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Lady Bird: A Hora de Voar

Lady Bird: A Hora de Voar

Gustavo Pereira - 3 de Fevereiro de 2018

A primeira fala de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) é uma pergunta à sua mãe: “você acha que eu pareço ser de Sacramento?”. Esta pergunta, uma referência direta à citação presente na abertura do filme de Greta Gerwig e dita pela escritora Joan Didion para o The New York Times em 1979, reflete o grande medo da protagonista, baseado numa espécie de mimetismo prosopopeico: sua cidade natal não é um lugar, mas um ser com vida própria, capaz de condenar seus habitantes a dividirem com ela traços de sua personalidade simplória.

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A pergunta será, eventualmente, respondida (não se preocupe: esta crítica não terá spoilers). A jornada de autodescobrimento de Lady Bird enquadra a estreia de Gerwig como diretora no gênero coming-of-age, quando o protagonista se vê em transição da adolescência para a vida adulta e começa a ver o mundo por um novo olhar. E o principal conflito de Lady Bird é precisamente com sua mãe Marion (Laurie Metcalf), a primeira e principal referência feminina de uma jovem de 17 anos. Trocar o nome de batismo por um nome próprio, desejar com todas as forças estudar longe de Sacramento, mesmo deixar as roupas largadas pelo quarto: Christine se torna Lady Bird por não querer aceitar o destino de ser igual à mãe.

Todos que já passaram por esta fase há algum tempo, ao olhar para ela em perspectiva, haverão de concordar que é um período muito mais simples da vida e que apenas parecia difícil pela falta de inteligência emocional para se lidar com problemas novos que pareciam o fim do mundo. Gerwig, naturalmente, escreve um roteiro sem verdadeiros “inimigos” para Lady Bird. Sua única sombra é Christine, a filha caçula de pais da classe média, moradora do subúrbio e fadada à Universidade Estadual.

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“Lady Bird” é um filme onde todos os personagens estão, de alguma forma, quebrados e inadequados. Larry (Tracy Letts), pai de Lady Bird, enfrenta o desemprego; o padre Leviatch (Stephen McKinley Henderson), professor de Teatro, a depressão. Danny (Lucas Hedges), Kyle (Timothée Chalamet, indicado ao Oscar de Melhor Ator por Me Chame Pelo Seu Nome) e Jenna (Odeya Rush), dos quais Lady Bird se aproxima por achar que possuem vidas perfeitas, são tão disfuncionais quanto ela ao serem vistos de perto; sua melhor amiga Julie (Beanie Feldstein) não se sente dona de brilho próprio e vive presa ao presente por não ver perspectivas para seu futuro imediato. Lady Bird, em meio a isto e incapaz de compreender que seus problemas são tão complexos quanto os de todos os outros, luta para pertencer a algum grupo e se libertar da própria realidade, mudando descaradamente suas crenças pessoais de acordo com a pessoa que esteja lhe dando alguma atenção no momento.

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É preciso ressaltar o quanto Saoirse Ronan e Laurie Metcalf se entregam aos seus papéis. “Birdy” não é uma adolescente mimada fazendo pirraça porque Ronan dá credibilidade aos dramas adolescentes, realmente importantes para a protagonista. Por sua vez, a atuação contida de Metcalf, paradoxalmente, escancara a frustração da mãe incapaz de se conectar com a filha num momento tão importante, pressionada pelas responsabilidades que carrega sozinha e ressentida por ter dado tudo o possível e isto não ser considerado o bastante por quem recebeu. O elenco orbitando em torno das duas, mesmo com menos tempo de tela, consegue deixar impressões fortes. Destaque para Tracy Letts (vencedor de um prêmio Tony, o “Oscar” do teatro) e Lucas Hedges, ambos com subtramas fortes que dão corpo ao filme.

A edição de “Lady Bird” também merece elogios pela extrema segurança ao cortar cenas “incompletas”, dando ao espectador apenas o necessário para seguir em frente. Isso torna o filme dinâmico e binge-watching, sem cenas desnecessárias ou expositivas. Algo reforçado pelo roteiro: simples, enfático e até cômico em alguns momentos, devido à clara contradição nas falas dos personagens, mostrando também como estes são complexos. Greta Gerwig fala nas entrelinhas, como quando Lady Bird e Marion vão fazer sua “atividade favorita dos domingos” e, com uma cena sem palavras e de poucos segundos de duração, levanta uma série de questionamentos profundos.

Com uma estrutura concisa e extrema coerência estética (a casa dos McPherson tem uma iluminação incandescente similar à de um forno: quente e intensa, porém insuficiente para realmente se ver com detalhes, um retrato da cabeça de uma adolescente cheia de ambições), “Lady Bird” é um filme que precisa da catarse para funcionar. Parte do público pode não ver sua beleza singela, e nada terá a ver com educação cinéfila (ou seja: ninguém será “burro” por “não entender” o filme).

Mas basta ter passado por uma das situações vividas pela protagonista para perceber o quão feliz Greta Gerwig foi ao transportá-las para a tela.

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