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‘Projeto Flórida’ e a grandeza da maternidade

‘Projeto Flórida’ e a grandeza da maternidade

Ana Flavia Gerhardt - 13 de maio de 2018

Assistir a “Projeto Flórida”, filme realizado por Sean Baker em 2017 e resenhado por Matheus Fiore aqui no Plano Aberto, é assistir ao mesmo tempo a dois filmes de gêneros distintos.

Um filme, descritivo, quase um documentário, apresenta as férias escolares de uma menina chamada Moonee (Brooklynn Prince), que mora com a mãe num motel em Orlando, na Flórida. Em acordo com a cartilha desse tipo discursivo, estão lá os espaços em que ela se movimenta, a pessoas com quem convive, as coisas que gosta de fazer, as brincadeiras inocentes, seus amigos mais queridos e a convivência com a mãe.

Para descrever a vida de uma menina, as escolhas artísticas do diretor do filme giraram em torno do que é o olhar de uma criança para o mundo: câmera à altura de seus olhos, muita cor em tudo e muitos movimentos de lá para cá, em plena exploração do lugar onde mora.

Outro filme, narrativo, apresenta a história de sua mãe, chamada Halley (Bria Vinaite), e seu mergulho progressivo no desespero da miséria na nação mais rica do mundo, que não cumpriu sua promessa de proporcionar prosperidade e paz aos europeus brancos que chegaram e se apropriaram de tudo por lá. Ao longo da projeção, acompanhamos as ações cada vez mais extremas de Halley para sustentar a filha e manter sua guarda.

É evidente que ambas se amam e adoram a companhia uma da outra. Mas é evidente também a precariedade de sua situação, que obriga Halley a praticar pequenos golpes, a mendigar e a se prostituir, tudo para impedir duas coisas: que Moonee fique sem um teto, e que ambas se separem.

Sabemos que, em algum momento, esses dois filmes irão se cruzar, e, quando isso acontece, a descrição de Moonee acaba, e a complicação de sua vida começa. A leitura mais relevante desse cruzamento é a de que ele não deveria ter acontecido, embora fosse inevitável.

Salta aos olhos a forma como Halley vive exclusivamente para Moonee, e para preservá-la da miséria que pode deixá-las sem teto e sem comida no dia seguinte. O sucesso dessa empreitada, que, típico das narrativas que se complicam, inclui decisões cada vez mais difíceis, fica evidente justamente no fato de que a vida de Moonee é essa descrição sem percalços que acompanhamos por quase todo o tempo do filme.

Diante da perspectiva de ficar sem ter nem o que comer (e muitas vezes deixando de comer para que a filha se alimente), impondo a si mesma doses pesadas de violência e degradação moral, e trabalhando duro, um dia de cada vez, para que Moonee durma mais uma noite sob algum teto, Halley se revela uma mãe extraordinária, no nível das grandes e trágicas mães da história da literatura e do Cinema.

A construção sofisticada da relação entre Halley e Moonee, estruturada no roteiro do próprio Sean Baker junto com Chris Bergoch, resulta em um filme sobre a maternidade, tanto no sentido íntimo, do afeto que une mãe e filhos, quanto no sentido do que é ser mãe, neste tempo atual e, desconfio, em todos os outros: nas dificuldades de muitas mulheres que criam seus filhos sem os pais como companheiros; na angústia de pertencerem a uma classe social que não conta com as mesmas chances de vida de quem está nos estratos sociais superiores; nas consequências de estarem à mercê de um Estado que, sob o pretexto de proteger, acaba produzindo mais sofrimento e solidão; e na impossibilidade de construírem para si uma vida pessoal, uma vivência, já que todo o seu tempo é voltado para os esforços de sobrevivência imediata.

Muitas obras de ficção tratam de mães grandiosas e desprendidas num grau que atinge o desumano. A primeira que me vem à mente é Fantine, personagem de Os Miseráveis, de Victor Hugo.  Mãe solteira na França do século 18, e por isso mesmo demitida da fábrica onde trabalhava, Fantine entrega a filha Cosette aos Thénardier, um casal de pilantras que extorquem seu dinheiro sob o pretexto de sustentar a criança, que exploram como escrava. Para manter a filha em boas condições materiais, Fantine vende o que tem – os cabelos, os dentes e a si mesma. Quando é finalmente encontrada pelo benfeitor Jean Valjean, a pobre moça já agoniza em tuberculose, e seu último apelo em vida é o de que a filha esteja bem.

Halley poderia desaparecer entre as inúmeras personagens maternas da ficção, a grande maioria sempre abnegada e disposta a sacrifícios. O que impede isso de acontecer é o elemento que confere a genialidade, a ousadia e a coragem que torna Projeto Flórida o melhor filme a que assisti até agora este ano. Sean Baker esmerou-se em construir uma personagem absolutamente fora dos padrões tradicionais de mãe, e não fez, em nenhum momento, qualquer concessão ao espectador para que ele se sinta menos desconfortável com o que está vendo na tela.

A grande competência de Halley é a de sustentar e preservar o amor poderoso que ela e a filha nutrem uma pela outra, que se mantém sólido mesmo circundado por uma realidade se esfacelando a seu redor. Esse amor dá a Halley a consciência de que a segurança e felicidade de Moonee, materializadas numa vida em que só existe a descrição, estariam garantidas sob sua guarda, e que a aparente proteção institucional que pode afastar a menina de si só traria traumas e sofrimento.

Halley é tão apta como mãe que Moonee vive uma infância cheia de poesia, alegria e cor, sem fazer ideia de cada infortúnio que se anuncia toda vez que alguém bate à porta do quarto de motel em que mora com a mãe. Halley não pensa no futuro para além da semana seguinte, porque essa preocupação também não ocupa a mente da Moonee, e também, em vista do presente trágico em que está mergulhada, pensar no futuro é pesado demais.

Aparentemente, porém, Halley é uma moça imatura, irresponsável, inconsequente e incapaz de reconhecer erros e aprender qualquer coisa.  Não consegue ser grata aos que a ajudam nem sustentar relações pessoais e profissionais. Todas as suas ações se encaminham para que não sintamos por ela qualquer simpatia. Aliás, muitos devem desejar que a fofa e alegre Moonee seja retirada de sua guarda e dada em adoção para uma família que possa lhe impor limites de comportamento, e oferecer uma alimentação que não se restrinja à junkie food, um lar que seja maior do que um quarto com banheiro, e algo para fazer nas férias além de perambular por aí sem ter o que fazer.

Halley é uma personagem quase repugnante, em aparência e em ações, e quanto a isso muitos pontos devem ser computados para a atriz lituana Bria Vinaite, que auxilia grandemente na construção dessa repugnância. Dentro de nossos padrões tradicionais e conservadores de maternidade, Halley nunca deveria ser mãe. Aliás, não deveria sequer existir.

Para que possamos aceitar e reconhecer a grandeza de Halley, e junto com isso compreender a genialidade de Sean Baker, precisamos observar as ações da personagem fora dos nossos padrões e preceitos tradicionais de maternidade, a maioria deles conservadores, machistas e ultrapassados. Essa ação é praticamente exigida para que possamos construir sobre “Projeto Flórida” uma apreciação minimamente próxima das suas imensas qualidades temáticas e artísticas.

“Projeto Flórida” é um filme extremamente desafiador do nosso conforto cognitivo e da nossa imposição egoísta de que as pessoas caibam nas nossas normas mesquinhas de comportamento social para que legitimemos sua honra, caráter e dignidade. Ao fazer isso, o filme denuncia como somos rasteiros em nossos valores morais, que de morais não têm nada; são apenas estéticos, epidérmicos; apenas revelam nossa própria limitação ética. Baker a todo o tempo requer que nos tornemos pessoas melhores para compreender a envergadura temática do seu filme e a coerência das ações de Halley. Mas o que ele se dispõe a enfrentar é desafiador, porque quase ninguém é capaz disso.

Para minimizar o peso do desafio, Baker instrui aqueles poucos que escolhem realizar o exercício de ruptura dos padrões burros, envelhecidos e impróprios a um mundo social imerso numa desestabilização crescente. Essa instrução vem na figura de Bobby, o maravilhoso personagem de Willem Dafoe. Bobby visivelmente flexibiliza suas expectativas de comportamento materno para receber e cultivar em seu coração o afeto por Halley e Moonee. Ele mesmo, também machucado pela vida e por sentimentos que fracassaram, ainda assim mostra ser possível desfocar do próprio umbigo e ser capaz de enxergar com generosidade e responsabilidade a condição muito mais miserável das pessoas à sua volta.

Ao preservar a grandeza da maternidade mesmo em condições em que ela se camufla por trás das condições de vida impostas pela desigualdade social, Sean Baker nos apresenta uma das doenças morais que degradam nosso mundo: a de impor a milhões de pessoas, através da pobreza, do preconceito, da guerra e de outras injustiças, uma vida humilhante que as impede de criar seus filhos para além da sobrevivência; e, como se isso não bastasse, julgá-las e condená-las ao abandono porque, impelidas pelo desespero, elas não agem de acordo com normas que quase nunca podem ser cumpridas.

Mas também nos apresenta a cura, que inclui nossa própria transformação pessoal, porque isso é a única coisa que nos permitirá enxergar as pessoas verdadeiramente, sem nenhum julgamento e nenhuma condenação. Essa transformação tão necessária nos dará em troca uma capacidade cada vez maior de reconhecermos nas pessoas grandezas que muitas vezes não somos capazes de cultivar em nós mesmos. Nada é mais fundamental para que um dia nos tornemos pessoas menos pequenas.

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