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Próxima Parada: Apocalipse

Próxima Parada: Apocalipse

Mario Martins - 17 de julho de 2018

Se há algo em comum na maioria dos filmes sobre fim do mundo, é a certeza de o que está acontecendo. A maior parte deles nos mostra o cotidiano do protagonista, para que crie empatia e vá se moldando o clímax psicológico por trás de toda a tragédia que há de valer o orçamento em efeitos visuais. “Próxima Parada: Apocalipse” tinha um bom potencial em seu roteiro, mas não o utiliza de forma produtiva.

Diferente dessa maioria citada, não se tem ideia do que ocasionou o cancelamento dos vôos ou o corte geral na comunicação, seja via telefone, televisão, GPS ou rádio. O início da projeção tem uma premissa  interessante, à medida que explora e apresenta a natureza de seus personagens. A tensão é criada por meio de uma video-chamada interrompida, em uma cena onde a montagem não mede esforço algum para nos ajudar a entender como a trama chegou onde está.

Se o início do filme te convence a dar uma chance, precisamos dar os créditos a Forest Whitaker, que tem uma presença e intensidade irrefutáveis em sua atuação. A escolha do roteiro de trazer poucas palavras em um diálogo tenso, somado a uma postura prepotente do ator, cria um perfil de cara chato que torna a viagem desconfortável. Daí em diante, o filme só nos oferece um enredo onde tudo flui perfeitamente para uma conclusão patética.

Tudo torna-se previsível, clichê, chato. O clima de desconfiança que cresce dentre os personagens é uma boa ideia, mas é usado de forma idêntica em diferentes situações, nos dando a impressão de assistir a uma mesma cena pelo menos três vezes. O absurdo é tão grande que o protagonista, em questão de minutos, passa de leigo no assunto armas de fogo a um “Chuck Norris da pistola”, dirigindo, atirando (e acertando) e fazendo o que mais for necessário.

Há um desespero por expandir o elenco principal, que a princípio tem conteúdo a somar, mas logo é largado com seu arco dramático simplório. Tudo que há para agregar ao roteiro, acaba arruinando-o mais ainda, já que o script não desenvolve nada do que se propõe a acrescentar, tudo parece ser uma mera forma de encontrar soluções simples para os problemas dos personagens. Nem mesmo a trilha sonora, que parece ter sido feita com todo o profissionalismo possível, salva alguma coisa. Os temas soam familiares, usando os mesmos intervalos que sempre são ouvidos em filmes do gênero – ou seja, até a essência sonora do filme torna-se clichê.

A Netflix parece não ter interesse algum em produzir conteúdo de qualidade, já que as estatísticas de seus filmes originais mostram o desapontamento geral da crítica. O último trabalho realmente bom da empresa de streaming foi “Onde Está Segunda?” (leia nossa crítica aqui) e possivelmente alguma de suas séries originais, que também vem encontrando problemas de reciclagem narrativa – as baseadas em personagens da Marvel, por exemplo, têm sido criticadas por repetir seus formatos.

Maus filmes são um ótimo exercício de construção de senso crítico. Às vezes, é necessário experimentar filmes ruins, para que possamos compreender melhor quais ferramenta fracassam na construção de uma obra. Em tempos onde o modismo mede a qualidade das obras audiovisuais, há uma tendência de se optar por aquilo que todos estão assistindo e muitas vezes recomendam sem nem ao menos ter assistido.

Mesmo aos fãs de filmes de fim do mundo e das cenas de destruição que estes costumam trazer, “Próxima Parada: Apocalipse” dificilmente agradará. Nem mesmo o prazer de ver grandes pontos turísticos se desmanchando ou pontes rasgando salva o longa de seus pecados. Grandes finais não são necessariamente feitos pelo uso do suspense, mas sim por uma construção cuidadosa ao redor desse mistério. Preocupado demais com seu final, “Próxima Parada: Apocalipse” esquece que, antes dele, há um começo e um meio que mereciam ser melhor trabalhados.

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