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O legado musical do Queen

O legado musical do Queen

Mario Martins - 8 de novembro de 2018

Com a história do Queen revisitada em “Bohemian Rhapsody“, volta a debate uma questão frequente quando abordamos bandas e artistas clássicos, que muitas vezes são pioneiros em algum gênero ou revolucionários em sua época: nos depararmos com o grave problema da fama limitada a algumas canções. Deep Purple? Smoke In The Water. Led Zeppelin? Stairway to Heaven. AC/DC? Back In Black. Talvez eu esteja sendo radical, mas tal fenômeno pode ser observado a qualquer momento nas redes sociais ou em uma conversa de bar. Sem generalizar, isso ocorre devido ao grande número dos chamados “artistas de uma música só” que vêm ganhando destaque na grande mídia, fazendo o público consumidor de música se contentar com o primeiro resultado no Youtube ao se pesquisar a banda, ou até mesmo em plataformas como o Spotify, que de fato separa as canções mais escutadas em uma posição de destaque.

Porém, Deep Purple, Led Zeppelin e AC/DC não são artistas de uma só música. A maneira de se consumir música mudou, assim como a estratégia de composição vem visando mais o entretenimento do que a arte em si. Feita essa contextualização, comecemos a falar do Queen, o gigante quarteto que lotava estádios e agregou muito mais do que se fala para a cultura musical e mundial. Os britânicos Brian May, Freddie Mercury, Roger Taylor e John Deacon se uniram, após o rompimento do trio “Smile”, no exato ano de 1970, tendo à sua frente a década que traria a crise do petróleo e a recessão em grande parte do mundo, incluindo o Reino Unido.

Queen Freddie Mercury Brian May Roger Taylor John Deacon

O principal reflexo que se observa, passada a década culturalmente libertária dos anos 60, é a atenção maior para o período chamado humanidade progressista, no qual se passou a ter mais voz em questões ambientais e individuais. A União Soviética em seu auge, corridas espacial e armamentista encerradas e um governo estadunidense frustrado contrastam com o surgimento da discoteca, enquanto o Rock tentava se reinventar, somando o psicodélico com instrumentação erudita, dando origem ao rock progressivo que destacou artistas como o Pink Floyd, King Crimson, Genesis, Yes e John Lennon.

Tais levantamentos são necessários para que possamos compreender o triunfo do Queen e sua fama hoje lendária. Um dos principais adjetivos que podemos usar para ilustrar a carreira da banda é o ecletismo, diretamente associado às influências pessoais de cada integrante. Mercury teve influência da música erudita e da ópera, tendo como artistas favoritos Mozart, Frédéric Chopin, Noël Coward e Dick Powell; ao mesmo tempo, tinha uma queda por artistas populares como Robert Plant, Jimi Hendrix e Aretha Franklin. Deacon sempre apontou Chris Squire, baixista do Yes, como músico-referência para ele. Já Brian May admitia adorar Hendrix, Eric Clapton e enfatizava o beatle George Harrison. Roger Taylor destacava a relevância de Keith Moon, baterista do The Who, para o rock, enquanto apontava Gene Krupa e Joe Morello no jazz.

Deste modo, sob uma visão geral de carreira, músicas dançantes aproximaram fãs do pop; o lançamento da faixa “Stone Cold Crazy”, que é considerada um dos primeiros registros de metal, chama atenção da geração rebelde britânica; baladas românticas são tocadas nas rádios, o que afastava a visão de baderneiro que qualquer banda de rock possuía; os usos de formação coral com as vozes dos integrantes permitem que o Queen dispute terreno com grupos de rock progressivo, conhecidos por sua complexidade sonora. A cada álbum, a banda agradava um público-alvo diferente. Onde havia demanda, haveria oferta. Mas como pudemos observar analisando as influências individuais de cada um, não havia um interesse em “vamos agradar a todos”: a essência da banda simplesmente emitiu todos esses gêneros e feitos ao longo da carreira de maneira verdadeira e espontânea, além de ter destacado as virtuosidades na voz de Mercury e nas cordas de May.

Queen Freddie Mercury Brian May Roger Taylor John Deacon

O timbre de guitarra de Brian May encontrava um meio termo entre a distorção pesada, presente no metal, com o overdrive “aguado” de grupos emergentes britânicos, como por exemplo o The Monkees. Deste modo, seus acordes marcavam bem os compassos e seus riffs “deslizavam” melodias pelo instrumental organizado do Queen. Apesar de ser o único guitarrista, uma das características mais marcantes de Brian era o uso de oitavador na guitarra, isto é, um pedal de efeito que duplicava o som do instrumento, tocando as mesmas notas em uma região diferente, geralmente mais aguda, dando a impressão e dimensão de um som mais cheio e até mesmo um pouco digital, técnica essa usada até hoje por guitarristas e até mesmo baixistas (vide Mike Kerr, baixista do Royal Blood que facilmente confunde o público aproximando sua sonoridade da de uma guitarra).

Freddie Mercury, por sua vez, com uma extensão vocal de 4 oitavas, conseguia migrar entre notas graves e agudas tranquilamente, tendo fôlego para sustentar as notas. A combinação das técnicas o faz manter, até hoje, o devido destaque que sempre mereceu. Peguemos por exemplo a faixa “Killer Queen”, do terceiro álbum da banda, Sheer Heart Attack: Mercury faz uso de falsetes e extensões de forma quase cênica, característica vocal que vinha crescendo no Reino Unido setentista, já que o The Who popularizou o movimento do ópera rock com a obra Tommy (1969), que consistia em manter uma narrativa consistente ao longo das faixas de um CD, contando uma história em “atos”. O Queen nunca lançou um trabalho legitimamente fruto do ópera rock, mas bebeu bastante das águas, que foram movidas por David Bowie com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972) , Frank Zappa com Joe’s Garage (1979) , Pink Floyd com o The Wall (1979), entre outros.

A originalidade do Queen, diante da “mistureba” que a banda sempre se mostrou capaz de fazer, merece ter a ressalva de que a banda foi uma das poucas “gigantes” do rock que não teve influência do blues, influenciando diretamente o hard rock e o glam rock que viriam a emergir nos anos 80. Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses, era fã confesso de Freddie Mercury, tendo participado do show de tributo ao cantor após seu falecimento e até mesmo o usado como argumento de defesa quando foi indiciado por (entre outras coisas) homofobia pela corte estadunidense, já que a letra da canção “One In A Million” teve polemica de sobra. Sem contar que podemos claramente comparar os movimentos e expressões corporais similares entre Rose e Mercury quando no palco.

Queen Freddie Mercury Brian May Roger Taylor John Deacon

O jeito de se tocar estava mudando, o de se vestir estava se reinventando, o de mesclar timbres vocais entre os integrantes ganhando força, o de promover marchas e hinos com a platéia, se propagando. O Queen fez parte de todos eles, seja com Brian inventando sua própria guitarra, a famosíssima Red Vintage, ou com Roger Taylor regendo a orquestra de palmas de “We Will Rock You”, o legado do grupo segue nos dias de hoje, escondido no DNA de bandas que sucederam as décadas do sucesso e fim da formação original da banda, até as que surgem hoje em dia.

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