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Prequelle, de Ghost

Prequelle, de Ghost

Mario Martins - 4 de junho de 2018

Vindo a ganhar a fama popular no Brasil após marcar presença no palco mundo da edição do Rock In Rio 2013, a banda sueca Ghost (que já foi obrigada a utilizar “BC” em seu nome, para que pudesse tocar em países de forte teor católico) lança “Prequelle”.

 

Há um padrão nas bandas contemporâneas de se usar uma Intro no começo dos CD’s, tópico esse que o Ghost não só adora, como sempre capricha. Temos como primeira faixa a intitulada “Ashes”, que parece fazer referência à canção tema de Freddy Krueger, antagonista da franquia de terror “Hora do Pesadelo”. As semelhanças vêm à tona com a cadência em uma voz juvenil, que parece anunciar um apocalipse premeditado, enquanto a estética se aproxima de uma parlenda (nome dado à brincadeiras infantis/folclóricas).

Rats” explicita um fato já observado por mim desde “Infestissuman” (2013): o Ghost já possui estrutura para ser referência popular em qualquer banda com sonoridade próxima de vocais limpos, sintetizadores fantasmagóricos, guitarras que usam e abusam da cavalgada com palm mute (técnica em que se abafa as cordas para proporcionar um peso extra na música e que ajuda na fragmentação do tempo), uma clara influência dos ingleses do Iron Maiden. “Como assim, Mario?”  Já é possível ouvir bandas com essas mesmas características e dizer “isso é muito Ghost”.

 

Dá gosto de ouvir as linhas instrumentais de “Faith”, que dita bem o tom geral de “Prequelle”. São feitos disparos de pausas ao longo do verso e do refrão, característica muito comum em bandas de thrash metal , por exemplo o refrão de “Master of Puppets” do Metallica. A ponte é acompanhada com samples de risada e efeitos de voz que visam distorcer e tornar mais grave a límpida voz de Tobias Forge, o único integrante clássico do grupo, isto é, que se manteve desde o início da banda. Conforme sugerido no título da canção, cuja tradução é “fé”, o encerramento é realizado com um órgão, que foi popularizado pela igreja Católica (frequentemente abordada nos conteúdos visuais e literários da banda) no século VII, com o Papa Vitaliano, que reconheceu a contribuição do instrumento nos rituais de música sacra.

Os vocais de Forge são extremamente valorizados em “See the Light”, que inclusive  pede uma força extra que chega a proporcionar momentos de drive na voz. Rosnadas que prevêem o refrão forte, que continua seguindo o padrão thrash, mas com uma quantidade menor de batidas por minuto. Há uma forte presença oitentista no solo oitavado de sintetizador, que muito lembra os riffs do Queen e Van Halen na sua época de ouro. Aliás, por falar em solo inusitado, prepare-se para ouvir “Miasma”, uma das minhas favoritas do álbum. Pela ousadia de se ter uma música instrumental comercial, por explorar tão harmonicamente seus instrumentos melódicos e ousar, inclusive, usar um saxofone, naquele que me soa o álbum mais pesado da carreira da banda.

Dance Macabre” dá uma quebra em todo o peso que se vinha ouvindo até aqui. A mudança de tom se deve às melodias de um refrão quase romântico e aos compassos simples que abrem espaço para uma pegada mais rock n roll das guitarras, sendo esse o único fator bacana dessa faixa. Na sequência, somos recompensados com “Pro Memoria” a música mais introspectiva de “Prequelle”. A constante presença do piano, a letra sobre aceitação e apreciação da morte, a introdução marcante, o tom transcendental fortalecido pelos violinos… tudo conspirava para que o álbum se encerrasse aqui, com chave de ouro. É brilhante e de se dar em sala de aula o início e o término perfeitamente encaixados e contrastados.

 

Witch Image” poderia facilmente ser usada na abertura de algum anime ou animação pelo fato de ter uma ambiência heróica –que aliás, paira por todo o álbum- e que rapidamente envolve o ouvinte, por variar constantemente em trechos instrumentalmente ousados. É engraçado dizer que tal música se encaixaria numa obra audiovisual quando, na verdade, o que realmente acontece é uma incitação ao inconsciente, que clama por um estímulo visual. Digo isso porque o mesmo acontece com “Helvetesfonster”, que, se chega aos ouvidos de Tim Burton, dá caldo. A faixa possui quase 6 minutos e pode sim ser denominada a aposta experimental de “Prequelle”. É um mix de metal, folk, fantasia, halloween, épico e cloud.

Life Eternal” não é vazia, muito menos chata, mas houve uma má gestão na organização das faixas. A grandiosidade da música que a antecede diminui propositalmente a canção que encerra o álbum, aquela que deveria ser uma das mais marcantes, até como forma de divulgação, mas isso talvez seja meu espírito de músico falando mais alto. O piano proporciona bons momentos, assim como a bateria, que dá o tom de balada. O uso de coral no final torna-se apelativo, uma vez que usa a mesma melodia e notas que são monotonamente jogadas.  É uma ótima música, mas nada muito diferente do já visto em “Witch Image”.

Eu adoraria, como de costume, fazer uma conclusão final sobre o CD como um todo, mas houve tantos sentimentos ao longo da experiência, que eu prefiro deixar a opinião final espalhada ao longo dos parágrafos, que eu espero que transmitam o quão virtuoso é “Prequelle” e como ele representa uma fase mais apoteótica, orgânica e crua do Ghost. Podendo aproximar ainda mais a banda e sua turnê em festivais da comunidade do metal -que parece não ter aceitado ou creditado devidamente os suecos-, fica a torcida para que a América do Sul seja lembrada novamente e sirva de inspiração para artistas atuais, que tanto tem medo de ousar ou experimentar novos campos sonoros.

 

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