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Hannah

Hannah

Ana Flavia Gerhardt - 26 de agosto de 2018

“Hannah” se encaixa na minha categoria favorita de filmes: aqueles que pouco entregam de explícito ao espectador, mas oferecem algumas pistas para que ele possa, num exercício de inteligência, preencher os espaços que foram propositalmente deixados vazios.

Porém, se, como espectadora, assistir a filmes assim é o supremo prazer, como crítica eu me vejo na tarefa ingrata de escrever sobre eles sem que em meu texto estejam presentes os preenchimentos que fiz. Explicitar esses preenchimentos, a meu ver, é pior que entregar spoilers de um filme, porque eles são de caráter absolutamente pessoal. Por isso, sua presença poderá provocar uma condução de leitura no leitor, privando-o, portanto, justamente do exercício de inteligência que apreciei ter realizado quando assisti a “Hannah”.

De forma que me vejo diante de uma tarefa espinhosa. Mas, como sempre gostei de coisas difíceis e complicadas, não resisto. Então vamos a “Hannah”, pois, e já me perdoe o leitor se, em algum momento, eu, sem perceber, não resistir às tentações de impor minha opinião – o maior dos vícios da contemporaneidade.

Talvez uma boa forma de conduzir este texto sem cair em tentações esteja na escolha por focalizar as pistas dadas pelo diretor Andrea Pallaoro e por Charlotte Rampling, que vive Hannah. A propósito dos dois, a menção aos trabalhos anteriores de Pallaoro não nos dá uma boa pista, já que o diretor italiano tem apenas um longa, “Medea” (2013), em seu currículo. Já Rampling tem assumido papeis de destaque em produções interessantes, em especial “45 anos” (2015), o que é um sinal de que ainda existem, para além dos Estados Unidos, oportunidades para atrizes fora dos padrões de juventude hollywodianos. Haja vista o reinado de Isabelle Huppert e Juliette Binoche no Cinema europeu.

Em “Hannah”, notamos alguns dos encaminhamentos que em “45 anos” caracterizaram o trabalho de Rampling. Naquele filme, a atriz já havia auxiliado a construir com sua atuação a trama do filme, que numa das cenas finais ela amarra espetacularmente. Em “Hannah”, Rampling contribui grandemente para definir o desenvolvimento interno das duas partes principais que compõem o filme, separadas por um fato que divide as águas e deixa, para a parte inicial, a impressão de controle emocional da situação que a personagem vive – rotinas, atividades profissionais, estudo -, e, do meio para o final, a gradual perda desse controle.

O avanço narrativo do filme se sustenta, além dos fatos, na intensificação expressiva da atriz, que produz expectativas importantes sobre o que vai acontecer nas próximas cenas, bem como nos movimentos seguintes de uma mesma cena. Essa intensificação, no conjunto da obra, é suficiente para que Pallaoro não enquadre a atriz em close em uma ou outra cena importante – não é necessário perscrutar o rosto de Rampling para que saibamos o que a personagem está sentindo; mostrá-la, por exemplo, pequena, quase sumindo no cenário frio e escuro de uma Europa invernal, já basta.

Outra pista é dada pelo título do filme. Confesso que sempre acho meio preguiçoso intitular filmes com nomes de pessoas, mas no caso de “Hannah” isso faz todo o sentido. Primeiro, porque o filme apresenta basicamente uma narrativa sustentada numa sequência de fatos que acentuam gradativamente as reações emocionais e físicas de uma personagem. Segundo, e mesclado a isso,  porque há um estudo dessa mesma personagem, recortada de uma forma que liberta sua velhice dos estereótipos sociais: mesmo já na terceira idade, Hannah trabalha, estuda, cuida de sua casa, estabelece relações de afeto, se movimenta autônoma pela cidade, e ainda reserva espaço cognitivo para a apreciação da Arte, à qual nunca deixa de estar atenta. A velhice não impede Hannah de ser uma pessoa mentalmente lúcida e sã, e essa premissa fornece a certeza de que ela tem a percepção plena da situação em que se encontra, em contraste com outros personagens que interagem com ela.

Outras pistas se encontram no roteiro a quatro mãos de Andrea Pallaroro e Orlando Tirado, que oferece um mínimo de diálogos, mas as frases são tão precisamente ditas que qualquer outra sentença na cena significaria um didatismo quase ofensivo à inteligência do espectador. Em articulação orgânica às poucas mas precisas frases, a mise en scène é explorada na construção de possibilidades interpretativas, e prestar atenção a elas é uma ação fundamental para identificarmos os problemas de figura e de fundo que o filme desenvolve e inspira. O reconhecimento dessa articulação mantém o espectador atento aos dados que o filme oferece, e logo de início ele percebe que deixar escapar um detalhe não inviabiliza sua leitura, mas pode empobrecer análises que poderiam ser mais profundas.

Essas pistas todas são suficientes para que realizemos conexões não apenas entre o filme e nossos conhecimentos de mundo, mas também entre o filme e outros que abordam o mesmo tema, e com o mesmo enquadre. A obra mais imediata a que “Hannah” se refere é “Precisamos falar sobre Kevin”, dirigido por Lynne Ramsay em 2011. Em ambos, o enfoque recai sobre mulheres que se relacionam intimamente com quem comete crimes pavorosos. Por isso, em ambos, o contexto é uma cultura machista que as culpa por atos que muitas vezes elas desconheciam completamente, em vez de assumir que elas se somam ao contingente de vítimas e tratá-las como tais.

Outra obra à qual “Hannah” se relaciona diretamente é Na praia à noite sozinha, dirigido por Hong Sang-Soo em 2017. Desta vez, a denúncia do machismo salienta a solidão causada pelos sentimentos sociais estereotipados sobre as mulheres, como a inveja, no caso do filme de Sang-Soo, e a culpabilização, no caso de “Hannah”. Entre esses três filmes há algo em comum: as mulheres acabam sendo responsabilizadas, punidas e segregadas por algo que não fizeram e não são, simplesmente para que os homens não o sejam e permaneçam isentos e inimputáveis por sua ação perversa de perpetuação das injustiças e da violência no mundo, como eu já havia salientado em artigo sobre o filme “Custódia”.

Sempre é possível que outros espectadores e críticos cheguem a conclusões diferentes das minhas, ainda mais diante de um filme que se abre amplamente ao diálogo. Podem até achar que, excessivamente generosa, lhe dei estrelas demais ou de menos. Podem achar que julguei como qualidades o que viram como defeitos, que negligenciei muitos elementos importantes, e que enfatizei o que nem precisava estar lá. Realmente, isso não é problema. É consequência da coragem de quem realiza obras que resistem à compulsão de dar explicações e controlar o julgamento alheio. Nestes tempos em que a intolerância a opiniões diferentes assume perigosamente o protagonismo no diálogo social em todo o mundo, convidar espectadores a ações inteligentes chega a ser até subversivo. Aproveitemos então a polissemia que “Hannah” reconhece como inerente a toda obra artística e assume como parte de sua estrutura. Quanto mais leituras, melhor.

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