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Mogli: Entre Dois Mundos

Mogli: Entre Dois Mundos

Uma versão brutal, mas pouco memorável, da clássica história de Rudyard Kipling

Wallace Andrioli - 10 de dezembro de 2018

Segundo longa-metragem dirigido por Andy Serkis, “Mogli: Entre Dois Mundos” chega no ápice das releituras em live action de clássicas animações da Disney, onda lançada, curiosamente, por “Mogli: O Menino Lobo” (2016), de Jon Favreau. No entanto, Serkis fez um filme consideravelmente distinto do de Favreau, tomando como referência principal não o desenho do final dos anos 1960, mas o livro de Rudyard Kipling (“The Jungle Book”) que o inspirou. Não há aqui, portanto, as célebres canções do urso Balu ou do macaco Louie. Há sim, por outro lado, uma dose relativa de violência, talvez suficiente para afastar “Mogli: Entre Dois Mundos” de um público mais infantil.

Serkis tem o mérito de navegar contra a corrente. Seu filme evita a nostalgia fácil, o recurso a todo um imaginário previamente construído no cinema – e não faz isso para simplesmente se diferenciar da versão de Favreau, já que os dois projetos foram desenvolvidos simultaneamente. Mas derrapa nas tentativas de construir um olhar para o mundo criado por Kipling que tenha força própria. Os melhores momentos de “Mogli: Entre Dois Mundos” são aqueles ambientados na selva, nos quais o protagonista (Rohan Chand) convive mais diretamente com os animais que lá habitam. Curiosamente, os mesmos momentos que compõem a narrativa de “Mogli: O Menino Lobo”.

Serkis é um especialista em motion capture performances e o uso que o filme faz dessa tecnologia é bastante acertado. A antropomorfização de personagens como a pantera Bagheera, o urso Balu e o tigre Shere Khan vai além do uso das vozes de Christian Bale, do próprio Serkis e de Benedict Cumberbatch, respectivamente, com a incorporação de traços dos atores aos animais. Nesse sentido, novamente, o diretor se afasta de Favreau, que, apesar de ter feito um filme narrativamente menos afeito ao realismo, dada sua relação com a animação dos anos 1960, adere a ele visualmente. Os animais de “Mogli: O Menino Lobo” se parecem muito mais com seus equivalentes reais que os de “Mogli: Entre Dois Mundos” – essa busca de Favreau pelo realismo visual, aliás, está na base das discussões sobre sua versão de “O Rei Leão” poder ou não ser classificada como live action.

Nessa primeira hora de filme, Serkis consegue criar uma noção muito concreta de perigo no interior da selva. Há de fato a impressão de que Mogli pode, a qualquer momento, ser morto por Shere Khan – ou pela serpente Kaa (Cate Blanchett), ou pela hiena Vihaan (Eddie Marsan), ou simplesmente despencar de algum precipício. Nasce daí uma brutalidade manifesta em imagens como as do gado morto cruelmente pelo tigre, do protagonista no fundo de um lago no qual o vilão bebe água para limpar o sangue de suas presas, do lobo Akela (Peter Mullan) sendo atacado por membros da alcateia que querem ocupar seu posto, do pequeno Bhoot (Louis Ashbourne Serkis) sofrendo bullying. O visual de Balu, cujo rosto é marcado por antigas cicatrizes, também é emblemático desse caminho seguido por Serkis.

No entanto, é ainda nessa primeira parte que o principal problema de “Mogli: Entre Dois Mundos” começa a se manifestar. Apresentados os personagens, sua dinâmica e dilemas, o roteiro de Callie Kloves passa a apressar demais o desenrolar da história. A partir da conclusão da sequência do teste para adesão à alcateia, o filme acompanha com certo descuido uma série quase ininterrupta de grandes acontecimentos, que levam as personalidades de Bagheera, Balu e principalmente Mogli a oscilações não muito claras. Ao final, Kloves e Serkis fazem com que o protagonista se torne uma espécie de escolhido, responsável por promover algum tipo de congraçamento entre homens e animais, algo bem pouco verossímil considerando o desenvolvimento do personagem até ali. Bem antes disso, o roteiro também mostra dificuldades de lidar com os conflitos por poder no interior da selva, em geral apresentados de forma truncada.

Fica a sensação de que alguns motes narrativos foram requentados de outras histórias e entrelaçados com desleixo por Kloves. A segunda, e mais fraca, metade de “Mogli: Entre Dois Mundos” é permeada por uma imagem dos homens que não consegue encontrar meios termos, caindo ou na idealização, no caso dos aldeões, ou na vilanização, no do caçador branco Lockwood (Matthew Rhys). Apenas dois pequenos momentos da última hora de filme merecem destaque positivo, justamente por recuperarem a violência que permeia o primeiro ato: o reencontro trágico de Mogli com um amigo na cabana de Lockwood e a conclusão do confronto final entre o protagonista e Shere Khan.

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