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Newness

Newness

Ana Flavia Gerhardt - 8 de Maio de 2018

O lançamento do filme “Closer – Perto Demais”, dirigido por Mike Nichols em 2004, impactou bastante a crítica porque traduziu à perfeição uma das crises das relações humanas no início do século 21: a exploração das necessidades afetivas de outras pessoas para experiências sexuais descartáveis.  Treze anos depois de “Closer”, aparece “Newness”, de Drake Doremus, filme de 2017 que a Netflix incluiu em seu catálogo este ano e que aborda tema bastante semelhante.

O egoísmo de alguns personagens de “Closer” chocou muita gente e obrigou à reflexão sobre as transformações de pensamento e sentimento num mundo que já havia superado o trauma da AIDS e que caminhava para uma mudança de padrões sociocognitivos em todos os campos de experiência humana, inclusive os afetivo-sexuais. “Newness” atualiza essa questão para a segunda metade do século 21, acrescentando ao debate sobre as transformações pessoais e sociais contemporâneas a onipresença das tecnologias de comunicação online à distância.

Diferente de “Closer”, em “Newness” as pessoas não são desonestas (conforme explicitado por um dos personagens) nas suas intenções, e inclusive usam ferramentas virtuais para comunicá-las com precisão: nos aplicativos de encontros, elas podem anunciar o que pretendem fazer num dado momento, ou seja, se pretendem um relacionamento fixo ou querem só “pegação”, esperando que suas intenções encontrem quem combine com elas – na linguagem dos aplicativos, esperam que “dê match”.

Em “Closer” a ideia era a de mostrar as pessoas machucando umas às outras como evidência de um tempo que passou a ser chamado, nos termos de Zygmunt Bauman, “modernidade líquida”, um tempo em que não há permanências. “Newness” assume o fato de que o déficit de atenção e a hiperatividade próprias dessa liquidez acabaram por estruturar a própria modernidade. Conscientes disso, as pessoas buscam relacionamentos rápidos e superficiais e exprimem com honestidade o seu desejo, a fim de não machucar nem a si mesmas, nem aos outros. Mas isso não garante que não o façam.

Para dar seu recado, “Newness”, coerentemente, gira em torno das temporalidades contemporâneas. Conectados ao tempo das possibilidades de relação estabelecidas pelos aplicativos, Martin e Gabi (Nicholas Hoult e Laia Costa, ambos excelentes, entregues, espontâneos e muito bem concatenados em cena), acionam um aplicativo de encontros e “dão match” em suas intenções de sexo casual, o que é favorecido pelo fato de ambos serem jovens e atraentes sexualmente.

O interesse mútuo acaba indo além do sexo, e eles iniciam um relacionamento que em pouco tempo (tudo no filme acontece muito rápido, como é característico desta década) evolui para a vida em comum. Mas as formas de existir às quais estão acostumados acabam se impondo sobre sua vontade de ficarem juntos. É como se a vida que compreendem não comportasse afetividades duradouras, que exigem uma resistência e uma resiliência que a pouca idade, a imaturidade e o auto-centramento não lhes permitem experimentar.

Martin havia se divorciado depois de um casamento de apenas oito meses, cujo fracasso ele ainda não havia assimilado totalmente. Ao propor a vida em comum com Gabi, e à medida que os problemas entre eles se tornam inconvivíveis entre si, Martin vai mergulhando nos paradoxos entre a vida à qual está acostumado, de pessoas que entram e saem rapidamente e sem consequências, e a vontade de comprometer-se verdadeiramente com alguém, um sentimento que o divórcio não havia apagado. Pelo fato de não ter estabelecido conexões resistentes com Gabi, a primeira crise é suficiente para que ele se desfoque completamente dela e se dedique a revisar o próprio passado, sozinho ou com outras pessoas, mas nunca com aquela que tem como companheira naquele momento.

A vida sexual de Gabi é mais guiada pelo desejo que desperta em homens e mulheres do que propriamente pelo agenciamento do próprio desejo. Ao aceitar ir morar com Martin, Gabi ainda assim mantém essa forma de relacionar-se com a vida, muito provavelmente por não conhecer nem se dispor a conhecer outra. Entre os dois se constrói um discurso que aparentemente sustentaria a integridade do relacionamento mesmo com as escapadas que se autorizaram mutuamente, mas as acusações que não demoram a trocar os colocam em pé de igualdade em termos de imaturidade afetiva. Assim como Martin, Gabi também traz um paradoxo: o de esperar das pessoas sentimentos que não se preocupa em cultivar.

A construção cinematográfica de “Newness” também aponta para uma visão crítica, mas nunca conservadora, de suas formas de viver. O roteiro tematicamente rico e bem amarrado de Ben York Jones, em terceiro trabalho com Doremus (os outros dois são “Loucamente Apaixonados”, de 2011, e “Um Novo Fôlego”, de 2013), não desfoca dos protagonistas em nenhum momento, o que é uma ação narrativa antipodamente contrária à hiperatividade e ao déficit de atenção que descreve.

Por sua vez, a fotografia de Sean Stiegemeier, em tons majoritariamente frios e dessaturados, projetam uma Los Angeles pálida, descolorida, como se a ausência de calor afetivo e emocional das relações que o filme apresenta lhe tirasse o sangue e a luz.  Essa impressão é reforçada pelo único e breve instante em que o sol e restituído à cidade, que é justamente o momento em que dois personagens se encontram de forma verdadeiramente honesta, franca e generosa.

E, last, but not least, o próprio título do filme, “Newness” (novidade), nos convida ao reconhecimento de duas das formas de compreender a palavra. Uma delas é o caráter de novidade de uma pessoa, uma situação, um lugar etc. existindo apenas naquilo que podemos usufruir deles, para depois os descartarmos quando nos cansarmos deles (em “Closer”, sem que a outra parte saiba que isso vai acontecer, e, em “Newness”, com seu pleno consentimento).

E a outra delas é o que podemos, de nossa iniciativa, atribuir de novidade às coisas, ao aceitarmos que a vida e as experiências transformem nossas visões de mundo. Quando fazemos isso, também mudamos nossa forma de enxergar as coisas, as pessoas e as situações, e isso permite que as pessoas se renovem diante dos nossos olhos. É claro que também podemos nos decepcionar com elas, mas também podemos nos reapaixonar por elas, ao descobrirmos encantos e belezas que a falta de visão e de conhecimento não nos deixou reconhecer.

Essa novidade que somos capazes de atribuir às pessoas de tempos em tempos, e por iniciativa própria, é um dos segredos de relacionamentos duradouros baseados no amor. Nas cenas finais do filme, de alguma forma, Martin e Gabi parecem ter compreendido essa lição tão importante. A capacidade de reterem esse aprendizado é algo que existirá para além do final da projeção, mas poderá ser pensada e discutida pelos espectadores que se identificarem com a história do casal e de suas escolhas de vida.

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