Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Tranquility Base Hotel & Casino, de Arctic Monkeys

Tranquility Base Hotel & Casino, de Arctic Monkeys

Mario Martins - 13 de Maio de 2018

Assim como nos filmes, na música não podemos deixar de observar detalhes que foram feitos e organizados de forma totalmente intencional. Claro que há exceções, mas num geral, torna-se parte da experiência observar a capa do álbum, a escolha do título, a opção de se iniciá-lo com a primeira faixa e encerrar com a última, ambas pensadas para cumprir seu papel de rito introdutivo e conclusivo.

 

Deste modo, “Tranquility Base Hotel & Casino” já chama atenção pelo visual vintage de sua capa, a sonoridade elegante que será contextualizada aqui ao longo do texto e seu título, que além de curioso, dá nome a 4° música. O Arctic Monkeys parece menos interessado em fazer hits de rádio e mais preocupado em explorar novos campos sonoros, de modo que se trace um tipo de narrativa entre as faixas ao longo do CD, parecendo  que elas soem repetitivas, mas acaba funcionando como um molde estético, que há de nos apresentar uma entonação e mantê-la até o fim.

Star Treatment“, o prato de entrada de “Tranquility Base Hotel & Casino”, possui elementos do jazz, como os acordes dissonantes (isto é, que “não soam bem” propositalmente, afim de criar uma tensão sonora) em sua introdução, ao mesmo tempo que soa à la David Bowie (observação essa que também serve para “American Sports“), com letras que possuem uma história para ser contada, um instrumental que não tem pressa para contá-la e se vira do jeito que está ali mesmo.

A psicodelia na música pode se desenvolver de duas formas: o contato com instrumentos/efeitos/sonoridades incomuns no cotidiano -por exemplo os ruídos sonoros de “Echoes”, do Pink Floyd- ou quando cria-se uma ambiência através da repetição, método frequentemente usado em músicas de teor ritualístico e religioso. Faixas como “Science Fiction“, “The World’s First Ever Monster Truck Front Flip“, “Tranquility Base Hotel & Casino“, “One Point Perspective” e a já mencionada “Star Treatment” ilustram perfeitamente tais características, nos presenteando com um psicodélico pomposo, de mesmo nível das recentes fotografias oficiais da banda.

 

Alex Turner investe em breves falsetes em “One Point Perspective“, o que destoa do frequente grave o qual estamos acostumados. Contudo, o grande charme dessa faixa, além da bateria que dá o tom charmoso e interessante, é a “ligadura” entre essa música e a seguinte, “American Sports”. Praticamente não se sente a graduação entre uma música e outra, tendo um sintetizador que apresenta um tema recorrente, apesar de tímido ao fundo. As melodias de “American Sports” talvez a torne a canção mais Arctic Monkeys do álbum, mas é claro que me refiro ao som da fase “Whatever People Say I am, That’s What I Am Not“.

Golden Trunks” nos traz intervalos inusitados no dueto de linhas de voz, soando relaxante e instigante. A música ganha um teor misterioso, fruto dos acordes semitonados que estruturam a base, tocados de forma pulsante com a guitarra e o piano. “She looks like fun” possui um tom teatral, retratado com o tempo quebrado e pratos que dão um ar circense quando tocados no apoio de ritmo do refrão. Apesar de possuir elementos fortes e autênticos, a música não tem muito a oferecer, podendo te fazer olhar duas vezes para o player e pensar “será que tá acabando?”.

Podendo facilmente cair no esquecimento ou sequer atrair muita atenção, “Tranquility Base Hotel & Casino” é um álbum típico de alguém que ficou 5 anos sem lançar material inédito e teve tempo para experimentar novos campos sonoros, o que pode ser um convite para novos apreciadores e uma decepção para os fãs que procuram a sonoridade mais suja e crua de álbuns como “AM” e “Favourite Worst Nightmare“.

Topo ▲