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Quincy

Quincy

Matheus Fiore - 22 de setembro de 2018

Os planos iniciais de “Quincy” trazem diversos quadros nas paredes da casa do lendário músico e produtor. Em vez de uma apresentação nos dizendo quem é Quincy Jones, a montagem esculpe sua trajetória aos poucos. Prêmios, homenagens, álbuns… Diversas referências exibidas cronologicamente nos apresentam o artista que conquistou tudo. Jones produziu mais de 2900 musicas e 300 álbuns, foi autor de mais de 1000 canções originais, conquistou o Grammy 27 vezes, produziu o álbum mais vendido da historia, “Thriller”, e também o single mais vendido de todos os tempos, “We Are The World”. A graça de “Quincy”, porém, não está na homenagem ao documentado, mas sim na capacidade de mostrar a fragilidade do ser humano por trás do artista.

Falar sobre Quincy Jones é ir além do homem; é analisar e prestar homenagem a uma figura mítica, que esteve presente em vários momentos transformadores da música americana e mundial. O documentário de Alan Hicks e Rashida Jones (filha de Quincy) acerta, portanto, por alternar sempre o passado e o presente, de forma que Quincy parece, de fato, uma figura capaz de transcender o tempo. Somos agraciados com imagens de diversas fases de sua vida, mostrando sua presença constante em inúmeros momentos transformadores do jazz, do pop e até do rap.

Stevie Wonder e Quincy Jones.

No presente, acompanhamos a limitada rotina de um senhor com mais de 80 anos de idade e um histórico de problemas de saúde. Quincy, apesar de debilitado, é guerreiro – um sobrevivente, como o mesmo diz –, e faz questão de ir às festas e eventos aos quais é convidado. O mais interessante, porém, é ver o passado de Quincy e constatar a importância que ele teve na trajetória da música.

Quincy se fez presente de forma ativa em eventos como a revolução do bebop no jazz e a ascensão de Michael Jackson, que redefiniu o pop e os videoclipes – algo que Rashida não abre mão de mostrar que Quincy já previa ao trazer o músico dizendo, durante as gravações, que “Thriller” redefiniria o audiovisual. Sua presença constante (afinal, são mais de 300 discos produzidos) o faz parecer uma verdadeira entidade da arte. É como se nada ocorresse sem que haja uma digital do produtor ali gravada.

Quincy e sua filha, Rashida Jones, que dirige o documentário.

Quando retrata o presente, “Quincy” traz momentos memoráveis. O encontro entre o produtor e Kendrick Lamar, que facilmente pode ser apontado como o principal artista musical do século XXI, é lindíssimo. Momentos de sutileza como esse nos permitem perceber como o legado do artista vai além de seus arranjos e composições: Quincy Jones se tornou um símbolo de resistência e persistência para qualquer artista negro.

É bonito perceber, inclusive, que mesmo ciente de seu legado e importância, Quincy ainda se emociona ao ser homenageado. Aliás, é belíssimo também ver como Quincy, em vez de portar-se como uma figura superior e prepotente, escolhe utilizar seu legado e história para promover as futuras gerações. Por exemplo, o documentário traz Jones palestrando para um grupo de rappers nos anos 90, ressaltando a importância de manter uma classe de artistas negros consciente de suas responsabilidades políticas e sociais. Aliás, nessa cena, Alan e Rashida fazem questão de manter os excertos do vídeo que trazem os olhares embasbacados dos artistas ali presentes, fortalecendo a construção do mito do protagonista. Quincy é uma referência não só artística, mas social, tanto para seu público quanto para as futuras gerações de músicos.

Quincy ao lado de Michael Jackson.

“Quincy”, porém, não almeja tratar o documentado como um deus ou algo do tipo. É elogiável, inclusive, que Alan e Rashida tenham não só a coragem de inserir as imagens de um Quincy debilitado e hospitalizado, como a inteligência de arranjar esses momentos para sempre sucederem a “mitificação”. As crises de saúde do músico são sempre na sequência de cenas nas quais ele é premiado ou homenageado, garantindo que o documentário, em vez de hagiográfico, seja uma confirmação da humanidade de Jones.

Quando explora o comportamento da figura central do documentário, “Quincy” aprofunda-se ainda mais nessa humanidade. A obra estabelece, primeiramente, sua paixão e vício pelo trabalho, e aos poucos fornece informações que expõem desdobramentos dessa postura e estilo de vida: mesmo tendo sido um músico brilhante por toda sua carreira, Jones foi um pai não tão presente e um marido infiel – algo que o próprio músico admite em certo ponto do longa.

Quincy Jones dá conselhos a Kendrick Lamar.

“Quincy” consegue, portanto, dois feitos igualmente admiráveis. O primeiro é mitificar o trabalho do mais importante produtor da música americana, algo que é muito bem estabelecido principalmente pelos depoimentos em áudio de artistas como Frank Sinatra e Ray Charles. A obra consegue enaltecer tanto os trabalhos quanto o legado de um músico e produtor que trabalhou com e para os melhores. É palpável o salto artístico que Jones proporcionou para aqueles que produziu e colaborou, como a grande Dinah Washington.

O segundo feito é manter um olhar familiar e próximo quando acompanha o Quincy em sua velhice, mostrando como Rashida tem um olhar que, mesmo que exiba admiração, nunca se priva de perceber os defeitos de um ser humano que é tão falho quanto fascinante. Quincy é, portanto, um documentário que homenageia, mitifica, humaniza e reafirma o mito em torno de Quincy Jones. E é tão bem arranjado que mais parece uma composição do próprio Quincy.

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