Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

“Melodrama”, de Lorde

“Melodrama”, de Lorde

Nathan Amaral - 28 de janeiro de 2018

Ella Marija Lani Yelich-O’Connor, em 2013, escolheu, sem qualquer coroação, ‘Lorde’. O nome, sua nova e definitiva alcunha, não esconde nem um pouco a então ambição da jovem neozelandesa: ser a rainha da música pop.

“Royals”, o hit absoluto de seu debut, “Pure Heroin”, deu uma dica do que viria a ser o modus operandi: melancolia. Lorde estava não somente surfando na onda do revival gótico que lavou toda a cultura, mas reajustando toda a maré para a nova consciência coletiva que nascia das pistas de dança por todo o mundo.

O mundo, como cantado pela voz inconfundível da neozelandesa, não mais pertencia ao hedonismo consumista, ostensivo e burro proclamado pelos panteão do pop: ele era cinza, auto-consciente, medicado pela ansiedade e por uma sobriedade sonhadora.

As primeiras linhas do refrão de “Royals” abrem alas à essa nova estética adolescente “but every song’s like gold teeth, Grey Goose, trippin’ in the bathroom/Bloodstains, ball gowns, trashin’ the hotel room/We don’t care, we’re driving Cadillacs in our dreams/But everybody’s like Cristal, Maybach, diamonds on your timepiece/Jet planes, islands, tigers on a gold leash/We don’t care, we aren’t caught up in your love affair.”

Nas ruas. A beleza agora é uma busca pela verdade. É a voz que auto-proclamada rainha da era-tumblr dava aos seus súditos, como Halsey, em outro continente, clamava com sua nova americana e sua maconha legalizada.

Mas “Pure Heroin” era, claro, uma introdução. Uma necessidade, um grito. Toda revolução precisa ser documentada, e o documento da revolução que artistas como Lorde, Halsey e Frank Ocean promulgaram não poderia ser outro: amor.

Rei Charles, como na impecável “The Crown”, da Netflix, quase rasgou monarquia por ele. Incontáveis são aqueles que ocupam e eternizam a imaginação da humanidade que o fizeram por amor. Pelo sexo, pela terra, pelo sangue, pelos amigos, pelo poder. Não há objeto que junte a embriaguez paradoxal de revoluções e monarquias como ele, e quem não o sentiu, mente.

É o amor que transforma nossos poros oleosos e cansados em deuses e demônios impecáveis com uma mágica tão absurda quanto aquela que dá vida às personagens absurdas dos livros sagrados. E Lorde, com seu “Melodrama”, tenta compor um destes livros sagrado próprios para sua audiência.

A história de Melodrama, dividida em onze faixas, começa com ódio (porquê o que é o ódio, se não o amor?). “Green Light” é tanto um resmungo quanto uma reflexão sobre um antigo personagem de sua vida, nunca claro ao decorrer de todo disco, que rasga o amor – e a confiança da autora ao ponto de ser alvo de maldições.

A carga do título, o melodrama, anuncia-se pela trovoada de acordes no piano que, interligados com a voz ofegante de Lorde, servem o tema com perfeição. Camadas, camadas e mais camadas se sobrepõem do que Lorde canta às últimas ondas sonoras da percussão eletrônica, este é um disco que, como sua capa, foi feito em pinceladas ou, como a própria cantora coloca: um disco pós-“Blonde.

Esta influencia é evidente quando preenche as charadas criativas que Lorde e seu produtor, Jack Antoff, colocam, como a distorção de sua voz no início de “Sober”, um capítulo essencialmente sobre a dúvida, ansiedade e aceitação de um amor plenamente carnal e as suas possíveis consequências.

“Sober” funciona como contraponto à explosiva e sexy “Homemade Dynamite”, a sucessora mais otimista e dançante de “Royals” e onde as doses do niilismo poético de Lorde recorrem pelo album, tecendo linhas entre os estágios da sedução no maior dos palcos de sua música: a pista de dança.

Os últimos sons de “Homemade Dynamite” dão espaço à guitarra simpática, flertando com o indie, de “The Louvre”, um espaço sincero e Taylor Swift-ístico onde nossa autora parece se embriagar e flertar pelos primeiros momentos da paixão: burra, obsessiva, amnésica. “The Louvre” é a primeira de uma série brilhante de músicas que demonstram a proeza escrita de Lorde, como o raio X ao amor adolescente “Our days and nights are perfumed with obsession/Half of my wardrobe is on your bedroom floor/Use our eyes, throw our hands overboard”

O corte do otimismo de “The Louvre” com o piano solene de “Liability”, a música essencial do disco. Instrumentalidade, voz e poética: todas as raízes do álbum parecem morrer, acizentadas, para a cruel realidade de uma mente que leva seus pensamentos aos lugares que Lorde propõe. Sua escrita parece sair dos cânones do próprio romantismo eternizado por Goethe. A essência nua e crua de “Says he made the big mistake of dancing in my storm” cai como um manto sob os corações partidos as almas destroçadas, o melodrama de seus súditos em sua excelência.

A faixa mais longa do disco está com a dupla “Hard Feelings/Loveless”, meia reflexão e meia ressaca sobre as consequências do amor e da irresponsabilidade emocional, um dos elementos mais em voga sobre as construções e desconstruções do amor romântico – sob todo o espectro de gênero – da contemporaneidade.

“Sober II (Melodrama)” mantém o ritmo mais lento do disco – mesmo com sua abertura apoteótica com um órgão digno de “O Fantasma da Ópera”– em uma deliciosa desconstrução do romantismo cego e a destruição que ele causa e, em contraponto, o papel do tempo para saturar suas feridas. É onde podemos ouvir uma das melhores marcas do controle e alcance vocais de Lorde, com seus agudos semi-sussurrados em seu refrão.

As duas duplas que encerram o disco, da avassaladora “Writer In The Dark”, recheada e ornada entre baixa auto-estima e pura intensidade adolescente com amor literário e “Supercut”, uma ode às tentativas, ao perdão, às constantes reflexões sobre o que deu errado e o que poderia não dar, alcançando níveis diferentes de culpabilidade e arrependimento. Todos em vão. Todos não correspondidos.

A dupla final, de “Liability (Reprise)” e “Perfect Places”, é onde Lorde se despede das duas coisas mais importantes das últimas nove faixas de Melodrama: um coração partido e uma personagem em dor ardente. Como uma mensagem final, uma moral da história, como a piscadela estalada em nossos cérebros e consciências após um longo período de contemplação do próprio reflexo ou de um horizonte cheio de estranhos – como uma cantora e uma poeta e uma romântica e rainha de um lado completo e complexo da noite.

A mensagem, a moral? Sintam. Amem. Transem. Tentem. Se machuquem. Porquê a vida não existe para ser nada além de vivida e a mágica da perfeição está dando lugar a mágica da realidade. Pegue seus cacos, seu suor, saliva, sangue e lágrimas e retorne à pista, retorne ao êxtase, retorne à viver novamente após a faca virar e virar e virar pelo seu coração destruído mas, ainda, batendo.

Pois

“What the fuck are perfect places, anyway?”

Topo ▲