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O Nó do Diabo

O Nó do Diabo

Redação - 13 de junho de 2018
Por Arthur Salles

Idealizado inicialmente como minissérie televisiva, o longa conjunto “O Nó do Diabo”, composto por cinco histórias de quatro realizadores, apropria-se do terror para ensaiar sua crítica e expor fisicamente o horror da escravidão no Brasil, no século XIX e velado na atualidade. Para tanto, recorre a elementos clássicos do gênero, os ressignificando em seu panorama próprio de denúncia social.

De ordem cronologicamente reversa, “O Nó do Diabo” é construído pela perspectiva do interminável ciclo marcado pela violência e postado pelas mesmas figuras da escravidão no País. As recorrentes representações ao longo do filme (a fazenda/engenho, os capatazes e Vieira, principal algoz da trama), pelos mesmos ícones, recriam o senso presente no cotidiano da figura do homem branco e socialmente estabelecido e dominante, por posse, capital ou função, como perpétua ameaça aos negros e demais minorias (tendo como exemplo o final da primeira sequência). A unidade entre os trechos, além de temática, do longa é eficiente ao sustentar tais passagens (de 2018 a 1818) por meio de coerentes pontes causais, estabelecendo quase que ações de uma história diretamente ligadas às outras para além de suas metáforas – e em muito beneficiada pela organização de suas histórias.

Se por um lado seu trunfo, tal unidade também delimita grande parte do material denunciativo do longa. Dos pequenos atos de resistência (“dá aqui, eu sei assinar” diz Joana, na segunda história, ao firmar seu contrato de trabalho) aos confrontos (todos a partir do terceiro conto), o crescente que ocorre diz respeito somente às aproximações com o gênero, deixando de lado sua posição crítica pela progressão de seu enlace narrativo. A utilização de artifícios já comuns ao terror pelo filme perde seu impacto a partir da terceira sequência, ao reciclar as mesmas ideias e algumas ferramentas previamente utilizadas por si. O horror e suspense estão presentes sempre, mas o longa adquire sua maior representação do sobrenatural a partir daí (não por coincidência o início de sua derrocada). O fio condutor que percorre passado e presente entre as histórias perde seu paralelismo histórico e de assentamento pelas práticas infligidas a seus personagens, passando a ser orientado por sua estética e não conteúdo.

A exposição genérica imposta ao decorrer de seus capítulos torna-se, além de repetitiva e inócua, aleatória, sem função narrativa e relegando sua potencialidade ao lugar-comum – tanto na exploração de gênero quanto em seu tom carregado pelo confrontamento. Apesar de intenção e conceituação, “O Nó do Diabo” pouco tem a expressar com o que põe em tela, exercitando o gênero como válvula de escape formulaica e pouco consciente de si.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival Olhar de Cinema de 2018.
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