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‘O Mecanismo’ e a corrupção como efeito do racismo estrutural

‘O Mecanismo’ e a corrupção como efeito do racismo estrutural

Ana Flavia Gerhardt - 15 de Abril de 2018

Após comandar a execução de presidiários durante uma rebelião no presídio de Bangu, o coronel Nascimento, Comandante do BOPE, é ameaçado de exoneração. Ele vai a uma churrascaria para falar com o secretário de segurança sobre o problema. Ao vê-lo entrar, todos os comensais, cidadãos de classe média do Rio de Janeiro, levantam-se e o aplaudem. Claramente constrangido, o coronel ainda assim se dá conta de que aqueles aplausos garantiriam sua permanência no cargo.

Essa cena faz parte de “Tropa de Elite 2”, estrelado pelo magnífico Wagner Moura e dirigido pelo cineasta José Padilha, que também capitaneou a série da Netflix  O Mecanismo . A obra está provocando polêmica pelas escolhas de realização e pelas ideias que veicula. Algumas críticas a ela foram apresentadas no Plano Aberto por Gustavo Pereira: falta de originalidade em relação a “Tropa de elite”, representações ridículas de personalidades reais, desqualificação profissional e pessoal dos policiais federais, distorção e simplificação de fatos históricos, precariedade narrativa.

Em relação ao que aponta Pereira, interessa-me a escolha da roteirista Elena Soarez, que, com o aval de Padilha, tratou de forma “ingênua” (palavras de Pereira) a estrutura corrupta da política brasileira, sem penetrar além do senso comum que constitui o pensamento de, por exemplo, um espectador do Jornal Nacional sobre a Operação Lava Jato. Mas a ingenuidade de “O Mecanismo” é muito maior do que a de ater-se ao noticiário da mídia hegemônica: outra escolha ingênua da série é a de limitar os atos de corrupção abordados ao governo do partido do personagem que representa o ex-presidente Lula. É como se, para todos os efeitos, a corrupção no Brasil tivesse começado no primeiro mandato presidencial do petista.

Nenhum segmento de personagens escapa ileso à pretensa crítica proposta pela série.

Essa escolha não surpreendeu os que acompanham a carreira de Padilha, que teve seu ápice em “Tropa de Elite”, filme que levou o Urso de Ouro em Berlim em 2007 e impactou a discussão sobre o problemático papel da polícia brasileira no combate ao crime. “Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro” expande essa discussão e termina defendendo que a corrupção praticada pela polícia tem raízes em Brasília. Assim, faz muito sentido observar que as três obras compõem uma trilogia: “O Mecanismo” é uma continuação dos dois “Tropa de Elite”, incluindo agora os agentes da Lei que cuidam dos crimes em esfera federal.

Esse entendimento se fortalece com um embrulho artístico e técnico que se repete: mesmo estilo de direção e interpretações, mesmos dispositivos narrativos, mesma narração em off, só que agora tendo um Selton Mello com dicção sofrível, sem chegar aos pés de Moura. A esfera de abordagem da corrupção no Brasil se mantém, como diz Pereira, no senso comum. E isso, somado ao fato de que, para a série, a corrupção anterior a 2002 é irrelevante, a torna um desserviço ao diálogo sobre o assunto.

Qual é de fato a contribuição pretendida por Padilha ao realizar a série? Ou melhor: será que ele pretendeu alguma coisa?

A certa altura da cena de “Tropa de Elite 2” que citei acima, o coronel Nascimento afirma em off: “pro povo, parceiro, bandido bom é bandido morto”. Essa generalização é falsa: não é todo mundo que pensa assim; só pensa assim quem não se considera, por sua classe social, um bandido. Para um determinado segmento da população brasileira, o outro segmento é formado de bandidos. Esse fato está diretamente relacionado à corrupção no Brasil, mas não parece ser intenção de Padilha abordá-lo.

A evidência de que Padilha não pretende se dar conta da dimensão histórica do assunto que escolheu discutir é o fato de não ter relacionado a cena de “Tropa de Elite 2” citada acima às premissas temáticas de “O Mecanismo”. Aliás, no filme, a cena do aplauso ao coronel Nascimento serviu apenas para livrar o personagem da exoneração, já que  a execução dos presidiários não foi desenvolvida de maneira crítica no resto da narrativa.

O que é o racismo estrutural

Em seu livro “Crítica da razão negra”, o historiador pós-colonialista camaronês Achile Mbembe explica a construção histórica do pensamento racial europeu. A base é a invenção de diferentes categorias de seres humanos: uma, a dos europeus, agraciada com racionalidade, cultura e história, por isso sendo superior e capaz de fazer a humanidade progredir; e outra, a dos não-europeus, que é naturalmente destituída dessas propriedades, por isso sendo subalterna e incapaz de qualquer protagonismo.

A condição de subalternos para os não-europeus justificou sua escravização para o trabalho forçado nas colônias, e a consciência dos seus senhores era apaziguada com a convicção de que eles pertenciam a uma categoria inferior de seres humanos, portanto não poderiam tornar-se nada além de escravos. Essa convicção justificou também o apagamento da sua presença na história da Humanidade.

No comportamento dos personagens corruptos não se nota qualquer justificativa de seus atos.

O racismo estrutural é a percepção historicamente construída de que pessoas não-europeias valem menos, portanto podem ser expropriadas e subalternizadas, e sua morte tem pouca importância. Esse racismo é o que sustenta a construção de sociedades cuja economia se baseou na exploração do trabalho escravo, caso do Brasil. Mas sabemos que esse estado de coisas só se perpetua se estiverem acoplados a ele um discurso e um pensamento que legitimem a ideia de que existem pessoas superiores e inferiores.

No Brasil do século XVI, a condição de colônia veio atrelada às capitanias hereditárias, cujos donatários eram proprietários das terras e senhores de uma massa de expropriados. Ambas as partes aprendiam, ao longo da vida, que o Brasil era propriedade de alguns privilegiados. A condição de proprietário, junto com o poder que ela trazia junto, era passada de pai para filho, e os descendentes dos clãs originais formados pelos donatários estão no poder até hoje. Não foi muito difícil a associação entre, de um lado, as ideias de proprietário e expropriado, e, de outro, as de pessoa superior e inferior/subalterna.

O racismo estrutural de que fala Mbembe justifica o repúdio, por parte de segmentos da classe média e dos ricos brasileiros, aos benefícios sociais que as pessoas de classes menos favorecidas obtiveram durante os governos do PT. Justifica também a ideia de que o afeto dos pobres pelo ex-presidente Lula provém do fato de que eles são destituídos de inteligência, e que os benefícios sociais os deixaram preguiçosos (em verdade, sempre foram considerados assim). Sendo subalternas, tais pessoas não poderiam raciocinar direito e só agiriam guiadas por oportunistas.

O racismo estrutural é a causa da corrupção no Brasil

Só se pode compreender com profundidade a corrupção desenfreada no Brasil se a conectarmos à ideia vigente de que o país é propriedade de pequenos grupos e clãs que detêm o poder e por isso se sentem superiores à grande massa de expropriados. O dinheiro dos expropriados que eles sistematicamente desviam para si não é, para eles, considerado roubo. Eles calam suas consciências acreditando que estão apenas recolhendo dos subalternos, que existem tão-somente para lhes servir, aquilo que lhes pertence, aquilo que é sua propriedade.

Esses clãs precisam manter seus esquemas corruptos com o auxílio de uma vasta rede de auxiliares que recebem seu pagamento periodicamente. De vez em quando, oportunistas de ocasião julgam-se parte dos clãs; eles até conseguem formar esquemas por si próprios, mas apenas são usados como peões pelos grandes chefes. Por fim, acabam sendo desmascarados e vão para a prisão, inclusive para se fazer de conta que há alguma investigação decente sobre a corrupção no Brasil.

Os agentes da Lei em “O mecanismo” também são vítimas do racismo estrutural, que produz um sistema enferrujado e pouco inteligente, que facilita mais do que combate os crimes. Esse é talvez o único dado verossímil na série.

O fato é que os grandes poderosos, donatários do Brasil, ainda detêm o poder político, econômico e territorial, sustentados pela convicção de que são as pessoas superiores do Brasil, portanto merecem acumular nossas riquezas às custas do trabalho escravo dos expropriados e subalternos. Estes, por sua vez, merecem morrer sempre que ousarem sair do seu lugar, porque agindo assim ameaçam a segurança, a tranquilidade, o poder e sobretudo a propriedade dos donatários.

As pessoas que querem o fim da corrupção no Brasil, mas também querem a diminuição dos direitos sociais e se congratulam porque pessoas negras e pobres são mortas nas favelas, não conseguem compreender que corrupção e racismo estrutural estão historicamente relacionados. O desejo de que a corrupção acabe e os pobres e negros desapareçam do Brasil (ou pelo menos voltem ao seu lugar de subalternidade) é a maior das contradições brasileiras, porque as bases da corrupção, tida como causa da miséria, são justamente os sentimentos de repulsa e desprezo pelos que pertencem às classes sociais mais vulneráveis.

“O Mecanismo” é uma série que não justifica sua existência

Se Padilha se propõe a discutir a corrupção no Brasil e compromissar-se verdadeiramente como artista que deseja problematizar a sociedade, ele precisa no mínimo esquadrinhar a base histórica dessa corrupção, que estabelece o elo essencial de sua trilogia cinematográfica-televisiva: o racismo estrutural. No Brasil, é ele que faz com que, de manhã, pessoas saiam às ruas para protestar contra a corrupção, e, na hora do almoço, aplaudam o mandante de uma execução em massa de presidiários.

Neste momento da História do mundo, uma obra de arte não pode se construir a partir de premissas equivocadas, sob pena de, no mínimo, ela cair no buraco do esquecimento, cair no lixo da memória. Não se pode supor, por exemplo, a total falta de agenciamento dos oprimidos diante da sua condição de opressão, como aparece em filmes como “12 anos de Escravidão” e “Vazante”. Também não se pode assumir que a melhoria da sociedade se dá por benesses das classes dominantes às classes desprivilegiadas, como apresentado em filmes como “Estrelas Além do Tempo” e “Histórias Cruzadas”.

 

O personagem de Selton Mello age como um fantasma, obcecado em fazer uma justiça que lhe foi negada. Sua falta de profissionalismo é outro desserviço da série à classe dos policiais federais.

Além de todos os problemas apontados pelos críticos, “O Mecanismo” perdeu a oportunidade de realizar uma obra socialmente consistente, que ponha a nu a corrupção no Brasil, descortinando as bases racistas profundas que permitem que a corrupção exista, e  seus efeitos funestos na educação miserável, na saúde vergonhosa, na Justiça inexistente e na precariedade de vida dos mais pobres.

Perdeu a oportunidade de mostrar que a corrupção não é a causa do atraso histórico brasileiro; na verdade ela é o seu efeito. A corrupção pode ser causa da morte direta e indireta de muitas pessoas, homens, mulheres e crianças, de fome e de doença, do analfabetismo e de muitas outras mazelas que não cabem no espaço deste artigo.

Mas ela é efeito do atraso histórico, que por sua vez é efeito do racismo estrutural que produziu uma nação dividida no seu nascimento, composta por dois tipos de pessoas, um deles se julgando proprietário de um país inteiro, às custas do outro. A corrupção é um veículo para que o racismo estrutural se perpetue, perpetuando assim a desigualdade, a discriminação e o atraso social.

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