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“The Now Now”, de Gorillaz

“The Now Now”, de Gorillaz

Mario Martins - 3 de julho de 2018

Pode anotar aí, se o Gorillaz faz mudanças ativas pelas mídias sociais, vem novidade. Foi o que aconteceu ano passado, pouco antes do lançamento de “Humanz”, que a banda decidiu remover e repostar todos os clipes do Youtube, para que se mantivesse um padrão HD já para os clipes de “Saturn Barz” e “Andromeda”.  Recentemente somos atualizados de que Murdoc foi preso e quem assume os baixos do grupo é Ace Gangrena, da animação As Meninas Superpoderosas, através do clipe de “Humility”, que parecia ser somente um single, se a banda não tivesse também alterado a foto de perfil do Spotify na mesma data.

Não deu outra, “The Now Now” veio para pegar alguns de surpresa e outros nem tanto. Possivelmente as críticas feitas ao álbum anterior chegaram aos ouvidos de Damon Albarn, o fazendo investir em menos participações dessa vez, “somente” Snoop Dogg, Jamie Principle e George Benson. As guitarras de Benson são ouvidas com um groove que é a alma de “Humility”, faixa que remete ao clássico “Plastic Beach”, que fazia frequente uso dos sintetizadores e percussão. É uma boa opção para abrir o álbum, por não ser de cara uma faixa que valha pelo álbum e nem uma que se pule para a próxima da sequência.

Reparemos então o inteligente uso de “Tranz” como 2ª faixa,um lo-fi oitentista com tema e melodias frequentes, o que consequentemente torna a música “chiclete”. A esta altura você já está curioso o suficiente para conferir o resto, caso seja uma pessoa que ouve um álbum inteiro e na ordem. Reforçando a amizade musical formada em 2010, em “Welcome to the world of the plastic beach”, Snoop Dogg logo dá as caras também, provando que a combinação funciona. Toques de rap e eletrônica já são antigos conhecidos do Gorillaz e “The Now Now” não hesita em usá-los.

Kansas” cansou de pedir um refrão que mudasse seu tom e acabou ficando daquele jeito mesmo, monótona até seu fim. A repetição da letra buscava um apelo dramático e envolvente, mas só consegue nos deixar enjoados. É uma boa música, mas só até seu segundo verso, ou nem isso. O álbum só volta a surpreender em “Idaho”, o explícito legado de David Bowie se enraizando passados somente dois anos de sua morte. Sendo a aposta psicodélica do cd, ela convence por ter mais variedades melódicas, além do lindo refrão digitalizado, que nos leva para onde quisermos.

Se você é desses fãs chatos que sentem falta da “época clássica” de um artista, vá ouvir “Lake Zurich” e lembrar do fantástico “Demon Days” (2005). Tendo capacidade para ser tocada tanto em festas dançantes quanto ambientes mais sutis por seu forte teor instrumental, a música me parece uma das que se popularizam com um remix ou quem sabe até um uso no audiovisual, por exemplo jogos de videogame. Sendo a única que realmente vale a pena na segunda metade do disco, todo o resto tem uma expectativa que não é cumprida.

 

Assim como “Sorcererz”, “Magic City” e “Fire Flies” não acrescentam em nada, fazendo parecer que só preencheram buracos para cumprir uma quantidade aceitável de faixas ou que eram apenas um material de sobra do “Humanz”. Músicas que parecem ter sido produzidas com facilidade, possuem uma dificuldade grande de soarem de forma espontânea. Ritmos repetitivos, melodias desleixadas que as aproximam de um indie preguiçoso e durações que parecem se estender conforme o tempo passa, queimando toda a boa impressão que “The Now Now” vinha passando. Damon tem facilidade para lidar com uma ambiência constante sem torná-la massante, observemos por exemplo “One Percent” que vai nos convencendo por ter uma evolução instrumental discreta e uma linha de voz tranquila, que deixa tudo soar de maneira confortável.

Tão inusitado quanto sua estréia surpresa, “The Now Now” sofre do mesmo mal de “Tranquility Base Hotel & Casino” (leia nossa crítica aqui) do Arctic Monkeys, exceto por não mudar tanto a estética dos britânicos virtuais em sua essência. Faixas boas que são minoria, a ausência de um hit para emplacar no consumo da coletânea e faixas parecidas demais. Estando a banda em turnê desde o ano passado, restam duas opções: ou o álbum foi feito às pressas ou recicla materiais já existentes no bolso da banda, provando que um grande lançamento só virá quando a banda investir mais tempo e audácia em seus projetos.

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