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Soldados do Araguaia

Soldados do Araguaia

Wallace Andrioli - 8 de Abril de 2018

Há uma diferença importante entre “Soldados do Araguaia”, de Belisario Franca, e a maior parte dos documentários sobre a ditadura militar brasileira feitos desde pelo menos a década de 1980: enquanto essa extensa produção aborda o período geralmente pelo olhar daqueles que se opuseram ao regime, o filme de Franca tem como personagens um pequeno grupo de homens que trabalharam para a repressão, ainda que sem total controle sobre suas ações. Trata-se aqui de oito ex-soldados que, recrutados na região norte do país, atuaram no combate à guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, mas que também foram alvo das brutalidades dos militares – e testemunharam o extermínio dos guerrilheiros.

Franca busca o novo, a revelação de um tema pouco conhecido, e, para isso, recorre a uma pesquisa séria, documentada, como fez em “Menino 23” (2016) – baseado na tese de doutorado em Educação de Sidney Aguilar Filho, enquanto “Soldados do Araguaia” parte do trabalho do jornalista Ismael Machado, creditado como co-roteirista. E esse deslocamento do olhar de fato produz a sensação de novidade, ainda que, no formato, o filme não consiga escapar de ser o que o professor de cinema Fernão Ramos definiu como “documentário cabo” e o historiador Fernando Seliprandy Fernandes como “documentário convencional de entrevista”: de caráter assertivo; composto por vozes múltiplas de entrevistados (enquadrados, quase sempre, em ângulo frontal) que formam uma narrativa linear e coerente; com uso ilustrativo de imagens de arquivo.

O que é uma pena, pois o diretor parece acenar para a criação de uma potente ponte imagética entre passado e presente, ao sobrepor os depoimentos dos ex-soldados a cenas atuais de manobras militares na região. No entanto, o objetivo de Franca é mesmo puramente ilustrativo, não há aqui nenhuma pretensão de insinuar continuidades temporais. A encenação, estilizada como a de “Menino 23”, serve para suplantar a carência de imagens de arquivo sobre o ocorrido, já que a guerrilha do Araguaia foi uma operação clandestina das Forças Armadas e permanece, hoje, assunto proibido nos meios militares.

Por outro lado, “Soldados do Araguaia” consegue ser um filme politicamente forte, ainda que formalmente pobre, principalmente em razão dos entrevistados e do que eles dizem. Homens marginalizados geográfica e socialmente, que viam no exército um caminho para obter alguma estabilidade financeira e ascensão social (como tantos jovens pobres no Brasil), esses oito ex-militares encarnam a violência da ditadura contra os “de baixo”, pouco abordada em comparação com o destaque recebido pelas organizações de luta amada urbanas, compostas majoritariamente por indivíduos de classe média. E, em seus depoimentos, eles revelam tanto a dor pela violência que sofreram – física, no momento em que entraram no exército e foram torturados sem nenhum motivo aparente, e moral, ao serem simplesmente dispensados após o término das operações no Araguaia e não obterem qualquer reconhecimento das Forças Armadas desde então – quanto pela que testemunharam.

“Soldados do Araguaia” é muito eficiente nessa descrição do horror absoluto da tortura, mesmo se tratando de algo relativamente comum nos documentários sobre o período. Isso se dá, possivelmente, pelo filme abordar uma violência que não parece ter um fim a atingir: a tortura praticada contra os soldados não visava extrair deles qualquer informação; os guerrilheiros capturados, por sua vez, foram sumariamente assassinados, seus corpos, vilipendiados, sua memória, enterrada. Nesse caso, aliás, impressionam alguns relatos que remetem ao procedimento nazista de, nas câmaras de gás, dar aos prisioneiros à beira da morte todo o instrumental para a higiene pessoal, tornando mais verossímil a mentira que os conduzia ao extermínio – no Araguaia, alguns guerrilheiros foram lançados de um helicóptero em pleno voo, o que era ironicamente chamado de “viagem para Brasília”, e, antes da realização de tal “viagem”, lhes era oferecida justamente a possibilidade de se higienizarem.

Se Franca não estabelece, através da encenação de operações militares na região amazônica, uma leitura crítica (arquitetada imageticamente) das continuidades entre passado e presente, ele acaba, de outras formas, trazendo à tona o comentário político sobre as marcas da ditadura no Brasil de hoje. Em determinado momento do filme, um dos entrevistados até se refere, negativamente, àqueles que defendem o retorno dos militares ao poder. Mas talvez nem precisasse desse ataque aberto. Ao revelar as entranhas dessa instituição, num contexto de recrudescimento do autoritarismo no país e intervenção do exército no governo do Rio de Janeiro, falando abertamente do tratamento cruel que dispensado a alguns de seus próprios membros, “Soldados do Araguaia” fratura o discurso militar oficial sobre o período. A defesa da necessidade de se combater, por qualquer meio necessário, o “terrorismo” naqueles “anos de chumbo” cai por terra diante da descrição minuciosa da tortura puramente sádica praticada contra homens que, na verdade, se encontravam engajados nesse combate. E o relato do descarte sumário desses homens deixa claro se tratar não de um conjunto de excessos individuais, mas de uma política pensada por uma instituição autoritária, violenta e atravessada por preconceitos.

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