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O Processo

O Processo

Gustavo Pereira - 17 de abril de 2018

“O Processo”, documentário de Maria Ramos sobre o impeachment de Dilma Rousseff, ilustra ditados populares em quantidade industrial. O leitor que gosta de esportes, principalmente o futebol, está familiarizado ao primeiro deles: “deixa que a natureza marca”. Quando um adversário “perna-de-pau” tem a bola dominada, o bom senso diz ser a melhor forma para neutralizá-lo exatamente permitir que ele jogue à vontade. A falta de intimidade com a “redonda” o fará, naturalmente, errar um passe, chutar pra fora, tropeçar na bola etc. Já uma marcação próxima, dando ao “pereba” o tratamento de jogador habilidoso, pode ocasionar numa falta, a qual um adversário verdadeiramente qualificado pode converter em gol. Ou, por particularidades da mente humana, não ter tempo para pensar – e fazer algo inútil – pode forçar o “botinudo” a tomar a decisão certa por puro reflexo. Mesmo que depois nunca entenda como o fez.

O processo foi pautado por uma lógica de “faxina” na política brasileira, começando pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Quando a parte contrária à retirada de Rousseff do poder argumentava sobre a importância de respeitar a decisão das urnas, principalmente com menos de 50% do mandato transcorrido, evocava-se a necessidade primordial de defenestrar um partido corrupto e despreparado. Ramos, sem deixar dúvidas sobre sua visão pessoal a respeito do impeachment, “deixa a natureza marcar” seus principais fiadores.

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Um Brasil dividido, em que a direita ataca com mais força a esquerda, que só pode se defender com dignidade, mas sabe ser impossível resistir

Logo na primeira cena, estabelece um Brasil dividido, e é das falas dos deputados ao justificarem seus votos, tanto a favor quanto contra, passando pelas reações populares na área externa do Congresso Nacional, que ela começa a desconstruir a lógica da moralidade. Se os pró-impeachment falam em “salvar o Brasil da ditadura bolivariana”, como podem dedicar seus votos a torturadores e ditadores, como fizeram Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo, com parte do povo ouvindo em êxtase?

Também é conhecida – citada recentemente pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes – a expressão “o rabo abanar o cachorro”. Ela indica uma quebra na ordem natural das coisas, com consequente inversão nas relações de causa e efeito. Para Maria Ramos, “o rabo abana o cachorro” quando políticos de moral questionável lideram um movimento cuja principal bandeira é a moralidade. Ela materializa sua crítica na figura de Eduardo Cunha, presidente da Câmara que viabilizou o impeachment e hoje está preso por recebimento de propina.

Sobre o estilo, Ramos faz um “documentário-documentário”. Não existem narrações ou entrevistas, tampouco a diretora aparece à frente das câmeras. Seu papel de observadora passiva dos acontecimentos só é minimamente suspenso com pequenas inserções textuais que dividem os “atos” do filme cronologicamente. Começa em 17 de abril de 2016, com a votação no Congresso já mencionada e termina em 31 de agosto do mesmo ano, quando o Senado sacramentou a deposição da presidenta. A própria Dilma tem um papel “coadjuvante” em tela, aparecendo majoritariamente, com apenas uma exceção, em contextos já divulgados pela imprensa à época do impeachment. “O Processo” tem três “protagonistas”: os senadores petistas Lindbergh Farias (Rio de Janeiro) e Gleisi Hoffmann (Paraná), além de José Eduardo Cardozo, então advogado-geral da União.

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A senadora Hoffmann

Nas reuniões petistas durante o transcorrer do impeachment no Senado, “O Processo” evoca outro ditado: “tem caroço nesse angu”. O clima nos bastidores, aquilo que o documentário traz de inédito sobre o caso, sempre é de resistência, mas consciente da inviabilidade de vitória. Um clima bizarro, pois como alguém entra num julgamento previamente condenado? A montagem de Karen Akerman intercala acontecimentos notórios, como a escolha do tucano Antonio Anastasia para a relatoria do processo, e os efeitos na célula petista, cada vez mais soturna nas reuniões.

Diferente de obras maniqueístas como Polícia Federal ou ingênuas como O Mecanismo, “O Processo” não cria “heróis de vermelho”, lutando contra “vilões inomináveis”. Inclusive, o documentário tem o registro histórico de lideranças do PT fazendo, pela primeira vez, uma autocrítica a seus anos no poder: a inviabilidade de governar, mesmo se “um milagre” devolvesse Dilma ao cargo; o afastamento dos coletivos sociais; a aproximação à grande mídia. O Partido dos Trabalhadores, representado nos dois Senadores que mais atuaram para tentar impedir o impeachment, assume ter sido derrubado, em parte, por conta de seus próprios erros.

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Os movimentos sociais, que defenderam o governo durante o processo de impeachment, foram sonegados pelo governo petista

Em lugar de uma falsa imparcialidade (não existem discursos imparciais, apenas pessoas cínicas o suficiente para se dizerem imparciais), “O Processo” deixa claro desde o princípio que considera o impeachment uma manobra para implementar uma agenda neoliberal no Brasil e expõe as contradições da oposição. Enquanto Cardozo baseia a defesa do governo em aspectos técnicos da denúncia, a já folclórica Janaína Paschoal fala de bailarinas perdidas, ergue a Constituição como a Bíblia e chora pelo sofrimento que causou a Dilma, para em seguida abraçar afetuosamente Aécio Neves, presidente do PSDB que pagou 45 mil reais a Janaína para coescrever, com Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, e protocolar o pedido de impeachment. Uma mera “formalidade” para o Poder Legislativo conduzir uma eleição indireta e substituir Rousseff por Michel Temer.

Como diz mais um ditado, “quem com porcos se mistura, farelos come”: enquanto políticos pouco dados à liturgia de seus cargos mandam instalar campainhas que toquem mais alto para conter seus pares, incapazes de respeitar a fala alheia, os manifestantes que os apoiam, trajando camisas da Seleção Brasileira, dançam uma micareta macabra em celebração a algo que claramente é mais do que se diz ser. “O Processo” ilustra, com o primeiro e o último quadro, a passagem do brasil da luz da democracia para as trevas de um golpe, orquestrada por maníacos e apoiada por desvairados.

É do que Shakespeare se lamenta em “Rei Lear”: “desgraçado do tempo em que os loucos guiam os cegos”.

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