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Sete filmes sobre eleições

Sete filmes sobre eleições

Ana Flavia Gerhardt - 7 de outubro de 2018

Como milhões e milhões de pessoas em todo o Brasil, nós do Plano Aberto estamos muito interessados nas eleições de 2018. Todos nós estamos engajados em discussões e movimentos que se desenrolam pelo país, mas, como cinéfilos de raiz, não podemos deixar de articular nossas ideias a muitos filmes.

Por isso, não resistimos à tentação de compartilhar com vocês sete filmes que discutem eleições no Brasil e no mundo. São filmes de ficção e documentários que tratam de inúmeras facetas políticas, econômicas e humanas sempre presentes quando abordamos um tema tão fascinante. Por isso, a lista inclui não apenas eleições para cargos executivos e legislativos, mas também aborda narrativas sobre o que acontece em circunstâncias em que pessoas precisam votar em alguém.

Então, para os que gostam de Cinema e andam evitando as listas de família do WhatsApp e as páginas do Facebook, ou buscam alternativas de pensamento à bipolaridade político-partidária atual, ou querem conhecer mais sobre as semelhanças e diferenças entre a política brasileira e a mundial, segue uma lista com sete filmes que vão contribuir para o sucesso dos leitores nas rodas politizadas de conversa.

Arquitetos do Poder, de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé (2010)

O documentário produzido pelo IUPERJ, Instituto de Ciências Políticas do Rio de Janeiro, reforça a ideia de que a História é sempre algo narrado de uma determinada perspectiva. Acreditar nisso é fundamental para reconhecer que esta excelente produção, disponível no Youtube, é um tratado da História do Brasil recente contada por um grupo de figuras que sempre está muito em evidência em eleições: os marqueteiros. Desconstruindo a impressão de que eles são um fenômeno recente, Arquitetos do Poder mostra, selecionando imagens ótimas para isso, como a marquetagem participa da política desde pelo menos os anos Getúlio Vargas. Alguns detalhes que os leigos nunca imaginariam, como estratégias para burlar as limitações tecnológicas de cada época e decisões de bastidores das campanhas, ajudam a compreender as ações de muitos candidatos e a influência pesada da mídia na votação popular. Como documento histórico, Arquitetos do Poder humaniza um pouco pessoas que para nós, cidadãos comuns, vivem num mundo inatingível, circunscrito às esferas do poder político e administrativo.

Bob Roberts, de Tim Robbins (1992)

A forma como Bob Roberts se encaixa perfeitamente ao contexto político brasileiro atual o torna um filme praticamente obrigatório. Estão lá os elementos básicos das candidaturas reacionárias: o discurso pseudo-nacionalista e moralista de ultra-direita, a construção de uma imagem de salvador da pátria e o repúdio aos movimentos sociais. Também estão lá todas as falácias e a corrupção que esse discurso esconde, enquanto engana as pessoas que acreditam nele: os favorecimentos dentro do governo, as relações espúrias com o crime, o pragmatismo selvagem, o desprezo ao povo. O diretor Tim Robbins assume o papel-título, rodeado de atores notórios na década de noventa por suas ideias progressistas, e o fato de seus personagens dizerem o contrário do que sabemos que acreditam reforça mais ainda, pelo absurdo, o pensamento que o filme deseja transmitir. Depois que Bob Roberts acaba, fica uma impressão ruim de como é difícil caminhar rumo a uma sociedade menos atrasada, já que um filme de 1992 nos retrata tão fielmente – a nós e a muitos países, é bom dizer. Até quando permaneceremos nessa paralisia é algo que apenas nós poderemos decidir.

Eleição, de Alexander Payne (1999)

Esse filme se diferencia dos demais da lista porque trata de eleições num ambiente não partidário, mas nem por isso menos político: o que está em jogo é a presidência do Grêmio Estudantil de uma escola média estadunidense. O cargo é desejado ardentemente por Tracy Flick (Reese Whiterspoon), adolescente amoral e com altas pretensões políticas pessoais, mas ela encontra obstáculos ao seu intento na figura do professor Jim McAllister (Matthew Broderick), de caráter tão duvidoso quanto o dela. O filme deixa sempre clara a pequenez das intenções de Flick, e com isso reforça a ideia de que as pessoas que se envolvem nos jogos de poder frequentemente o fazem basicamente por vaidade e ambição acima da média, e não por senso cívico. Um dos elementos que sustenta essa tese é o oponente de Flick na eleição do Grêmio, o quarterback gente boa Paul Metzler (Chris Klein), que, caindo de para-quedas na eleição do grêmio, imagina ser presidente para trazer benefícios para a escola, pensa nos outros antes de si mesmo e procura tirar boas lições das próprias derrotas. A cena em que cada um expressa o que deseja fazer sendo presidente já marca bem o contraste entre eles, mas o filme como um todo oferece uma visão pessimista da política, como se nela só houvesse espaço para os ambiciosos e pragmáticos.

Entreatos, de João Moreira Salles (2004)

Ao registrar cinematograficamente o período da campanha eleitoral que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva pela primeira vez (mais especificamente, fim do primeiro turno e segundo turno até o dia da votação), João Moreira Salles optou pelos bastidores do processo, evidenciando os diálogos entre Lula, seus companheiros de campanha e, eventualmente, pessoas do povo. O filme salienta a serenidade e bom humor do candidato diante da tensão absoluta daquele momento, agregando-os a seu imenso carisma, inteligência e capacidade de adaptação, e com isso mostra mais uma vez por que Lula é uma das personalidades políticas mais importantes do mundo, independente dos imensos erros pelos quais foi acusado posteriormente.  Entreatos, se assistido agora (disponível no Youtube), colocará o espectador numa cápsula do tempo, na qual ele reviverá com nostalgia os tempos de uma esquerda quase idílica, idealista, perfeita para assumir o poder num Brasil prestes a viver seus melhores e mais prósperos anos. O que aconteceu conosco depois contradisse muitas das palavras de Lula durante o documentário, mas a existência de um documento robusto como Entreatos nos faz acreditar que ainda podemos reconstruir a esperança mais forte que o medo – a mesma esperança que elegeu Lula em 2002.

No, de Pablo Larraín (2010)

Este  imperdível longa chileno conta a história do grande plebiscito realizado em 1988 para a definição popular de se o ditador Augusto Pinochet deveria ou não concorrer a um novo mandato de presidente depois de 15 anos no poder. Para os militares, esse plebiscito seria apenas uma encenação para legitimar pelo voto a continuidade de todos no comando do país, e eles esperavam um massivo SIM para a permanência de Pinochet. Mas o jogo virou para o lado da oposição, que acabou construindo a  possibilidade e a posterior vitória do NÃO, que impediu Pinochet de concorrer de novo. Segundo o filme, essa conquista se deveu grandemente aos publicitários que, conscientes da oportunidade preciosa de romper com a cadeia opressora da mão de ferro de Pinochet, e sob a ameaça de retaliação por parte dos militares, elaboraram uma campanha para o NÃO que fugia da sisudez e e procurava cativar os chilenos com alegria, música e cor. Mas a equipe de publicitários, capitaneados por René Saavedra (Gael Garcia Bernal), não tinha de enfrentar apenas a ditadura. A oposição, aferrada à velha e austera estética de uma esquerda refratária a mudanças, também mordia os calcanhares dos idealizadores da campanha do NÃO. Vida de marqueteiro não é fácil mesmo…

Tudo pelo Poder, de George Clooney (2011)

Este filme convida o espectador a problematizar os conteúdos da grande maioria dos discursos proferidos pelos políticos desde sempre, com base na ideia de que se candidatam preocupando-se com o bem-estar de uma comunidade, seja ela restrita ou extensa. Em Tudo pelo Poder, o questionamento desses discursos parte da perspectiva de quem cuida das ações das campanhas políticas – novamente, aqui, os marqueteiros, elementos-chave da política e por isso já citados mais de uma vez nesta lista. Não por acaso, o grande protagonista do filme é Stephen Meyers (Ryan Gosling), um dos profissionais encarregados de tocar a campanha do candidato a candidato democrata numa das primárias para presidente dos Estados Unidos. Inicialmente simpático a idealismos, Meyers, ao longo do filme, vai se dando conta das maracutaias, mentiras e conchavos que sustentam os postos de poder. O que o personagem presencia leva a ele e a nós também a reconhecer que, nas campanhas políticas, assim como na vida, invariavelmente somos levados a pelo menos duas escolhas éticas, dentre muitas: se vale a pena trair a nós mesmos para com isso adquirir o poder que, em nossa mente, nos levará a executar uma série de ações que supostamente ajudarão ao povo; e se vale a pena chancelar, através do nosso trabalho, pessoas que são capazes dessa traição e de muitas outras mais.

Virada no Jogo, de Jay Roach (2011)

Este filme, produzido pelo canal HBO, narra o processo de escolha e preparação de Sarah Palin, então Governadora do Alasca, para compor como vice-presidente a chapa republicana encabeçada por John McCain nas eleições para Presidente dos Estados Unidos em 2008. Julianne Moore ajuda a construir uma imagem da Governadora para muito além da figura de ultra-direita de boa aparência que já conhecíamos: Palin é construída no filme como sendo completamente boçal, uma pessoa detestável, auto-centrada e auto-indulgente, sem ideia da sua (nenhuma) importância no cenário político estadunidense e sem nenhuma noção do que acontece à sua volta. Essas características tornam importante a participação dos outros personagens na trama do filme: o próprio John McCain e sua exasperação diante da arrogância e ignorância de Palin sobre tudo, o chefe da organização da campanha e os coaches que tentam transformar a Governadora numa pessoa apresentável e palatável aos eleitores e à mídia. Como a História mostrou, seu fracasso retumbante é bastante revelador de algo que é uma forma de bálsamo tranquilizador em todas as crises, em particular nas crises políticas: a verdade sempre aparece.

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