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‘Jessica Jones’ e o corpo feminino no universo Marvel

‘Jessica Jones’ e o corpo feminino no universo Marvel

Ana Flavia Gerhardt - 11 de abril de 2018

Este texto contém spoilers da segunda temporada do seriado “Jessica Jones” (leia nossa crítica aqui). Se preferir assistir antes, os episódios estão na Netflix.

No dia 14 de março de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco foi assassinada no centro do Rio de Janeiro após sair de um evento na Casa das Pretas, espaço criado e mantido para encontros e diálogos sobre a experiência de ser uma mulher negra no Brasil do século 21. Seu motorista, Anderson Gomes, também foi vítima fatal do atentado.

Jessica Jones

As balas que tinham como alvo Marielle acertaram sua cabeça. Os danos provocados obrigaram a um funeral de caixão fechado, impedindo as pessoas que a amavam e desejavam homenageá-la de estar fisicamente com ela, e de se despedirem dela antes de seu corpo se separar para sempre dos vivos e voltar ao seio do planeta.

A negação de uma despedida amorosa junto com o assassinato constituem um duplo sequestro do corpo de Marielle: da vida que alimentava esse corpo, e também do seu corpo já sem vida a seus entes amados. Quando miraram a cabeça de Marielle, os assassinos adicionaram um profundo ódio a seu crime, o ódio às causas humanitárias pelas quais ela lutava, e também ódio à própria existência de quem pensa e age como ela. Nesse sentido, o comando “Marielle: presente!”, dito pelos cariocas em multidão, não resgata o crime que roubou o corpo de Marielle, mas mantém vivas suas ideias.

Durante a ditadura civil-militar, militantes de esquerda também tiveram seus corpos sequestrados, e muitos até hoje estão desaparecidos. No caso de Marielle, mulher e negra, há um significado a mais: seu corpo sempre foi historicamente desvalorizado, explorado e invisibilizado.  Os tiros na cabeça de Marielle representam uma reação covarde à sua recusa em permanecer por toda a vida nos lugares sociais que lhe destinaram. Sua morte está intimamente ligada ao preconceito contra as pessoas que agora saem dos guetos e reivindicam igualdade de direitos e o fim da violência histórica praticada contra elas.

Jessica Jones

Não é possível voltar no tempo

Essa transformação de mundo se atrela a uma transformação cognitiva que hoje não mais aceita que fatos do noticiário e obras de ficção ignorem as novas realidades do mundo. Como se diz nas redes sociais, não há mais como “desver” o preconceito que salta da tela. Torna-se difícil assistir a certos filmes mais antigos, realizados quando o machismo e o racismo eram “naturais”, e pessoas fora do padrão da elite (mulheres, LGBTQ e qualquer não-branco) eram colocadas em posições e situações indignas.

Analogamente, precisa-se salientar as obras em que os personagens se engajam num diálogo afirmativo, problematizando racismo, machismo, homofobia, preconceitos de classe, preconceitos cognitivos. Alguns desses trabalhos ainda trazem problemas – algo esperado quando “se troca o pneu com o carro andando”, num tempo em que muitas ideias ainda não estão consolidadas. Porém, assim como é necessário apontar o que ainda se precisa aprender, é fundamental salientar o que já se aprendeu. Isso diminui a dificuldade da tarefa de construir conhecimento.

Jessica Jones

Algo que se tem feito nos estudos de gênero e raça é a inserção do corpo no diálogo sobre os fatos históricos e sociais. A filósofa Judith Butler ensina que a ideia de um raciocínio descorporificado (“desencarnado”, como uma vez disse uma querida amiga), universal, próprio das ideologias cartesianas, de desencarnado não tem nada. As ditas “verdades absolutas” não existem; elas foram inventadas por homens brancos europeus, basearam-se nos princípios liberais do individualismo e da propriedade, e por isso elas puderam se impor como verdades sobre os corpos colonizados.

Por outro lado, as teorias feministas trazem a ideia do corpo como elemento produtor de significado e construtor de mundos. Incluir o corpo como categoria de análise é abrir espaço para observar as separações e discriminações que negam agenciamento, humilham e invisibilizam o corpo e o desejo, tanto feminino quanto homossexual. O feminismo negro é uma ação de pensamento ainda mais refinada, porque trata de gênero e raça ao mesmo tempo, possibilitando compreender como a mulher negra acaba sendo o corpo mais discriminado e explorado em todos os sentidos.

Filmes e séries estão na nossa luneta crítica, a fim de não deixarmos passar manifestações preconceituosas também na ficção. Esse exercício nos ensina a reconhecer cada vez mais o preconceito e o desrespeito que antes não éramos capazes de ver, já que nascemos e crescemos mergulhados nas verdades brancas, masculinas e europeias.

Jessica Jones

“Jessica Jones” aborda as representações do corpo feminino no século 21

A segunda temporada de “Jessica Jones” é um exemplo recente da construção ficcional do corpo feminino em termos da assimilação das teorias sobre gênero no século 21. Jessica (Krysten Ritter), como sua mãe (Janet McTeer), tem um corpo especial, potencializado artificialmente com força sobre-humana, algo que sua melhor amiga e irmã adotiva Trish (Rachael Taylor) também deseja ter. Uma série estruturada em torno de uma protagonista mulher já é relevante, mas ainda insuficiente: essa mulher em algum momento pode ser objetificada em função do prazer masculino, e/ou diminuída por ideias ultrapassadas sobre a inteligência feminina.

O cientista Karl Malus (Callum Keith Rennie), que, com sua ambição e vaidade, atropelou os limites éticos da pesquisa em seres humanos, passa todo o tempo afirmando ter sido benéfica a sua ação de invadir de forma brutal os corpos de Jessica e sua mãe. A intervenção violenta de Karl sobre duas mulheres vulneráveis usando as mais descaradas das justificativas reproduz as ações brutais dos homens sobre os corpos de mulheres destituídas da posse de si mesmas, algo que ainda é feito na contemporaneidade. Incapaz de reconhecer o mal que fez, e desqualificando a fala das mulheres que violentou, Karl não parece muito diferente dos que deslegitimam mulheres que ousam falar mais alto e fazer mais do que “a moral e os bons costumes” lhes impõem. Mulheres assim nunca ficam sem resposta, e sabemos bem qual resposta é essa. A morte de Marielle provou mais uma vez essa horrorosa verdade.Jessica Jones

Porém, a série interpreta a potência feminina como a origem e causa de uma série de impotências de vida: Jessica tornou-se alcoólatra porque a imensa força física não a salvou da dor e da culpa de perder a família. Sua relação com o corpo poderoso é bastante ambígua, já que, embora afirme desejar nunca ter recebido esse poder, não hesita em usá-lo em quase todas as situações. Para sua mãe, a desgraça é maior, já que os poderes vêm com um desequilíbrio emocional e moral que a cega e a faz ferir inocentes. Em Trish, o desejo de possuir um corpo diferenciado é motivado pela inveja, e, quando finalmente ela consegue o que quer, a força e a habilidade física vêm acompanhadas de perdas pessoais relevantes.

Não posso deixar, nesse sentido, de mencionar a quarta grande personagem da temporada, a advogada Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss), que atravessa os episódios lutando justamente contra a perda da potência física, e, por conta disso, esboça ações que denotam sentimentos de melhoria ética. Isso nos faz inferir que o talento que tem foi mal empregado, que o poder e o dinheiro a corromperam, que a doença é uma espécie de castigo, e agora ela precisa ser fraca para tornar-se uma pessoa boa.Jessica Jones

As três mulheres de “Jessica Jones” com corpos poderosos pagam altos preços por eles, enquanto personagens como o Capitão América e o Pantera Negra, que também se fortaleceram artificialmente, não parecem ter qualquer problema com isso. Os dilemas do Capitão giram em torno do contraste entre o mundo contemporâneo e a realidade em que cresceu. O Pantera Negra, por sua vez, nem de longe se incomoda com a força física que recebeu.

No Universo Cinematográfico da Marvel, o Homem de Ferro se diverte com sua armadura. “Diversão” também é a palavra que define a relação entre Peter Parker e seus poderes de Aranha. Wade Wilson também parece extremamente confortável em ser Deadpool. O único superpoderoso a sofrer com os poderes é Bruce Banner/Hulk. Mas seu sofrimento vem mais por trazer dentro de si outra pessoa que o controla do que por tornar-se fisicamente forte quando é dominado por ela.Jessica Jones

A importância de haver seriados totalmente dirigidos por mulheres

Uma produção dirigida exclusivamente por mulheres, somada a obras como “The handmaid’s tale”, “Alias Grace” e “Queen Sugar”, é um ganho sem igual, que cria tendências para a forma como as mulheres aparecerão na TV e no cinema daqui para frente. Mulheres capitaneando produções de peso como as da Marvel, assistidas por milhões de pessoas, é mais um passo na caminhada pela igualdade de chances, depois de mais do que provada a inegável igualdade de talentos. Contudo, “Jessica Jones” valoriza a representação do corpo feminino na ficção de super-heróis, mas ainda a trabalha de forma insatisfatória, porque sua protagonista não sabe lidar emocionalmente com a própria força. O seriado fala de corpos que não se fortalecem sem perdas, e de corpos que precisam ser fracos para se feminilizarem, ou seja, tornarem-se amorosos.

“Jessica Jones”, embora dirigida integralmente por mulheres, contou com o trabalho de homens e mulheres roteiristas. É justo questionar em que medida a relação entre poder físico e conflito existencial pode ser atribuída a ideias machistas.  Quando os corpos femininos se desnudam em “Jessica Jones”, não há objetificação – isso resulta do trabalho das diretoras.  Mas esses corpos revelam fragilidades e dores em lugar de potência plena. Ao negar uma realidade que grita em contrário, as mulheres do seriado não são capazes de assumir em todos os sentidos o lugar da potência historicamente ocupado por homens, como se elas precisassem negar a própria potência para construírem felicidade e poderem se relacionar com as outras pessoas sem medo. A potência delas traz a ameaça da perda do que há de mais precioso – no caso da mãe de Jessica, a perda da própria vida, como muitas mulheres que ousaram ser poderosas já perderam, entre elas Marielle Franco.Jessica Jones

Entretanto, em “Pantera negra”, outra produção Marvel, a potência feminina não é problema, já que as mulheres do filme adoram ser fortes, influentes e inteligentes.  Então se vê que, ao mesmo tempo, recebemos do universo Marvel diferentes mensagens sobre o corpo feminino potente: ora isso é bom, ora é ruim. Isso significa que ainda não há ideias consolidadas entre produtores, roteiristas e diretores sobre como a Marvel irá se posicionar em relação à demanda cada vez maior do público, sobretudo o feminino e o não-branco, por formas contemporâneas e empoderadas de representatividade.

Espero que os realizadores de seriados entendam é inviável perpetuar valores preconceituosos em suas narrativas. Muitas pessoas morreram na vigência desses valores, e muitas ainda morrem na luta para desfazê-los. Os discursos afirmativos, na realidade e na ficção,  devem legitimar a potência de todos os corpos e a possibilidade de um mundo sem preconceitos. Só assim chegaremos a um futuro em que ninguém mais tenha que morrer numa guerra imposta pelos que não aceitam pessoas como Marielle se erguendo contra a discriminação que nos impede de vivermos como iguais.

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