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Jerry Maguire: A Grande Virada

Jerry Maguire: A Grande Virada

Matheus Fiore - 26 de janeiro de 2018

Apesar de retratar um agente esportivo em busca do sucesso dos atletas que agencia, “Jerry Maguire: A Grande Virada” pouco fala sobre o esporte. A câmera de Cameron Crowe mal entra no campo de futebol, inclusive. Opta por mostrar as partidas pela televisão, ou mantendo certa distância, mostrando como a narrativa terá sempre um distanciamento do esporte. É, na realidade, uma obra mais interessada em mostrar a inevitável virada que ocorrerá na vida de seu protagonista. Jerry é um sujeito arrogante, prepotente, que acredita ser o centro do mundo.

O diretor escolhe começar seu filme de forma a nos dizer exatamente isso, por meio de uma imagem do planeta (com o nome de seu protagonista sobreposto ao globo, claro), que, após algumas palavras de Maguire, corta para a América, até ouvirmos um “ah, muito melhor” e, então, mostra um jovem jogando basquete em uma quadra de rua. A câmera que filma o jovem atleta, claro, está acima dele. Enquanto narra a introdução de seu filme, Jerry olha os esportistas de cima para baixo – olhar que precisará aprender a subverter durante os próximos 140 minutos de projeção. Apesar de o filme ter sua narrativa guiada por Maguire, tanto no ritmo quanto no tom, o longa ainda permite que identifiquemos aqui e ali sinais de sua ilusão de poder. O personagem, por exemplo, acha impressionante que sua orelha apareça no canto da foto da capa de um jornal, dando mais ênfase a isso do que ao fato de seu atleta estar estampando tal capa.

A vida de Jerry muda quando o próprio personagem identifica um erro em sua forma de viver. Jerry se tornou um agente esportivo frio, distante, algo que se reflete em seus clientes. Quando o protagonista visita um jogador ferido que está internado no hospital, por exemplo, sua chegada à sala faz com que a câmera se mova de forma a enquadrar apenas o próprio Jerry e a televisão, mostrando como o esporte cegou o atleta, que não mais pensa em seu bem estar ou sua relação com sua esposa e filho, apenas no sucesso que Jerry e o esporte (representado pela TV) a ele podem proporcionar. Quando se torna ciente disso, Jerry sugere à sua empresa uma forma mais humanizada de tratar seus atletas, o que resulta em sua demissão.

Após muito esforço, Maguire consegue salvar apenas um cliente: o problemático jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.). Além de Tidwell, Jerry se apaixona por Dorothy Boyd (Renée Zellweger), funcionária da empresa que o apoiou quando fora demitido. Acostumado a estar cercado de colegas, clientes e mulheres, o protagonista inicia uma jornada para recomeçar sua vida com apenas esses dois.

Mantendo uma certa ironia, Crowe traz piadas cheias de simbolismo para “A Grande Virada”. Quando Jerry decide romper com seu estilo de vida e começar um novo projeto, contemplamos uma cena do agente dirigindo pela cidade, animado, e escolhendo uma música no rádio. Ironicamente, nas primeiras duas ou três músicas que Jerry sintoniza, ele falha ao tentar cantar junto, por desconhecer a letra. Sutilezas como essa são uma inteligente maneira de mostrar ao público que o protagonista está se aventurando em terreno desconhecido.

A partir do surgimento da relação entre Jerry e Dorothy, a narrativa tem uma mudança enorme em seu tom e ritmo. As cenas definidas em poucas falas e com muitos cortes dão lugar à passagens mais trabalhadas, mais calmas. É como se, aos poucos, Maguire perdesse o controle da narrativa. O protagonista, afinal, funcionava quase como um guia externo do próprio filme, bem como Scorsese fez em 2014, com “O Lobo de Wall Street”, filme cujos acontecimentos diegéticos eram guiados a bel-prazer pela narração de Jordan Belfort, que distorcia lembranças de forma a encaixá-las em seu ponto de vista.

Como dito, a mudança também está presente no tom: “Jerry Maguire” vai de um filme mais “escolar” sobre um mundo esportivo-financeiro, num estilo que, em certo ponto, até remete ao “Wall Street: Poder e Cobiça” de Oliver Stone, até um drama mais pessoal, interessado em discutir as relações de Maguire. A escolha é contrastante com a primeira parte mais enérgica, mas é condizente e necessária para a manutenção proposta do roteiro: trabalhar a jornada do agente protagonista até a valorização de indivíduos, e não cifras.

A câmera de Crowe, que sempre buscava enquadrar seus personagens com televisões ao redor, respeitando o momento alienado de Jerry,  passa então a apostar nos rostos dos personagens. A narração se torna mais esporádica – afinal, Jerry deixa de ser o guia da obra e passa a ser também passageiro da jornada. Sai a estilização, entra a busca por humanização. Saem os planos com muitos movimentos, entram os enquadramentos estáticos que apostam mais na expressão dos atores do que em seus diálogos. “Jerry Maguire: A Grande Virada” é um grande filme por permitir que os elementos narrativos acompanhem a jornada de busca de identidade de seu protagonista.

“Jerry Maguire: A Grande Virada” faz uma viagem do mundo esportivo extremamente competitivo para um introspectivo estudo de personagem, no qual o estudado, Jerry, precisa aprender a aceitar seu papel de coadjuvante perante seus agenciados, bem como a administrar sua vida pessoal com profissional. Torna-se, sim, de certo ponto de vista, uma comédia romântica. Mas que, analisada sob o todo apresentado, se justifica. É um filme sobre a necessidade de identificar um erro em nossa trajetória e encontrar a coragem para consertar. Na cena em que Jerry vai embora do trabalho e convoca colegas a seguirem seu exemplo, é possível ver nos olhos de seus colegas de agência que a eles não falta o desejo de mudar, apenas a coragem. A Jerry, não faltou.

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