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“Rainier Fog”, de Alice In Chains

“Rainier Fog”, de Alice In Chains

Mario Martins - 25 de agosto de 2018

grunge teve início em Seattle no final dos anos 80. Foi do gênero que nasceu bandas como Nirvana, Soundgarden, The Melvins, Stone Temple Pilots, Pearl Jam e Alice In Chains. Inicialmente caracterizado por trazer a sujeira e a rebeldia do punk, somadas ao peso e influência do heavy metal, o grunge tomou forma justamente pela semelhança na sonoridade entre esses grupos. Sendo esse o 3º disco da nova fase do Alice In Chains, desde que o vocalista Layne Staley morreu, “Rainier Fog” não se distancia muito de seus antecessores “Black Gives Way to Blue” e “The Devil Put Dinosaurs Here”.

 

Tendo tido uma clara aproximação com o rock progressivo, a banda parece não ter aprendido a principal lição do gênero mencionado: a variedade. Observemos, por exemplo, a primeira faixa, “The One You Know”: uma música que se desgasta em suas próprias melodias e compassos repetitivos por cinco minutos.

Possivelmente a única música realmente boa (não por acaso a que dá nome ao disco),”Rainier Fog” é marcante e traz os acordes semitonados de guitarra, uma característica clássica da banda. O segredo dela está em sua introdução, que nos permite ter espaço para instigar e imaginar que rumo ela pode vir a tomar. Já em “Red Giant”, sabemos claramente tudo o que irá acontecer, a previsibilidade se dá pela simplicidade e repetição.

 

Na música, o uso de repetição em uma composição pode ser usado como ferramenta de ambiência, temos como exemplo a canção “Planet Caravan” do Black Sabbath, que até hoje é dita como “xamânica” por manter e revezar os acordes de mi menor e ré maior ao longo de toda sua execução. “Red Giant” investe em um tipo de repetição mais batido: o padrão de retornar ao verso cada vez que não se sabe pra onde ir, quase que batendo o ponto. O refrão torna-se, então, um fardo, fazendo com que a música fique quase insuportável.

Para limpar os ouvidos, a faixa “Fly” foi estrategicamente colocada na sequência, sendo esta a balada de “Rainier Fog”. Observamos o violão recheado de flanger (pedal de efeito), assim como na clássica “Down In A Hole”, do álbum “Dirt” (1992). O solo escolhe ser mais sutil, fazendo um uso simples da escala pentatônica e aproveitando também um pedal de efeito wah. É até agradável, mas não oferece a empolgação que o álbum precisava nessa primeira metade, já que se trata da 4º de 10 músicas.

Em “Drone”, a versatilidade tonal da guitarra e do baixo acabam contrastando com a monotonia das vozes, tanto de Jerry Cantrell como a de William DuVal. Sendo a faixa claramente salva pelo seu instrumental, é possível ouvir as influências de grupos como Metallica, onde se pontua bem um tema e a partir dele se desenvolvem variedades, podendo muitas vezes ser ruídos sobrepostos.

Logo quando eu ia mencionar que o Alice In Chains vinha, até aqui, soando à la Gojira, observo que a arte de “Rainier Fog” se parece e muito com a capa de “Magma”, trabalho de 2016 da banda francesa de metal. Mas não veja tal comentário como perseguição, apenas uma contextualização da falta de originalidade que o álbum carrega, tanto que “Deaf Ears Blind Eyes” soa um tanto quanto familiar, mas o que, no caso, não é necessariamente negativo. Há uma clara intenção de tentar atrasar os tempos afim de gerar peso, mas não é tão eficaz, tornando a faixa ainda mais cansativa.

Se você adorava os vocais duplicados da banda Kansas, vai conseguir perceber o quanto a técnica foi saturada aqui. Na canção “Maybe”, Cantrell e DuVal fazendo a oitava um do outro, isto é, cantam a mesma nota, mas em regiões diferentes (grave e agudo). Tem tudo para dar certo, é um uso de harmonia extremamente comum, mas tudo soa cafona.

Mais parecendo um enlatado que mistura a estética da banda, suas influências e uma série de semelhanças que tanto o distanciam da autenticidade, o álbum Rainier Fog é esquecível, enfadonho e, infelizmente, símbolo de uma má fase da banda. Não há uma estrutura, tudo é um compilado de composições que se propõem a parecer diferentes, quando na verdade tudo soa igual.

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