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Rectify

Rectify

Ana Flavia Gerhardt - 26 de setembro de 2018

Exibida de 2013 a 2016, a série televisiva Rectify, criada pelo ator Ray McKinnon e produzida pelo canal Sundance, recebeu enormes elogios da crítica (média 82 no exigente Metacritic; a última temporada recebeu nota 99), mas seu ritmo nada acelerado afastou-a do grande público. Porém, é possível que agora ela seja vista em sua completude, já que foi finalizada após quatro temporadas que totalizam apenas trinta episódios. Isso permite que o espectador que gosta de produções diferenciadas se deleite com uma das melhores obras da TV estadunidense dos últimos anos.

A quantidade de temas significativos presentes na série compõe um conjunto de perspectivas que a princípio sugerem uma obra intimista. Entretanto, à medida que o trabalho como um todo permanece em nossa mente e se mescla mais e mais às nossas memórias de vida, torna-se possível compreender Rectify como um documento necessário, importante e poderoso sobre as profundas injustiças perpetradas pelas sociedades baseadas na distorção das ideias liberais, que é o que mais nos preocupa na contemporaneidade, e sem proposta de solução imediata.

Ao mesmo tempo, a série estende os efeitos de conquistas sociais e de pensamento para limites e fronteiras que muitos estudiosos ainda não alcançaram. As obras de Arte que suplantam o discurso acadêmico em termos de desenvolvimento de ideias de vanguarda são mais uma evidência de algo que um querido amigo me disse outro dia: a Arte, muito diferente de ser uma fuga, ou uma alteração da realidade, é de fato o seu aprofundamento às ultimas consequências, e muitas delas são inalcançáveis pelo intelecto. Então, nós, que desejamos compreender mais e mais o que é o real, não temos outra alternativa além de nos entregarmos àquilo que o ser humano faz melhor.

Estamos presos dentro de nós mesmos

O primeiro episódio de Rectify já nos mostra que a série gira em torno de Daniel Holden, vivido pelo ator canadense Aden Young com uma interiorização expressiva, delicada e comovente. Aliás, a interiorização e a delicadeza estão presentes em quase todas as atuações, e isso torna os personagens empatizantes e multifacetados: nós realmente torcemos por eles, e nos alegramos e nos emocionamos com suas conquistas.

Aos dezoito anos, Daniel foi acusado de estupro e assassinato de sua namorada, chamada Hannah Dean, e confessou o crime após um interrogatório de dez horas. Condenado à morte, ele permaneceu por dezenove anos numa cela isolada no corredor da morte do Estado da Georgia, e sobreviveu por conta das inúmeras apelações produzidas pela insistência incansável de sua dedicada irmã mais nova, Amantha (a também excelente Abigail Spencer). Finalmente, um exame de DNA não detecta a presença do esperma de Daniel entre as roupas íntimas de Hannah, o que o inocenta de estupro. Por conta disso, ele é libertado para que o Estado confirme ou não sua sentença.

O desenrolar da série gira em torno das consequências dos anos de prisão na mente e no espírito de Daniel, de como sua família e a pequena cidade onde mora lidaram com o processo, e das injustiças em sequência que desembocam em outras ações também injustas. Embora importantes, ficam em segundo plano, em relação aos conflitos e sentimentos das pessoas, os fatos decorrentes de sua liberação (e não libertação, saliente-se) e do inquérito sobre a morte de Hannah, já que sua presença fora da clausura provoca reviravoltas na investigação e faz surgirem elementos novos, escondidos por duas décadas.

Em Rectify, os fatos são menos importantes do que os sentimentos porque todo mundo está de alguma forma preso pela suprema violência cometida contra Hannah, que ceifou sua vida antes de levantar voo. Até quem não tem nenhuma relação com Daniel e entrou em sua família depois de sua condenação acaba sofrendo os efeitos da chegada repentina de uma pessoa que, embora parte da família, é um ser estranho, inclusive para si mesmo, e, para todos os efeitos, um assassino de comportamento possivelmente recorrente.

O impacto do retorno de Daniel obriga as pessoas que se relacionam de alguma forma com ele a vasculharem os escombros do próprio passado para revisar suas ações diante da tragédia: sua mãe e irmã são obrigadas a encarar o que fizeram de suas vidas em função da condenação de Daniel, e do grande/pequeno espaço que deram a ele em seus planos de vida durante o anos de sua prisão. Seu padrasto e irmão de criação precisam aceitar a presença de mais um homem na família. A mãe e o irmão de Hannah precisam aprender a conviver com a impossibilidade de jogarem seus fracassos pessoais sobre as costas de outra pessoa.

À medida que a série se desenrola, passamos a compreender que Daniel não é o único que precisa ser libertado. Todos ali se prendem a grilhões, confeccionados ora pelos próprios erros, ora pelos erros de seus pais. Impedir que seus grilhões sejam uma prisão perpétua passa a ser uma tarefa obrigatória, porque a grande desculpa para ignorá-los já não existe mais.

A pena de morte é algo criado para matar alguém que em muitos sentidos já está morto

O sofrimento que Daniel experimentou no corredor da morte é algo que não dá para pensar sem ameaçar a sanidade mental. Daniel sai para a vida social mas traz junto a pessoa em que precisou se tornar para permanecer vivo – nem ele sabe muito bem para quê. À lembrança de que ele não está completamente livre, já que o inquérito está reaberto mas ele ainda é suspeito da morte de Hannah, se soma o fato de que ele ainda pode voltar ao presídio, algo do qual ele nunca se esquece. Tal fato, junto aos traumas da prisão e à incerteza sobre se matou a namorada ou não, o impede de começar a construir alguma vida. Sua gigantesca dor física e moral é apresentada na série de forma tão profunda e complexa que chega a levantar a suspeita de que não sabemos, de fato, o que representa estarmos vivos.

O libelo contra a pena de morte que a todo momento Rectify concretiza vai se materializando ao longo da série para que, em sua temporada final, Daniel possa finalmente dar linguagem ao que realmente pensa e sente sobre o que fizeram com ele. E é aí que, já completamente envoltos em compaixão pelo personagem, podemos perceber que a pena de morte é algo criado para matar quem já está morto – muitas vezes, uma morte lenta, que dura dez, vinte anos.

Existem muitos tipos de assujeitamento. Um deles, muitas vezes imperceptível, é aquele em que condições discursivas e cognitivas impõem formas de viver que são verdadeiras armadilhas que matam o desejo, que é o sentimento humano que mantém o fluxo da vida em movimento. Outro deles é o assujeitamento imposto pela perda da liberdade e pelo envio de pessoas condenadas por algum crime aos presídios, suprimindo-lhes outro dos sentimentos que nos tornam humanos: a liberdade.

O corredor da morte, onde a pessoa pode permanecer por décadas, talvez seja o pior tipo de assujeitamento, porque a solidão absoluta imposta ao condenado lhe retira a condição mínima para ele se constituir em essência como ser humano, que é a intersubjetividade. A série sugere que essa violência extrema desconecta a pessoa não apenas da vida, mas também de si mesma, provocando uma fragmentação da psique capaz de enlouquecer qualquer um e provocar a morte existencial. Sendo essa a realidade dos que recebem a pena capital, a morte da pessoa em vida provocada pelos anos no corredor da morte já a mata de antemão. Por isso, a frase “dead man walking”, pronunciada pelos guardas quando o condenado se dirige à sala de execução, apenas constata um fato consumado. A injeção letal apenas concretiza o que já está instaurado.

Ao longo de trinta episódios, acompanhamos a árdua e às vezes perigosa jornada de Daniel para retornar do lugar dos mortos em vida  em busca de sua essência humana, e sem qualquer bússola, já que a experiência por que ele passou não tem paralelo. Como objetivo, ele busca algo que não está dado a ninguém, por isso em muitas medidas é uma trabalhosa conquista pessoal, já que implica a superação dos recalques de abandono parental e social: a percepção necessária e constante de que merecemos estar vivos, apesar de todas as nossas imperfeições.

Só o perdão liberta

Para construírem o merecimento por estarem vivos, alguns personagens de Rectify também precisam lidar com as culpas, muitas delas infundadas, que foram acumulando ao longo da vida. A frase que o espectador mais ouvirá na série é “I’m sorry”; a palavra mais recorrente será “resentment”.

A grande questão da série é que em boa parte dos casos nós pedimos desculpas mais para nos sentirmos melhor, mais para diminuirmos o peso de nossas próprias culpas imaginárias e nos sentirmos menos desconfortáveis com nossa consciência, do que propriamente por generosidade e desprendimento genuínos – e esse auto-engano é uma de nossas prisões permanentes. Rectify sugere que podemos nos libertar de nós mesmos, porque ao fim da história algumas qualidades de caráter acabam sendo conquistadas por alguns deles, mesmo que a duras penas. Como todos nós, os personagens de Rectify levam algum tempo para aprender.

Essa tentativa de libertação, às vezes canhestra, às vezes bem-sucedida, é materializada nas casas da famílias: o quarto de Hannah permanece decorado como quando ela era viva. Na casa da família de Daniel, os pertences de pessoas mortas que permanecem no sótão e na garagem rivalizam em incômodo com a cozinha que precisa de reformas. A necessidade imperiosa de trocar os móveis e abrir espaço, metáforas do que se passa no espírito de cada um, é tão desconfortável, que de início as pessoas pensam que expulsar Daniel da casa irá mandar para fora os fantasmas que sua presença evoca. Mas elas logo reconhecem que o que saiu das sombras não voltará, portanto não resta outra alternativa além de elas enxergarem a si mesmas e umas às outras sem escamoteamentos.

Nesse sentido, num pseudo-paradoxo, Daniel é o personagem que mais sofreu, mas é o que mais bem faz a todos, porque os obriga a compreender, na prática, que só o perdão liberta verdadeiramente. Esse perdão, que vai na contramão de um sistema criado por homens e repleto de falhas e crueldade, tem na série sua possibilidade aberta pelas mulheres: pela promotora que não aceita o imediatismo dos fatos; pelas mães da vítimas, que abrem seus corações para uma revisão conjunta do passado; pela capacidade feminina de engendrar vida, algo que sempre representa renovação de esperanças, desejos e sentimentos.

Em um dos muitos momentos maravilhosos da série, Daniel afirma: “as mulheres dão sentido à nossa vida”. Mais do que sentido, elas dão a própria vida, e apenas elas podem romper com a espiral de ódio que produz a violência e a injustiça em que o patriarcado agora se debate. Vale a pena assistir à série completa para compreender como o feminino que existe em todos nós, homens e mulheres, é uma das forças motrizes para transformações no mundo e no coração das pessoas. Essa é mais uma das inúmeras conclusões a que chegamos ao nos despedirmos dos extraordinários personagens de Rectify, depois de nos identificarmos e chorarmos com muitos deles. Depois disso, é vida que segue, mas é possível que agora seja uma vida bem diferente.

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