Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Sem Amor

Sem Amor

Ana Flavia Gerhardt - 8 de fevereiro de 2018

“Sem Amor” é a segunda obra do cineasta russo Andrei Zvyagintsev a compor a lista dos cinco trabalhos candidatos ao Oscar de filme estrangeiro este ano. Em 2014, Zvyagintsev esteve presente no Teatro Dolby, em Los Angeles, porque seu filme “Leviatã” estava entre os indicados. É imensa a quantidade de trabalhos que passam por longas triagens até a lista final de concorrentes estrangeiros ao Oscar. Portanto, ser nomeado duas vezes na categoria é um feito extraordinário, alcançado, entre os filmes do século 21, por nove cineastas.

Esse fato já é suficiente para que o espectador assista com atenção ao mais recente trabalho de Andrei Zvyagintsev, mas há outras razões igualmente importantes para isso. Uma delas é que cada filme do diretor nos apresenta uma Rússia não muito diferente do Brasil. A propósito, essa é também uma característica de alguns trabalhos cinematográficos produzidos na Romênia, em particular “Sieranevada”, de Cristi Puiu, e “O Exame”, de Cristian Mungiu, ambos de 2016.

“Sem amor” é sobre Alyosha.

A partir de situações e problemas do cotidiano e das soluções pensadas para eles, esses filmes evidenciam a dificuldade de elaborar, após décadas em regimes de exceção, um projeto de país quando a corrupção é estrutural e as tentativas de crescimento e autonomia real são roubadas do povo com a maior facilidade. “Sieranevada” e “O Exame” nos fornecem a ideia clara e consolidada de que não dá para construir qualquer coisa sobre visões de mundo rançosas e atrasadas, porque elas constituem o alicerce mais arenoso que pode existir.

No caso do Cinema de Andrei Zvyagintsev, a questão é diferente, mas não menos relevante a nós – e essa é a segunda e principal razão para que o diretor ganhe o interesse dos brasileiros. Em suas obras, o cineasta russo se mostra preocupado com um problema específico, que vai ganhando mais e mais substância a cada filme, o que mostra a sua compreensão precisa de que a ideia que lhe interessa é tentacular. Trata-se, em princípio, de qual legado a extinta União Soviética deixou para a Rússia atual.

Alyosha ocupando a metade esquerda da tela, reservada às imagens menos importantes.

Em seus filmes, esse legado é avaliado de diferentes pontos de vista, mas sempre personificados nas relações entre diferentes gerações de russos – os que viveram durante o regime da URSS e os que cresceram e formaram suas subjetividades após a Perestroika e a queda do Muro de Berlim. O que singulariza mais ainda essa questão é o fato de que a perspectiva de Zvyagintsev nunca se localiza nos palácios de governo e demais instâncias decisórias nacionais, mas sim nos lares das famílias russas, em que todos os fracassos históricos se materializam. Vejamos por partes.

Cores dessaturadas e gélidas compõem a cozinha da casa de Alyosha. Repare-se que a vestimenta do menino segue os mesmos tons, o que o torna praticamente invisível em meio ao azul e ao cinza.

Em “O Regresso”, premiado filme de 2003, Zvyagintsev descreve o retorno de um pai cuja existência dois jovens irmãos ignoravam. Numa viagem que os três empreendem juntos, o estranhamento entre eles e a inaptidão do pai tanto em compreender os filhos, quanto em se fazer compreender por eles, desagua na total impossibilidade de que possam conviver como família. Mantendo o pensamento da extinta URSS, o pai demonstra não poder entregar nada de bom aos filhos nascidos sob o novo regime – pelo menos nada do que eles alimentam como necessidade e desejo.

Mais tarde (2011), ao dirigir “Elena”, Zvyagintsev inverte a perspectiva geracional, desenvolvendo uma situação familiar em que a geração anterior, criada na URSS, reúne e oferece seu legado aos filhos e netos. Mas, desta vez, estes é que não conseguem enxergar a dimensão histórica e a riqueza que o passado pode lhes proporcionar. Dessa forma, assim como em “O Regresso”, Zvyagintsev nos entrega sua melancolia em relação às possibilidades de que a nova nação russa possa auferir alguma lição da longa e sofrida história do país.

No maravilhoso e também premiado “Leviatã”, de 2014, Zvyagintsev dá um passo adiante na questão que lhe interessa e busca discutir por que a Rússia, assim como o Brasil, e assim como a Romênia, não consegue construir um projeto de nação. Analogamente às justificativas que os brasileiros alimentam, é sobre a corrupção pervasiva e estrutural que o diretor se debruça, e talvez seja esse, para a desgraça de todos, o verdadeiro legado da URSS à Rússia do presente. Para denunciá-lo, Zvyagintsev desenvolve um relato pessimista acerca do futuro do país: se continuar seguindo os rumos que escolheu, capturando do passado soviético o que ele teve de pior, a Rússia corre o risco de se desmantelar, da mesma forma que, no filme, as famílias e as amizades se desmantelam a partir do seu elemento central – o pai e provedor.

Em “Sem amor”, como em outros filmes de Andrei Zvyagintsev, os grandes espaços vazios, o frio e a solidão são recorrentes.

“Sem amor” é o produto amadurecido das reflexões desenvolvidas nos filmes de Zvyagintsev citados aqui e mais alguns outros. Esse amadurecimento permite ao diretor nos oferecer novos elementos que se ajustam a sua questão e a refrescam imensamente, porque trazem ao centro do diálogo a dimensão micropolítica das relações: de que forma a incapacidade de a URSS ter deixado algo de bom à nova Rússia contamina as relações entre as pessoas? De que forma essa contaminação afeta as perspectivas de futuro da segunda geração de russos pós-URSS?

Para dar conta dessas perguntas, Zvyagintsev aborda três gerações de russos: a que se criou durante a URSS, a primeira geração pós-queda e a geração nascida no século vinte e um, quando a transição já deveria estar consolidada, e para melhor, como muita gente prometeu. Promessas vazias, como são vazias as paisagens congeladas que aparecem ao início e ao fim do filme. Como são vazias as relações entre os personagens, muito embora alguns deles acreditem que não, que finalmente conseguiram estabelecer vínculos amorosos.

Repleto de camadas, “Sem amor” também é sobre as consequências do desejo de receber amor sem precisar dar nada em troca.

Porém, diante da tragédia absurda que é o desaparecimento do menino Alyosha, de 12 anos (Matvey Novikov), algo capaz de enlouquecer de desespero qualquer um, o que vemos na tela são pessoas e instâncias governamentais mais preocupadas em verificar se isso afeta de alguma forma os próprios interesses. Se se limitasse a apenas isso, o filme já seria um tapa na cara de todos os partidários do discurso conservador da direita neoliberal, que defendem a manutenção da família tradicional como modelo de criação de filhos e, como o chefe de Boris (Aleksey Rozin), o pai de Alyosha, recusam qualquer questionamento a isso. Mesmo que a realidade todos os dias escancare abertamente a crueldade familiar praticada contra crianças inocentes, como pode ser constatado neste artigo e neste vídeo.

A polícia, representando o poder institucional, que deveria zelar pelos cidadãos (sobretudo os mais vulneráveis), lava as mãos e entrega o caso a uma ONG. A avó de Alyosha (Natalya Potapova) desconfia que a história do desaparecimento é alguma armadilha para que seus bens lhe sejam tomados. A nova namorada de Boris (Marina Vasileva) teme que o fato aproxime pai e mãe, e ela seja descartada, grávida e desamparada. Boris e Zhenya, a mãe de Alyosha (Maryana Spivak), que se detestam, e planejavam entregar o filho ao serviço social para se livrarem do pequeno fardo, em momento algum se questionam se o sumiço do garoto foi causado por seu egoísmo e sua irresponsabilidade. O instante em que finalmente a ficha cai e eles se dão conta da gravidade da situação não os afeta o suficiente para que aprendam alguma coisa sobre o que vem junto com a paternidade e a maternidade: o compromisso não apenas de continuar a espécie, mas de trabalhar para que as novas pessoas possam agregar algo que lhes permita melhorar a si mesmas, aos semelhantes e ao mundo.

Alyosha em contra-plongée: pequeno diante de um país que o ignora.

O fato de “Sem amor” ser lançado juntamente com dois filmes importantes sobre a criação de filhos – “Projeto Flórida”, de Sean Baker, e “Lady Bird”, de Greta Gerwig – é algo que não pode passar despercebido. Nesses dois filmes, a imensa dificuldade de criar filhos na contemporaneidade está imposta e exposta. Mas ambos seguem por distintas, porém igualmente necessárias, opções de criação. Em “Projeto Flórida”, há uma mãe extremamente amorosa, e isso resulta em uma filha corajosa e agentiva, mas a falta de limites e de responsabilidade dessa mãe resultará em sofrimento e ruptura. Em “Lady Bird”, há uma mãe rigorosa que teme um futuro infeliz para a filha (infeliz como o seu próprio presente), mas sua dificuldade em expressar afeto resultará, igualmente, em sofrimento e ruptura.

Esses dois filmes sugerem a necessidade premente e atual de repensar o conceito de família, e trazem, para qualquer pai e qualquer mãe, o desafio de articular ambas as ações, a de amor e a de rigor, porque talvez, quem sabe, esse seja o caminho para criar pessoas capazes de construir a si mesmas e ao mundo. “Sem amor” se articula a eles porque ensina o que não pode ser feito de jeito nenhum, e, como recurso didático, mostra com clareza e contundência o que sofre uma criança quando se vê abandonada em todos os sentidos materiais e afetivos. O cotejo entre essas três excepcionais obras evidencia como tem evoluído a questão básica de Andrei Zvyagintsev: do questionamento sobre o futuro da Rússia depois do passado soviético, para o alerta sobre o que pode acontecer com as futuras gerações se o país não puder cuidar das pessoas, em todas as esferas, da macroinstitucional à familiar.

Uma das características do Cinema de Andrei Zvyagintsev é a descrença na capacidade de aprendizado ético das pessoas.

Com o título do filme, Zvyagintsev realiza o corte cirúrgico que nos aponta a grande ausência que acarretará o vazio: a falta de amor ao país e aos seus cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis; a falta de amor ao que se cria e ao que se engendra. A falta de amor, em todos os sentidos – mais especificamente: a falta de capacidade de dar amor, já que os personagens do filme, interessados apenas em receber um amor que supra suas carências infantis (nunca suprirá), não conseguem dar nada em troca. É por isso que, num dado momento, o namorado de Zhenya lhe diz: “não é possível viver sem amor”. Não apenas sem receber amor, como a personagem, voltada sempre para o próprio umbigo, deve ter entendido, mas também sem dedicar amor, como prática e aprendizado, às pessoas e ao mundo.

O incômodo que os 127 minutos que “Sem amor” nos impõe, sem alívios cômicos, referenda a gravidade e urgência de um tema que fica mais profundo e complexo a cada filme de Andrei Zvyagintsev. Daí as várias camadas de sentido que no filme se atravessam, cabendo ao espectador discriminá-las. Em conjunto, o egoísmo e o vazio afetivo que impedem os pais de amarem de forma adulta e de verdadeiramente cuidarem de seus filhos, a incapacidade de dedicar, alimentar e manter o amor que precisa estar presente em todas as relações pessoais e institucionais, e um contexto macropolítico que não aceita avaliação e transformação da forma como trata os cidadãos, não permitirão que projetos permanentes de nação sejam implementados. Esse estado de coisas está genial e fortemente exibido na cena final do filme, exibida em primeiro plano, e permanece em nossa mente como a síntese dos problemas que a recusa em enfrentar apenas denunciará nossa incompetência e nossa hipocrisia.

Topo ▲