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“The Handmaid’s Tale” e o conto de Serena

“The Handmaid’s Tale” e o conto de Serena

Ana Flavia Gerhardt - 15 de setembro de 2018

Muito já foi dito sobre “The Handmaid’s Tale”, e quem se interessa pela série já conhece os artigos e críticas mais relevantes sobre a trama, inspirados pela comoção que a primeira temporada merecidamente causou. Foram também muitos os elogios à articulação temática que se impõe por si, à perfeita dosagem entre o registro moderado de muitas cenas e a explosiva carga dramática condensada nas atuações perfeitas, capitaneadas pela maravilhosa Elisabeth Moss, e ao apuro estético e cromático que caracteriza a sociedade bíblico-teocrática da fictícia Gilead, construída para ser um espelho distópico de alguns países islâmicos.

As polêmicas suscitadas pela série também foram tratadas por articulistas que abordam os dois principais conceitos e teorias que a série engloba: raça, neste e neste artigo, e gênero, neste e neste artigo, por exemplo. Basicamente, e em resumo, as questões são duas: a de impactar o público com a opressão sexual e o assujeitamento das mulheres brancas (não há personagens negros no livro de Margaret Atwood, mas alguns foram interpretados na série por atores negros) nos mesmos moldes impostos às mulheres negras por séculos, sem explicitar essa relação. E a de passar por cima da questão do racismo, ignorando o fato de que um regime ditatorial controlado por homens irá forçosamente definir uma raça dominante e privilegiada para subalternizar as outras.

No mais, é de se comemorar sim a ideia brilhante de mostrar como funcionaria um regime teocrático nos moldes bíblicos, o que significa transformar as normas religiosas da Bíblia em Leis de Estado. O discurso dos grupos de extrema direita que, num golpe de Estado, criaram Gilead era o de que só eles poderiam resolver o problema da infertilidade em massa que ameaçava os Estados Unidos. Para isso, esses grupos conseguiram dissolver o país e criaram no lugar dele um Estado de exceção, com assassinatos em massa, supressão das liberdades e controle absoluto sobre os corpos das mulheres – principalmente as poucas férteis que ainda existiam. Quem assistiu à série sabe como esse cenário é aterrorizante.

The Handmaid’s Tale é a simulação das piores fantasias machistas tornadas realidade.

A essas qualidades, acrescento a brilhante organicidade entre as dimensões políticas, sociais, morais e econômicas que estruturam os regimes totalitários, que têm seguido uma mesma cartilha de forma reiterada ao longo de nossa história: por motivos – na verdade pretextos – de outra ordem (econômicos, ecológicos), se acha espaço para políticas de segregação, sendo que essa relação é reiteradamente presente na história do mundo: a criação de colônias agrícolas nas Américas e na Ásia pelos europeus, o holocausto judeu perpetrado pelos nazistas, as disputas étnicas em alguns países da África como efeito da cartografia criminosa dos europeus, entre muitas outras canalhices da pior espécie.

Outra qualidade importante é a de problematizar o mito da fertilidade feminina, escancarando as contradições produzidas pela ideia de que apenas a gravidez e a maternidade dão sentido à vida de uma mulher. Sobre isso, é interessante mencionar o filme “Proibido homens“, pseudodocumentário sobre uma mudança biológica feminina: num dado momento, as mulheres passaram a engravidar espontaneamente, sem a participação dos homens, o que no final resultou num matriarcado radical e na exclusão completa dos homens da vida social. “Proibido homens” mostra que uma mesma capacidade pode ocasionar tanto a apropriação do lugar de hegemonia social quanto a total opressão e submissão, como é o caso de The Handmaid’s Tale.

A delícia e a desgraça que é poder (e não poder) engravidar levadas às últimas consequências

Este último ponto é focal na avaliação daquela que, a meu ver, é a personagem mais interessante da série: Serena Waterford, vivida com intensa entrega e compreensão pela atriz australiana Yvonne Strahovsky. Serena é a esposa do Comandante Waterford (Joseph Fiennes), e ambos mantêm em sua casa uma Aia, chamada por eles Offred, mas de nome June (Elizabeth Moss), que está ali unicamente para produzir um bebê, já que, em princípio, Serena não pode ter filhos (muito embora saibamos que em regimes teocráticos a mulher leva a culpa de tudo). Mas participa do processo de concepção dessa criança ajudando o marido a fecundar June no que denominam “cerimônias”, convenientemente descartando da equação o fato de que se trata de estupros em série.

De início, a dinâmica interacional entre Serena e June é, obviamente, extremamente hostil. Mas, ao longo dos episódios, e sobretudo na segunda temporada, ela vai se tornando fascinantemente complexa. Isso ocorre por quatro razões: o conhecimento que o espectador vai tendo da história de Serena e de sua participação ativa na construção daquele Estado totalitário, fruto de sua crença profunda de que as mulheres precisam aceitar seu destino biológico sob pena de a raça humana extinguir-se. Sua brilhante inteligência, superior à do marido, a que ela abdica em função do desejo de ser mãe, que abraça para tentar superar as imensas frustrações profissionais e sexuais que passam a constituir sua vida. Ao esgotamento progressivo de sua capacidade de sufocar a própria potência, que chega ao limite quando se escandaliza com o que se transformou a sociedade que ajudou a engendrar. E, por fim, a inteligência da própria June, que capta a crise existencial de Serena e se adapta a ela, o que torna o relacionamento das duas ora simétrico, ora assimétrico, dependendo das condições emocionais de Serena.

Serena caiu na armadilha que ela mesma montou. Se permanecerá lá ou não é assunto para a terceira temporada de The Handmaid’s Tale.

Todas essas razões vão fazendo com que aos poucos Serena construa um entendimento cada vez mais detalhado do cenário que tem em torno de si. Mas tal entendimento é extremamente doloroso, porque não substitui as antigas crenças, mas sim as desestabiliza. Assim, o que vemos é uma personagem que oscila todo o tempo entre a defesa do sistema fascista de Gilead, o desespero em se apropriar do bebê que June espera – June aqui sendo também o objeto da inveja de Serena, por ter sido mãe sem ter aberto mão de uma vida plena -, e a capacidade de pensar autonomamente e observar de forma crítica as injustiças de que é, ao mesmo tempo, agente, testemunha e vítima, já que, com a instalação de Gilead, ela foi excluída de suas esferas decisórias e de poder.

Serena personifica o drama de muitas mulheres da contemporaneidade, que ouvem o chamado de uma vida profissional mas sentem nas costas o peso milenar do patriarcado, que lhes obriga à maternidade como se essa fosse sua única forma de existir. Embora brilhante intelectualmente, Serena não consegue desvencilhar-se da obrigação de ser mãe, provavelmente imposta pela criação, a qual pode ter sido o motivo de ela abraçar fanaticamente uma religião que mitifica a maternidade para confinar as mulheres no espaço doméstico. Quando visita o Canadá, as coisas ficam ainda piores, já que lá ela percebe que nem o respeito que pensa ter amealhado em Gilead era verdadeiro: dela as pessoas têm apenas medo; apenas a bajulam. Quando precisa delas, elas a abandonam.

Serena denuncia a falácia da valorização da mulher no patriarcado: traída pelo marido mau caráter, é endeusada no espaço doméstico para ser anulada no espaço público.

Nessa luta entre subjetividades tão paradoxais, ainda não há vencedor, e quem acaba padecendo com isso, emocional e fisicamente, é a própria Serena. Serena padece porque, tendo sido uma das artífices daquela sociedade, não calculou que seria descartada depois de sua implementação. Padece também por ter se enganado ao acreditar que usurpar o bebê de June lhe compensaria as perdas existenciais. Diferente do marido, Serena não é mau caráter, e o fato de, mesmo tendo bom caráter, ser capaz de ações perversas a coloca à altura de June no campo de interesse pela trama de The Handmaid’s Tale. Isso torna a série também um conto sobre Serena, e sobre o confronto interno que nela se trava: de um lado, o fanatismo e a submissão ao patriarcado; de outro, o desejo de potência e singularidade. E podemos ver claramente quando uma parte prevalece, e quando a outra está sobressaindo.

Os paradoxos nos constituem

Em outro artigo, reconheci que nós seres humanos nos constituímos a partir de um paradoxo fundamental – o de ao mesmo tempo sermos iguais e diferentes das outras pessoas. Ao longo da vida, outros paradoxos vão sendo construídos, e alguns deles nos individualizam no mundo. Particularmente, não acredito que eles possam ter alguma solução durante nosso tempo de vida, portanto não temos outra alternativa senão compreendermos em quais elementos eles se baseiam para buscarmos formas de vida plena apesar de, e, por serem paradoxos, justamente por causa deles. E não há mais nada a fazer, porque nossos paradoxos são como as esfinges: se não os deciframos, eles nos devoram.

Os regimes de exceção buscam neutralizar os paradoxos humanos definindo arbitrariamente categorias, identidades e lugares sociais para os grupos subalternizados.

Serena é muito semelhante a Cersei, de “Game of Thrones”, sobre quem já escrevi. Ambas vivem sob o jugo dos próprios paradoxos e insistem na possibilidade de viver a vida fazendo de conta que eles não existem, incapazes que são de abrir mão dos movimentos antagônicos que abrigam em seus espíritos. Mas Cersei, antes da season finale, já foi vencida pelos próprios paradoxos e caminha para a inevitável autofagia. Serena, porém, parece ainda trazer a semente de alguma esperança de redenção, se souber compreender as raízes dos próprios desejos, para que eles possam ser minimamente convivíveis entre si. Por isso, a oportunidade de apreciar a próxima temporada de uma obra sofisticada como The Handmaid’s Tale inclui observar como Serena lidará com a imposição da maternidade, que é uma das questões mais importantes da ideia do feminino na contemporaneidade, o que nos levará a aprender um pouco mais sobre esse inesgotável tema. E, melhor ainda, junto com a série, virão ainda mais textos excelentes, alguns citados aqui, de mulheres tão brilhantes quanto Serena. Mal posso esperar por tudo isso.

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