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Lou

Lou

Mario Martins - 10 de Janeiro de 2018

“Faça de conta que sou homem”

No início da projeção, livros de Sigmund Freud, Karl Marx e Leon Trotsky são incendiados numa enorme fogueira, cenário narrado por um discurso nazista. Estamos no dia 11 de março de 1933, Adolf Hitler naquele momento da história é nomeado chanceler da Alemanha e todas as obras literárias e acadêmicas vistas como comunistas, depravadas, apologéticas e que caminhassem de caminho contrário a ideologia governamental, estavam sendo destruídas.

Não foi necessário contar ou detalhar tudo mencionado na cena inicial, somente foi mostrado livros queimando ao som de um discurso e uma data no canto da tela pra que já estivéssemos ambientados no cenário local. Somos então apresentados a uma Louise Andreas-Salomé aos 72 anos, interpretado por Nicole Heesters. Uma mulher que apesar de se manter enclausurada por conta do “caça às bruxas”, também se mostra enferma. Mesmo sabendo que se trata de uma pessoa com personalidade forte, Lou é extremamente sensibilizada com a chegada de uma carta, levada por Ernst Pfeiffer (Matthias Lier), que rapidamente é contratado para datilografar sua biografia pessoal, já que ela faz uso de lupas até mesmo para ler.

A abordagem da biografia abre espaço para conhecermos um pouco da trajetória de Louise, sem que o mesmo torne-se algo massante, pelo fato da linha temporal ir e voltar de sua infância até o presente com uma edição competente. Vemos uma menina que perde o pai, seu maior companheiro (e provavelmente único) dentro de casa, aos 16 anos de idade. Tal perda somada a seus questionamentos relacionados a fé, vão moldando uma personalidade extremamente forte, onde a igreja e a submissão feminina reinam em São Petersburgo e no mundo.

A diretora Cordula Kablitz-Post faz uso de plano-sequência –câmera acompanhando movimento dos personagens- em todas as cenas de diálogo não desejável, isto é, Lou (aqui já com 21 anos) não demonstrando nenhum tipo de interesse em ouvir cantadas ou pedidos de casamento, portanto, a câmera faz questão de acompanhar tanto de trás quanto da frente, para que sintamos o desespero e o desprezo dos personagens. O que promove um tremendo contraste com filmes como por exemplo Antes do Amanhecer (1995), onde o plano- sequência é sinônimo de desejo por aproximação, de um casal que passa o dia conversando e caminhando lado a lado pelas ruas de Viena, desejando que o dia não acabe. Essa diferença entre os longas explicita a importância da posição de filmagem e a maneira como os personagens são distribuídos de acordo com a cena.

O filme atinge seu auge quando une o trio formado por Lou (desta vez com a atriz Katharina Lorenz), Friedrich Nietzsche (Alexander Scherr) e Paul Rée ( Phillip HauB). O carisma e a química entre o elenco promove humor, angústia e clareza na hora de ilustrar a personalidade de cada um, diante das relações sociais, humanas, amorosas e intelectuais. O espírito livre de Louise abala o psicológico de todos, seja das mulheres por se comportar de maneira extremamente confrontante em relação a época, quanto dos homens, que se mostram encantados e ao mesmo tempo assustados pela refusão dela sobre o matrimônio o desejo sexual. A propósito, excelentes atuações.

A trilha musical de Judit Varga é uma aula sobre música e sentimento dos personagens. Segue-se um padrão onde os temas, tocados no piano, são acompanhados por instrumentos de corda, aqui no caso, violinos e violoncelos. À medida que as cordas acompanham a sensação pessoal de algum personagem, o piano molda a emoção pessoal do espectador. Em cenas de diversão entre amigos, notas suaves e espontâneas. Em cenas de atração e desejo, as cordas marcam o apoio e impulso do compasso binário, explicitando um desejo de se chegar em algum lugar melodicamente.

O filme se destaca por não ser uma biografia daquela que deveria ser constantemente comentada, seja em meio popular ou acadêmico –e que choca por muitos nem saberem de quem se trata- , mas também como um retrato da época, que afligiu até o mesmo os intelectuais que se colocavam contra todos os padrões estabelecidos, provando a fraqueza presente na natureza humana. Ao mesmo tempo, trabalha a humanização e os conflitos pessoais de uma sociedade egoísta e ignorante, podendo ser dois extremos ou fatores semelhantes.

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