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O Diário de Myriam

O Diário de Myriam

Gustavo Pereira - 9 de julho de 2018

“O Diário de Myriam” não é uma reportagem jornalística. Os relatos nele contidos não têm nenhuma pretensão de ser um registro histórico. São notas, muitas vezes taquigráficas, voltadas mais para um registro pessoal da vida de Myriam Rawick. A menina cristã de origem armênia viu sua vida na milenar cidade de Alepo mudar completamente em pouquíssimo tempo. Seguiu escrevendo entre 2011, quando tinha apenas seis anos, e 2017, quando o correspondente de guerra francês Philippe Lobjois a conheceu. E esse registro pessoal, individual, do olhar de uma criança crescendo em meio à Guerra Civil Síria, tem um papel fundamental no processo de humanização das vítimas do conflito, tratadas como números pelo noticiário.

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Os registros de Alepo após o conflito são de Yan Boechat

Myriam tem um esmero quase arqueológico para registrar sua rotina antes da revolta armada contra o presidente Bashar al-Assad explodir. Dos primeiros passeios pelas feiras, passando pelas visitas à sua avó e as idas à sorveteria com o tio, “O Diário de Myriam” consegue construir na mente do leitor uma Alepo colorida, vibrante e fresca. Há tanto um exoticismo pela diferença cultural imensa entre a autora e o leitor ocidental-cosmopolita quanto um acolhimento por uma vida que, acima de qualquer suspeita, era feliz. Como numa das muitas vezes em que Myriam destaca sua felicidade por comer “damascos de Damasco” (a capital da Síria). Ao mesmo tempo que nosso apetite é instigado por uma iguaria que nos é incomum, sentimos a familiaridade dos tempos em que éramos crianças e ficávamos felizes com um lanche de pão doce quentinho, recém-comprado por nossas mães na padaria da esquina.

A construção de uma rotina comum e agradável cria uma ruptura dramática quando essa rotina deixa de existir, motivada pelo conflito: em menos de dois meses, Myriam não pode tomar seus sorvetes, brincar na rua ou mesmo ir à escola. Jabal Sayid, bairro ao norte de Alepo onde ela vive, se tornou um bolsão de resistência contra os jihadistas, cercada e protegida por curdos armados que não deixavam ninguém entrar ou sair sem provar que eram moradores (algo parecido com o que os militares da intervenção do Rio de Janeiro fizeram nas favelas cariocas). É uma situação extrema, mas não completamente estranha à vivida por muitos brasileiros. Essas interseções estreitam os laços entre o leitor e a autora.

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O trabalho de Philippe Lobjois, que além de repórter é formado em Ciências Políticas, tem múltiplos desafios: “O Diário de Myriam” foi originalmente escrito em Árabe, língua oficial da Síria. Dessa forma, o material teve de ser primeiramente traduzido para o Francês (teve participação fundamental nesse processo o frei Georges, citado de forma recorrente por Myriam) e, só depois, Lobjois pôde analisá-lo e trabalhar diretamente com a criança, que estudou Francês na escola, para que esta explicasse e desenvolvesse os pensamentos que colocou no papel. A ele também coube preservar ao máximo o tom infantil de Myriam, mas “engrossá-lo” com um vocabulário mais adequado para audiências mais maduras. Este equilíbrio é complexo, porque ir muito além pode tirar o protagonismo da autora. Em momentos pontuais, de fato sente-se que a situação vivida por ela foi adaptada pelo francês na redação final.

A edição brasileira, traduzida por Maria Clara Carneiro, do Jornal Joca, também conta com elucidativas notas de rodapé contextualizando os relatos de Myriam, principalmente no que tange a flutuação inflacionária enfrentada por ela e seus concidadãos, obrigados a pagar entre oito e 20 vezes mais por itens básicos, como um botijão de gás. Mas há também menções sobre a culinária e costumes locais, que ajudam o leitor a imergir na realidade do livro mantendo a leitura ágil.

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“O Diário de Myriam” vem sendo comparado ao “Diário de Anne Frank”, mas esta associação é equivocada: a notoriedade de Anne só veio após sua morte em um campo de concentração separada do pai, enquanto Myriam continua viva e com sua família. Mesmo Malala Yousafzai não oferece um paralelo, pois a paquistanesa precisou fugir de seu país para salvar a vida, enquanto Myriam segue em Alepo e não deseja ir embora. A história de Myriam Rawick não deve ser comparada a de ninguém, mas sim conhecida por todos.

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