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Ray of Light, de Madonna

Ray of Light, de Madonna

Mario Martins - 22 de Fevereiro de 2018

Os anos 90, assim como os 80, foram marcados por descobertas tanto na produção quanto na composição das canções, principalmente se tratando de gêneros em comum. À medida que vimos nascer o movimento grunge e sua estética tão identificável, o pop descobriu alguns vícios, tais como os beats eletrônicos, herança direta da música disco, o uso confortável de eco e reverberação nas linhas de voz e o investimento de instrumentos mais incomuns ao fundo, visando criar atmosferas que não necessariamente beirem o psicodélico, mas que gerem uma ambiência paralela da que se está ouvindo.

“Ray of light”, lançado no dia 22/02/1998, carrega de forma visível a influência da sua década de lançamento e o momento social em que se vivia. Madonna, sendo uma “artista camaleão” que sempre foi, obviamente iria se ajustar e adaptar. Já na primeira faxa, “Drowned World/Substitute for Love”, é possível observar isso. A música se inicia com ruídos que parecem um objeto metálico arrastado em cordas, ao mesmo tempo em que uma marimba flui ao fundo. A guitarra, que virá a ser frequente em todo o álbum vai dando as caras, tocando até dedilhados decisivos na mudança de tom da canção. Inclusive, o final mostra a leve pegada psicodélica mencionada anteriormente.

A segunda faixa “Swim” (que curiosamente segue até aqui um padrão de título relacionado com água no nome) usa e abusa da guitarra, que não carrega efeito quase nenhum, proporcionando uma sonoridade limpa e orgânica se tratando das cordas, mas artificial quando abordadas a batida gerada eletronicamente. Tendo sido uma das primeiras que conheci deste álbum, ela se torna memorável justamente pela extensa melodia vocal de Madonna, que  atravessa a percussão sem pressa nenhuma.

Acredite se quiser, mas se pegarmos “Rock is dead” de Marilyn Manson, música lançada no álbum “Mechanical Animals” de mesmo ano de “Ray of Light”, veremos o mesmo uso de harmônicos com distorção encontrados na 3º faixa, que dá nome ao álbum de Madonna. Não veja minhas comparações –que estão só começando- como uma forma de diminuir ou menosprezar o crédito que esses artistas possuem, apenas como um contexto social que impactou aquela década, afetando artistas de gêneros musicais distintos ou não. A música “Ray of light” inclusive quebra a perpesctiva de imersão suspensa das duas primeiras faixas e aposta em acelerar o ritmo, sendo uma das mais dançantes do álbum. Até que toda a influência da música eletrônica e o trip hop vai dando as caras conforme se aproxima do final.

Candy Perfume Girl” se for escutada com fone de ouvido, tem sua introdução nada melódica e é uma música que não faz questão nenhuma disso no começo. Tendo batidas semelhantes a de “Re-Hash” do Gorillaz, o drum and bass molda uma característica mais obscura, mas que não chega a tornar-se sombria. Os produtores William Orbit e Patrick Leonard souberam muito bem explorar e experimentar o pop da cantora sem atingir extremos.

Os sons que parecem ter sido gravados das teclas de uma ligação de celular, já usadas em momentos específicos em “Candy Perfume Girl”, são reaproveitados em “Skin”. É possível escutar também o instrumento hang que tanto fez sucesso recentemente na internet por sua sonoridade suave e relaxante, sendo um dos poucos instrumentos percussivos gravados organicamente  em “Ray of Light”. O sintetizador dá base para que os instrumentos e ruídos diversos sejam sobrepostos com reverberação, dando uma profundidade que nos carrega com leveza da mesma forma que nos traz de volta em toda a nuance neo punk que “Skin”se propõe em trazer e que será levada até a faixa seguinte, “Nothing Really Matters”. A complementação das músicas que não vêm em sequência acidentalmente é divina, sendo uma transformação exemplar de como é possível migrar e modelar sensações utilizando o mesmo formato e instrumentos, mudando apenas o conteúdo da letra e os intervalos de acordes.

Sky Fits Heaven” vai aos poucos mostrando o que impediu o álbum de ser excelente. O álbum que ousa tanto quanto experimenta, parecia ficar imune de cair no monótono. Pois bem, caiu. Houve uma clara tentativa de disfarçar colocando notas de teclado e acordes sujos de guitarra, mas entra-se em um padrão que fica explicitamente audível desde “Candy Perfume Girl” até “Shanti/Ashtangi”. Ambientação essa que só veio a ser quebrada com “Frozen”, que traz de volta um pop mais “fácil” de se consumir, havendo até possibilidade de ser tocado na rádio por exemplo.

Se é para falar de música comercial, “The Power of Good-Bye” é quase uma profecia da face que o pop tomaria na década seguinte. São tantas semelhanças com músicas futuras que chega a ser engraçado. Sia, Sam Smith, Justin Timberlake, Lana Del Rey, Lady Gaga… a estética de todos pode ser observada aqui, somente nessa faixa, que dirá avaliando-se o álbum por completo, a lista só cresce. A influência e contribuição de Madonna na indústria da música, concretizada e exemplificada.

As três últimas faixas, “To have and to hold”, “Little Star” e “Mer Girl” enaltecem o belíssimo conteúdo das letras que Madonna escreve, já impactada e sensibilizada pela maternidade, que veio pouco antes da produção de Ray of Light”. É ótimo observar uma obra que carrega peso pessoal, emocional e característico de uma artista que nunca teve medo de experimentar ou sequer hesitou em seguir suas vontades, sejam elas musicais ou não.

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