básicos, mas eles raramente roubam o protagonismo.

A falta de força dos riffs – e aí entra um problema de produção, já que todos os canais parecem ter sido equalizados para que só os vocais se sobressaiam – faz com que a guitarra seja, no máximo, agradável. Não há fúria, não há potência. Greta Van Fleet é uma banda de hard rock que não aposta no instrumento primordial do gênero: a guitarra. É um som demasiadamente comportado e referencial.

Há exceções, como ‘Brave New World’, quando Jake tem mais espaço para brilhar e cria frases na guitarra que duelam com os vocais do irmão e, em alguns momentos, até assumem as rédeas da música. ‘When The Curtain Falls’ é outro bom exemplar perdido no disco, mas sofre de um mal que parece perseguir a banda em quase todas as suas composições: começa com um riff poderoso que logo é subvertido por um refrão macio demais.

O disco ainda traz baladas acústicas, como ‘You’re The One’ e ‘The New Day’, e essa segunda faz escolhas muito peculiares em sua produção, como o fato de o baixo estar em um volume mais alto que o violão, que deveria ser a base da música. Nessas faixas acústicas, a banda ainda demonstra outro problema: Josh Kiszka é, de fato, muito talentoso, mas não tem nenhuma variação de textura. Aplicando a mesma voz nas canções mais leve e mais pesada de ‘Anthem Of The Peaceful Army’, o cantor demonstra talento, mas pouca experiência para variar esse talento.

Apesar das críticas aqui feitas, Greta Van Fleet não é nem de longe uma banda ruim. É, na verdade, um grupo recheada de talento. O problema é que esse talento parece estar soterrado debaixo de composições feitas sob encomenda e presas a uma estrutura pouco criativa. ‘Anthem Of The Peaceful Army’ parece um disco planejado para colocar canções em playlists do Spotify, tamanha a despretensão apresentada nas onze faixas. Falta clímax, falta rebeldia. Em ‘Anthem Of The Peaceful Army’, Greta Van Fleet se mostra uma banda com muito potencial, mas ainda sem sustância. Ao longo de suas onze faixas, o álbum de estréia dos americanos parece nem cogitar quebrar o protocolo e trazer um clímax mais audacioso. É um trabalho correto e comportado – tudo que o rock não deveria ser.

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