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“Quilos mortais” e a onipresença do biopoder

“Quilos mortais” e a onipresença do biopoder

Ana Flavia Gerhardt - 13 de junho de 2018

O canal Discovery mantém em sua programação de reality shows a série “Quilos Mortais” (em inglês, “My 600lb Life”), que desde 2012 tem relatado um ano da vida de pessoas que sofrem de obesidade mórbida num patamar muito acentuado: elas iniciam o programa pesando pelo menos 270 quilos – as 600 libras do título original do programa.

Cada episódio mostra como uma dessas pessoas reage ao necessário processo de perda de peso, que inclui vários procedimentos e tratamentos além da cirurgia bariátrica, sempre realizada pelo médico Younan Nowzaradan, o Dr. Now. Como os episódios se encerram ao fim de um ano de tratamento, é frequente ficarmos sem saber se algumas delas alcançaram um peso que não represente ameaça de morte, mas muitas melhoraram bastante sua condição de vida, e na internet é possível obter informações sobre algumas delas após o período do programa.

É importante salientar que a rede Discovery não parece pactuar com padrões e ditaduras sociais de imagem corporal, nem com práticas e discursos gordofóbicos. Prova disso é o programa “Uma mulher de peso”, exibido pelo TLC, um dos canais da rede, que mostra o cotidiano de Whitney Thore, uma jovem dançarina e coreógrafa estadunidense que pesa 130 quilos. As dificuldades e situações de desrespeito veladas e explícitas por que Whitney passa em virtude de seu peso são tratadas com seriedade pelo programa, e a imposição da magreza como modelo para o corpo feminino contemporâneo é constantemente posta em questão.

No caso de “Quilos Mortais”, as pessoas decidem se tornar pacientes do Dr. Now porque o peso excessivo praticamente inviabiliza sua vida: muitas delas não conseguem mais trabalhar, manter relacionamentos sociais ou fazer projetos de vida; muitas deixam de andar, permanecendo confinadas em casa e precisando de cuidados constantes de pessoas da família para fazerem sua higiene e se alimentarem. As consequências da obesidade as transformam em pessoas com risco diário de morte, já que seus sistemas fisiológicos funcionam no limite da resistência. Portanto, precisam emagrecer imediatamente, se quiserem acordar no dia seguinte sem pensar que isso foi quase um milagre.

No entanto, o programa em momento algum questiona o modelo contemporâneo de vida ultraconsumista e sedentária, e o tipo de comida industrializada e de baixo custo que agora está presente em quase todo o mundo: carboidratos refinados e pobres em nutrientes; carnes processadas e moldadas em gordura sólida; açúcar de cana e de milho. O glutamato monossódico comparece para fazer essa gororoba ter algum sabor enquanto diminui a sensibilidade das papilas gustativas – essas coisas todas contendo elementos altamente desmineralizantes, que as tornam substâncias (não merecem ser chamadas de alimentos) que engordam e desnutrem ao mesmo tempo. Ah, sim: é uma comida que se consome com litros de refrigerante, desse que muita gente usa para desentupir a pia da cozinha.

O que a Discovery não fala é que a produção de uma comida industrializada que traz substâncias viciantes, cancerígenas e engordativas é um dos tentáculos do capitalismo. Sua problematização é feita, por exemplo, pelos estudos que discutem o conceito de biopoder, que é, basicamente, o conjunto de mecanismos mais ou menos amplos de regulação e controle da vida biológica humana, que ganhou alcance global na atualidade. Esses mecanismos estão nas mãos de alguns dos grupos que assumem as rédeas da indústria e do comércio globais: os grandes fabricantes de alimentos, os supermercados, os planos de saúde e as indústrias médica e farmacêutica. Todos eles lucram uma exorbitância na produção de doenças de fundo alimentar e, depois, em medicamentos, tratamentos e cirurgias para curá-las.

Como nos Estados Unidos a comida industrializada é muito mais barata do que os alimentos verdadeiros – legumes, verduras, frutas, carnes magras, cereais e grãos integrais -, os estadunidenses das classes sociais mais vulneráveis a consomem de forma quase exclusiva. Aqui no Brasil, um prato feito ainda é mais barato do que um lanche do Mac Donald’s ou outras marcas de junkie food, por isso não temos tido notícia de pessoas muitíssimo obesas como as retratadas pelo “Quilos Mortais”. Mas há previsões de que brevemente nos juntaremos a alguns países do hemisfério norte nas tristes estatísticas da obesidade infantil e adulta.

O que interessa ao programa é algo bem coerente com a sociedade estadunidense, que está habituada a definir causas puramente pessoais, e não também históricas e sociais, para os problemas que enfrenta. Lá, o pensamento é o de que as pessoas estão gordas demais tão-somente porque comem demais; viciam-se em comida como muitos se viciam em drogas ou jogo. Em todos os episódios, as pessoas relatam o prazer que sentem quando estão comendo, algo que é logo substituído por culpa e infelicidade.  Elas todas descrevem com as mesmas palavras o que a junkie food lhes traz: algum conforto, alguma satisfação passageira. Aliás, nos programas, nota-se facilmente que alguns de seus parentes também estão bastante obesos, o que evidencia o caráter de epidemia da doença nos Estados Unidos.

A abstinência de comida amedronta os pacientes do Dr. Now de tal forma que eles criaram ao longo da vida uma série de mecanismos para obtê-la de qualquer maneira, e, na contingência de não mais poderem buscá-la sem ajuda, manipulam outras pessoas para receberem seu gigantesco estoque diário. Em um determinado episódio, a câmera manteve em primeiro plano por mais de trinta segundos a paciente hipnotizada saboreando seu sanduíche, completamente alheia à sua família, que discutia acalorada acerca de uma situação complicada em que se encontravam. Em outro episódio, a paciente chega a oferecer favores sexuais em troca de alguma guloseima. Num terceiro, o paciente confessa que na rua come uma grande quantidade de sanduíches, refrigerantes e sorvetes, sem contar para a esposa o que faz.

Se a causa da obesidade está na vida individual das pessoas que o programa exibe, logicamente a solução está na transformação individual dessas próprias pessoas – no máximo, de seus familiares, denominados facilitadores quando são eles que fornecem a comida que está matando seus entes amados. Essa solução nasce já no início do programa, que não raro mostra a infância dos pacientes marcada por abusos, violência e abandono. Assim, o programa constrói a ideia de que as pessoas passaram a comer demais para substituir um afeto que não tiveram, ou para compensar (às vezes se punir por) alguma violência sofrida. O próprio Dr. Now, que nem é psicólogo, afirma isso aos pacientes em quase todos os episódios e não consegue aceitar quando algum deles não concorda com essa explicação.

O foco exclusivo na perspectiva individual para a causa da obesidade abstrai da questão o componente altamente viciante da junkie food (ela eleva rapidamente a taxa de acúcar no sangue, mas essa taxa também cai rapidamente, o que pode provocar crises de abstinência) e o fato de que a comida que realmente alimenta está inacessível a milhões de pessoas. Isso isenta as multinacionais de alimentos de qualquer responsabilidade na epidemia de obesidade que já é real em muitos países.

Assim, as prateleiras e gôndolas dos supermercados podem continuar a ficar abarrotadas de porcarias doces e salgadas, para que as gigantescas indústrias de alimentos e fármacos possam lucrar com o seu consumo e as doenças que, para todos os efeitos, as pessoas provocaram em si mesmas – afirmação que também é repetida ad nauseam no programa. A tática dessas corporações é um pouco semelhante ao que a indústria do tabaco fez quando as primeiras pesquisas sobre câncer começaram a assustar os fumantes, os quais, também para todos os efeitos, fumavam porque queriam: sair de fininho e fingir que ela não tinha nada a ver com isso.

Essas ações são todas possíveis, e é possível acreditar por uma vida toda que a responsabilidade de nossas doenças é apenas nossa, porque a presença do biopoder é tão estruturante na nossa vida que não conseguimos enxergá-la nem identificá-la. Acreditamos que ele não está em lugar nenhum – ou melhor, acreditamos que ele sequer existe – porque ele está em todos os lugares.

Assisti a alguns episódios da série e torci pelos corajosos pacientes que expuseram suas vidas para milhões de pessoas, no desespero por encontrar uma saída para suas vidas tão fragilizadas. Comparando-se os muitos sucessos e os poucos fracassos apresentados, é possível pensar sobre o que pode levar uma pessoa com esse tipo de obesidade a superar sua condição e conseguir chegar a um peso que não represente mais risco de morte.

Se praticamente todos os pacientes afirmam ter começado a comer demais em função de traumas e sofrimentos durante a infância, a comida parece mantê-los nessa fase da vida, em que a prática de comer está quase exclusivamente ligada à obtenção de prazer pelo paladar – diferentemente da adolescência e da fase adulta, em que outros prazeres ocupam nossa agenda, e a ideia de comer, embora ainda prazerosa, começa a se relacionar também com a necessidade de nutrição. Mas, para as pessoas do programa, a comida acaba por ser sua única conexão com a vida, porque as consola dos traumas passados que elas não têm condições emocionais de vencer.

Assim, se elas são responsabilizadas completamente pelo mal que sofrem, sua superação também deve ser creditada apenas a elas, porque elas emagreceram enfrentando uma dependência que durou décadas. Essa superação não raro se dá com o aprendizado de novas conexões com a vida, acompanhadas do entendimento profundo dos traumas de infância e da decisão de viver uma vida plenamente adulta.

Todas essas ações estão presentes na minha paciente preferida – Susan, que inicia o programa expressando imensa tristeza por uma vida sem perspectivas e termina tomando decisões importantes que a encaminham para a total autonomia como pessoa. Por sofrer a crueldade extra de não ser informada sobre a forma como as substâncias nocivas da comida a viciaram ao longo dos anos, Susan pôde contar apenas com sua coragem e força de vontade para conseguir perder peso e construir uma nova vida.

“Quilos Mortais” é um programa que deve ser visto como uma série de narrativas sobre crescimento pessoal e individual. Mas igualmente deve ser encarado como uma das formas de lidar com uma das graves doenças produzidas pela estrutura mastodôntica que o biopoder assume na atualidade. Esse poder cria uma condição destruidora em pessoas já machucadas pela vida e propensas a dependências, sem arcar com qualquer responsabilidade por isso, e depois as deixa sozinhas para lidarem com os efeitos. Os pacientes do programa provam que o ser humano ainda é maior do que a indústria que o envenena todos os dias, e por isso merecem todo o nosso respeito e admiração.

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