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Sense8 – Amor vincit omnia (series finale)

Sense8 – Amor vincit omnia (series finale)

Gustavo Pereira - 8 de julho de 2018

Não é preciso apresentar um diploma em História da Arte para entrar no Louvre e nem escanear um diploma em Cinema para fazer login na Netflix. O que é ótimo, diga-se de passagem. Ninguém precisa saber se Leonardo da Vinci usou óleo de linhaça ou de cártamo para admirar a “Mona Lisa”. Eu mesmo não sei. Da mesma forma, um filme ou uma série podem ser apreciados sem academicismos. Não é imprescindível saber o que é uma divisão de atos, um meio primeiro plano, um plongée etc. Essas informações são captadas instintivamente pelo espectador. E, para quem não soube explicar porque achou a conclusão de “Sense8” tão frustrante, as próximas linhas se propõem a explicar tecnicamente o que o instinto percebeu.

Sense8 Amor vincit omnia netflix final

“Sense8”: os personagens não evoluem e a conclusão se limita a uma ação genérica.

O quase-cancelamento de “Sense8”, que só foi concluída graças à mobilização dos fãs, é a origem de tudo. “Amor vincit omnia” (“o amor conquista tudo” em latim) tem a duração de um filme, mas claramente é um episódio de série. E não é um episódio solitário de uma terceira temporada, mas sim o 12º episódio da segunda temporada, separado de seu “cluster” por mais de um ano.

Esse tratamento, aparentemente irrelevante, faz toda a diferença. Elementos narrativos de uma série são apresentados ao longo dos episódios e não ficam voltando repetidas vezes. Algo tratado no episódio 10 não precisa ser reapresentado no 12, principalmente se tratando da Netflix, onde os assinantes “maratonam” todos os episódios em sequência. Mas “Sense8” estava “fria”, com pontos-chave da história praticamente esquecidos. Toda a investigação sobre a Organização de Proteção Biológica (OPB), o triângulo Jonas (Naveen Andrews) – Angelica (Daryl Hannah) – Sussurros (Terrence Mann) e a figura do Presidente (Stephen Boxer) são subutilizados. Além de terem surgido em meio a uma série de acontecimentos no final da temporada anterior, não têm o devido tempo para decantar na trama. Parecem dispositivos arranjados para criar suspense artificial.

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O roteiro avança com soluções tiradas do vazio

A tensão artificial é recorrente na conclusão de “Sense8”. Protagonistas estão constantemente em um risco insustentável, aquele tipo em o espectador “sabe” que nada vai acontecer. Como Wolfgang (Max Riemelt) vai morrer nos primeiros 15 minutos do episódio, se toda a trama está escorada no seu resgate? “Não vai”, pensa o espectador. E não morre mesmo, o que torna uma sequência de cinco minutos em uma “encheção de linguiça”. E isso acontece inúmeras vezes. “Amor vincit omnia” é um episódio inchado, com tanto conteúdo repetitivo e inútil, que poderia ser cortado à metade. Mesmo com tantas questões a serem respondidas.

A própria ideia da empatia, chave da ótima primeira temporada e grande mote da série como um todo, é exposta gratuita e exaustivamente a intervalos curtos de tempo. Dramas juvenis de personagens-satélite quebram qualquer tentativa de ritmo que o episódio tenta imprimir. Como um constante lembrete “do que realmente importa”. O tema é relevante e deve ser abordado, mas não se pode “passar pano” pra incompetência porque se concorda com a mensagem. Se ela não trabalha para o desenvolvimento da trama, não serve. Simples assim. Esse tempo perdido compromete todo o seu desenvolvimento, obrigando o roteiro a despejar reviravoltas ancoradas em nada. É uma confusão que impede o público de entrar na história, sendo guiado às cegas em vez disso.

Ainda falando de roteiro, o drama narrativo inexiste no momento em que deveria ser mais agudo. Todo personagem bem construído passa por um conflito entre desejos (o que quer) e necessidades (o que precisa), promovendo uma mudança. Analisando, por exemplo, Capheus (interpretado por um Toby Onwumere completamente perdido, fora de tom, idiotizado): ele quer cuidar da mãe soropositiva, mas o que realmente precisa é descobrir a sua força e coragem interiores para mudar a vida da sua comunidade, o que beneficiará sua mãe e todos em igual situação. Desse conflito, sai uma pessoa mais preocupada com o coletivo, politicamente engajada e referência para os demais. Porém, com mais de duas horas de série pela frente e o conflito já resolvido, não há expansão. Ele e os demais protagonistas “já” evoluíram e estão apenas “fazendo hora extra”, usando suas habilidades para uma “missão bônus”.

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Kala (Tina Desai) se alterna entre um dilema mal resolvido e um kit de química que fala

Mesmo essas habilidades ficam “roubadas”, em cenas de ação forçadas além do limite. Por mais que compartilhem seus conhecimentos entre todos, ainda são oito pessoas normais. A forma como derrotam 20, 30, 50 adversários fortemente armados é grotesca. Esse é o ponto mais surpreendente – pro lado ruim – em “Sense8”, pois estamos falando das Wachowski, dupla que revolucionou a maneira com que se filma ação em “Matrix”. É um abuso de planos fechados e câmera na mão que não condiz com a capacidade das profissionais envolvidas.

Teria ficado melhor para elas que “Amor vincit omnia” nunca tivesse existido. Ser frustrado por algo que não vimos e poderia ser fantástico é muito melhor do que por algo que vimos e é bem ruinzinho. Todos os episódios estão aqui.

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