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Questão de Tempo

Questão de Tempo

Sabedoria disfarçada de diversão despretensiosa: “Questão de Tempo” ensina como sermos livres em tempos brutos

Ana Flavia Gerhardt - 4 de dezembro de 2018

O gênero que, na falta de expressão melhor, se denomina comédia romântica britânica teve sua consolidação com Quatro casamentos e um funeral (1994), roteirizado pelo neozelandês Richard Curtis. Mas outros filmes britânicos que não levam a assinatura de Curtis na direção e/ou no roteiro podem atender mais ou menos prototipicamente pelo mesmo termo, como Um peixe chamado Wanda (1988), Os Commitments (1991), Ou tudo ou nada (1997), O barato de Grace (2000), Túmulo com vista (2002), Morte no funeral (2010). Essas obras trazem como marca registrada o refinadíssimo, cativante e levemente debochado humor das terras da Rainha. Questão de Tempo se encaixa na instância central dessa categoria, e ainda leva a assinatura de Curtis, um dos expoentes do estilo inglês de fazer Cinema sofisticado e nem por isso menos popular.

Para os filmes que Curtis dirige e/ou roteiriza, eu preciso abrir um parágrafo em separado, porque são dele as obras mais conhecidas, algumas delas cultuadas como jovens clássicos: além de roteirizar Quatro casamentos e um funeral, Curtis também escreveu os roteiros de Um lugar chamado Notting Hill (1999), os dois primeiros filmes da trilogia Bridget Jones (2001 e 2004) e Simplesmente amor (2003), este também dirigido por ele, assim como Questão de Tempo. Todos são apreciados no mundo inteiro.

Então era de se esperar que o lançamento de Questão de Tempo fosse mais celebrado do que o pouco anúncio que recebeu, embora garanta com certeza 123 minutos de puro deleite na sala escura do cinema, e seu roteiro seja superior à grande maioria das outras obras, e algumas delas já são ótimas. Em termos de sofisticação temática, Questão de Tempo se iguala a Simplesmente amor por trazer à reflexão, disfarçada de humor leve e despretensioso, a complexidade das relações humanas e da vida, algo que muitos de nós adoramos testemunhar na Arte cinematográfica.

Uma sabedoria singular

O fato de que Tim, o protagonista, é capaz, como os outros membros masculinos de sua família, de viajar ao passado da própria história e depois retornar não ganha destaque em si, mas sim serve como alegoria sobre a possibilidade de, sob a ideia de voltar no tempo, aprender com erros e enganos e refazer não somente a vida, mas também nossa própria visão sobre ela e nós mesmos. E, da mesma forma como acontece na vida “real”, nem tudo pode ser re- ou desfeito, e escolhas duras às vezes precisam ser realizadas, às vezes com consequências ruins, para que a vida possa seguir seu curso na direção da felicidade.

Essa é a impressão superficial que vamos tendo acerca de Questão de Tempo, e é a que inicialmente conectamos ao privilégio de Tim e de seu pai de se transportar ao passado. É importante afirmar que essa ideia está presente também em outros filmes que tratam de temas semelhantes à viagem no tempo, como vidas passadas, loopings temporais e outros mitos do tipo. Portanto, Questão de Tempo não seria um filme especial se só tratasse disso. Também não seria especial por trazer aquele cálido torpor de prazer, aquele leve sorriso nos lábios que as comédias românticas britânicas são especialistas em provocar no espectador.

Quanto a esse pormenor, o filme satisfaz completamente as expectativas: o adequadamente ruivo Domhnall Gleesson entrega com natural perfeição a encomenda que seleciona mais uma vez o tipo que tem Hugh Grant como melhor modelo: a figura que não atende a expectativas estéticas de atração sexual mas mesmo assim tem aquele irresistível charme sonhador e desajeitado – e sotaque inglês, claro. Rachel McAdams, hoje atriz de trabalhos densos, em 2013 ainda era vista apenas em papéis fofos, encarnado a moça bonita mas fora do padrão bombshell – este lugar já está ocupado por uma Margot Robbie em início de carreira.

E, como cereja do bolo, ainda temos Bill Nighy, mostrando mais uma vez porque é quase onipresente nas comédias românticas britânicas. Encarnando o pai de Tim, ele está maravilhoso: deliciosamente espontâneo, o personagem de Nighy flui pela narrativa como uma bússola, guiando os aprendizados do filho e ao mesmo tempo lhe servindo de plataforma de lançamento para novos saberes.

Mas esses elementos todos, em conjunto extremamente cativantes, ainda não tornam Questão de Tempo um filme especial. Dois elementos do roteiro, por sinal bastante conectados entre si, contribuem para a singularidade do filme, que o diferencia tematicamente dos demais junto com Simplesmente amor. O primeiro é a evolução do caráter do protagonista Tim, que inicia o filme estabelecendo para si um teto baixo ao cultivar expectativas esquemáticas de relacionamento com a vida.

A possibilidade de amadurecimento de Tim se apresenta com a prerrogativa de viajar no tempo, algo que ele, humanamente, ora faz em proveito próprio, ora faz em benefício das pessoas de quem gosta, às vezes impulsivamente, antes de ponderar que algumas de suas ações podem prejudicá-lo. Sua própria capacidade especial é posta em questão em mais de uma ocasião, por isso ele não a vê como algo que o diferencia das outras pessoas, mas sim como mais um elemento a pesar em suas escolhas de vida.

A evolução do personagem se evidencia na atuação de Domhnall Gleesson, que no início do filme se comporta e se apresenta corporalmente como um rapaz bobo e até meio infantil, mas já trazendo a semente do caráter generoso que mais tarde se instala como a tônica de sua personalidade. Esse amadurecimento é proporcionado não apenas pelas viagens no tempo, mas também pelas pessoas que vão entrando e saindo de sua história. Elas o levam a compreender que é preciso enfrentar o processo de negociação com a vida, em que fatalmente sempre temos de ceder um pouco ao mundo em função de ganhos realmente relevantes.

Ao fim do filme, Gleeson nos oferece um personagem completamente constituído: um homem verdadeiramente adulto, com um rosto e um olhar serenos, visivelmente diferentes daquele que o personagem trazia nas cenas iniciais. Sua atuação nos fornece a certeza de que o comportamento errático e inseguro da juventude deram lugar, em definitivo, a uma pessoa consciente e empoderada de suas ações e sentimentos.

Essa evolução do personagem, apoiada na atuação de Gleeson, nos permite reconhecer o segundo motivo de Questão de tempo ser um filme especial. Este se baseia no último ensinamento do pai de Tim, que é levado adiante pelo filho e transformado em algo ainda mais sofisticado e relevante do que as outras grandes lições que recebeu. Diz respeito à melhor forma de viver o cotidiano, que em princípio nada tem a nos oferecer como experiência estética, mas pode ser transformado em um tempo de gentileza, alegria e fruição das coisas e de tudo o que elas têm a nos oferecer, e na maior parte do tempo não estamos dispostos a observar.

Como sobreviver à banalidade fascista e neoliberal

A ideia de uma vida vivida com a intensificação das experiências cotidianas para resgatá-las do trivial e da banalidade dos dias (termo que outro dia uma amiga usou para tratar de assunto análogo) é de uma contemporaneidade e de uma urgência incomparáveis neste momento em que, em todo o mundo, poderes quase absolutos estão nas mãos de pessoas truculentas, preconceituosas, ignorantes e arrogantes na mesma medida.

O presente embrutecido tem estado no radar cognitivo de muita gente inteligente: consciente do perigo de esvaziamento e do embrutecimento das relações, a jornalista Eliane Brum, por ocasião do segundo turno das eleições presidenciais, nos ofereceu um guia para enfrentarmos tempos assim sem permitir que o fascismo possa dominar nossos corações. Nele, Brum desenrola a receita de como não se contaminar pela amargura e pela falta de sentido de uma vida fora das dimensões estéticas de existência, algo que o fascismo, de braço dado com o neoliberalismo, impõe.

Esse sentimento passa pelo cultivo da ampliação de nosso alcance perceptual e sensorial do mundo para abarcar as outras pessoas e reconhecê-las como iguais a nós em sentimentos e necessidades. Na vida pública, essas ações de ampliação não são nada raras: elas estão em observar quem espera na faixa de pedestres, quem dá seta pedindo que os outros carros cedam a vez, quem está atrás de nós com menos compras para pagar, quem está em pé no ônibus, quem está com mais vontade de ir ao banheiro, quem está com fome e sede, quem não tem sequer um teto para se abrigar, quem sofre injustiça e preconceito, quem será exterminado num regime baseado no ódio e na exclusão.

Então, de certa forma, é uma ousadia que Questão de Tempo seja um filme sobre viagens no tempo que ao fim mostra que não precisamos viajar a lugar algum para mudarmos a nós mesmos e, assim, mudarmos a sociedade, porque viagens de nada adiantam se não produzirem em nós aprendizados. Essa lição transforma o filme em uma história sobre a vida como exercício de liberdade, como afirma o escritor estadunidense David Foster Wallace: a liberdade dos grilhões de uma estrutura de poder que destrói nosso desejo para que possamos produzir mais. A liberdade proporcionada pela capacidade de observar o mundo, ressignificar o dia-a-dia e permitir que nossa percepção ampliada desenhe caminhos de autoconhecimento e transformação pessoal e social que de outra forma jamais poderíamos alcançar.

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